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Na Aldeia

por jpt, em 11.08.04

(um tris, já que a Proler lhe deu o bis)

Há quase dez anos que aqui não chegava, longe e difícil que o é minto-me, envelhecendo no acomodado e desinteressado que me fui ficando. Vim a indicar o caminho e estranharam pois lembro-o, nervoso, de aldeia em aldeia, curva a curva, colina a colina, e até os rios, apesar de estes não estarem que ainda não choveu este ano, enquanto exclamo aos belos da paisagem que já nem julgava esquecidos.

Aporto de surpresa, como avisar?, saio no bazar aterrorizado que não me lembrem, pois se nem ali? Mas logo me rodeiam, aleluia pelo alívio, e é reconhecimento feito de espanto. Cheguei também temeroso, a estrada toda a remoer as mortes a que terei faltado, e é assim mesmo, que a cada "o velho... está?" logo me dão um "esse morreu...!", e eu sigo "e o velho.. está cá?" para me repetirem "esse morreu...!", e não desisto no insistir "então e o velho...?", "também morreu!", "e a velha...?", "qual?...aquela lá? Foi morrer à aldeia...", "e a velha...?" "hum, também morreu...", ainda que neste ou naquele haja dúvida sobre quando e onde. E nesta sucessão há até sorrisos doces a embrulhar tudo aquilo que partiu, e tantos foram que me chega, mudemos de assunto, fiquemos entre nós, os que cá estamos, por enquanto, é claro.

Mas o meu mano ainda está, lá no "arame" dizem, esse que não só é vedação como também dá o nome à moribunda empresa, pois o algodão cada vez devolve menos. Hão-de ir chamar? Claro que sim, logo sai alguém para isso, mas atrasado pois a Cruz já chegou que um branco goooordo está a precisar dele. Enquanto isso carrego as grades de cerveja e as garrafas de aguardente que trouxe do distrito para o terreiro dele, a cunhada ali desavisada ajoelha-se quando chego - como podemos, quando poderemos, mudar o mundo disto? - imponho-lhe os beijos que logo se tornam risos, beijos que o mano e o velho Kalamo quando ali chegados me ensinarão ser por cá também coisas de entre-homens (áfinal??), e bem repenicados no pescoço por sinal. Antes que se beba levam-me a visitar algumas velhas viúvas ali vizinhas, do mettho delas já só percebo os sorrisos da lembrança e "fotografia", até alguém vai entre risos rebuscar nas arcas o seu velho, ainda ali tão presente, de súbito trazido de volta nas fotos que há tanto mandei, "lavadas" que foram lá na Nação.

Entretanto apressou-se a chegar o hiena, para que eu saiba que não veio a suceder ao tio, enganámo-nos ele e eu em tais cálculos, decerto que essa sede, ainda hoje tão viva, lhe foi fatal às ambições. Depois, e até com alguma pompa, chegará aquele que foi meu intérprete, então jovem, hoje já não tanto e ainda menos pois elevou-se - sim senhor - a "autoridade comunitária", lídere dizem-no. Rio-me num "Ich, você subiu, Albino!", riso sem malícia que lhe desmonta um pouco a pose, mas não há ofensas nisto que não lhe abaixo o alto a que subiu. Pois o grupo, entretanto crescendo, aceita-me no brincar, ganhei o direito quando todos lhe éramos mais velhos e ele quase menino. E isso mesmo apesar de ali mergulhado em tamanhas rivalidades, dessas que apelam a cuidados de diplomata. "Há problema em virem até aqui?" perguntei antes a Cruz, sentados naquela casa de genro de chefe tradicional, terreno por demais marcado para juntar facções há anos zangadas, e ele próprio sabendo que amanhã lhe repetirão acusações e zangas de ter andado "a gingar com o branco", naqueles meus tempos, e agora até outra vez. Mas "Nada!, hão-de vir...!" soube logo ele, sorrindo devagar, e estava certo, vieram os amigos de antes...

E as histórias dos tempos já antigos acompanham as primeiras cervejas mornas, são-me repetidos os velhos que partiram no entretanto, comungamos nas memórias mais jocosas sobre cada qual. E chegaremos ainda aos suaves lamentos do como a vida por ali corre ou sobre como ela não anda, e isso depende de quem está agora a falar, mas tudo se finge num relativo "vakani-vakani" um pouco-pouco mais ou menos, que agora é momento de festa, e inesperada, não é para grandes protestos. E, nem que seja por isso, há também todas essas coisas boas, quem está está bem, vivo, famílias crescendo, e eu envergonhado e com pena, não trouxe a fotografia da minha sorte que logo pediram, saudando a sua notícia. Pois também dou notícias minhas, que vou bem, e todos riem do óbvio, do gordo que estou, destes quase trinta quilos que pus em cima, sinal tão claro de bem-estar, saúde, beleza até. E riem também por esta mulher que hoje me acompanha e que digo não ser a minha, pois claro "a esta ainda não conhecíamos" riem-se cúmplices, com a ironia inventando-me, entre acrescentos, um passado atrevido que vale mais risos de entre-homens e o qual não nego, até agradado, estou já bêbedo, do jejum, dos kms, das Castles tão gordas e tantas, desta toda terra vermelha.

Mas ainda nem acabámos as cervejas, as aguardentes ali à espera por abrir e temos que abalar, o motorista já impacientado e nada encantado, pois as ordens, tão repetidas, vetam-nos a noite, essa que está aí e há muito. É então de partir mesmo que ali ao lado vizinho, perto, perto, estejam os sons de dança, que foi mais pelos tambores que percebemos os inícios da noite, bem mais do que pela luz que se pôs a escassear. É isso, temos mesmo que ir. Ainda que as aguardentes estejam por começar.

A tudo isso resmungo um falso Ok, enquanto vou fintando o tempo em todas estas demoras de partir que aumentam sem vergonha, que estou já bêbedo, do jejum do dia, dos kms tantos, das Castles tão gordas, desta toda terra vermelha. Então, ali entre os vagares, peço uma fotografia, aquela de todos nós agora, e juntamo-nos sorrindo à espera de um flash que não há-de sair, recusa súbita e nunca anunciada, ele que tanto me tem acompanhado até hoje. E nisso sinto de rajada, num forte de primeira vez, o arrepio da morte, profundo, cortante, inopinado. Ali a dizer-me, explícito no quase gritado, a fazer-me sentir, mesmo cruel, que esta fotografia, esta memória, já não se devesse ter, já não pertença à minha história, um capítulo excessivo, como se o meu lugar já ali não fosse.

Já disse, estou bêbedo, do jejum do dia, dos kms tantos, das Castles tão gordas, desta toda terra vermelha. Estou bêbedo e gelado no arrepio, mas ainda me invento sorridente a maldizer o raio da máquina, que sempre me pintei mais rijo do que o que sou, ali a falhar quando não devia, e tento insistir repetindo o fracasso, e finjo a grandeza num "paciência, fica no coração", abandonando-me até à próxima visita, e prometo-me entre beijos e nos abraços. Mas o hiena, ainda que ele, e por isso já cambaleando, sabe, soube. E sabe também que eu percebi. Há-de sair comigo, a acompanhar até lá quase ao carro, é também ele que faz a despedida, num até breve, até à próxima que os seus olhos de já velho desmentem no então constante baixarem-se. E neste por dizer nos ficamos, vou morrer antes da ali voltar, e sei-o enquanto parto, na noite.

publicado às 14:26


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