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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
De quando em vez tenho aqui abordado (e em algumas caixas de comentários alheias) a insensibilidade de bloguistas e outros escribas para com causas justas e necessárias. Insensibilidade talvez inconsciente. Mas sempre preconceituosa, com a constante utilização de conceitos, linguagens e quantas vezes imagens que reproduzem os preconceitos e a exclusão que lhes está associada. E nessa irreflexão, nessa linguagem poluída, nesses actos até vis, se vão reproduzindo práticas discriminatórias e silêncios dilacerantes. Acima de tudo estes silêncios, causas e motores de práticas de exclusão. Produtoras de miséria. Sem exagero, assassinas.
Sei que a denúncia de tais práticas (mesmo que apenas verbais) se torna fastidiosa para os "distraídos", até um ónus sobre quem se recusa a calar a indignação. Mas há momentos em que se torna imperioso exigir contenção. Se os preconceitos não desfalecem ao menos que se exija o pudor na sua expressão. É o que me ocorre hoje olhando o bloguismo luso: que dizer quando até um blog aparentemente responsável como o Bloguítica brinca com esta imagem assim desmerecendo, elidindo, o sofrimento de tantos, apagando a memória da doença do século, a urgência do combate. Apenas porque os sofredores são pobres? Porque não são europeus?
Deste Treinador de Sofá saem os parabéns para o FC Porto, agora campeão português de futebol. Bons jogadores, um treinador que gosta de ataque, de futebol bonito. E que recuperou Ricardo Quaresma, que talvez ainda venha a ser o prodígio que prometeu. Mereceram o campeonato. Digo-o com pena, claro. Mas francamente. Parabéns pois.
E também os parabéns ao Benfica. Uma excelente campanha europeia, até inesperada. Sendo campeão nacional em título decerto que ficará alguma frustração pela não renovação. Mas não se pode ganhar sempre. Daí que os meus sinceros parabéns, ao Benfica e aos benfiquistas (em particular aos bloguistas benfiquistas) pelo 2º lugar alcançado no campeonato e apuramento directo para a Liga dos Campeões. Na qual se espera que repitam a campanha deste ano.
Eu sou do Sporting. E mais me vale assim.
"I spent the years 1922-7 mostly among men a little older than myself who had been through the war. They talked about it unceasingly, with horror, of course, but also with a steadily growing nostalgia."
[George Orwell, "My Country Right or Left", In Defence of English Cooking, 2005, p.4]
[Ricardo Marques, Moçambique. O Regresso dos Soldados, D. Quixote, 2005]
Ricardo Marques é um jornalista do Correio de Manhã, de Lisboa. Neste livro narra a sua viagem a Moçambique como acompanhante-cronista de um pequeno grupo de antigos soldados da guerra colonial/de libertação (que o nome varia conforme quem lê), um grupo heterógeneo - há notícias de outras visitas de grupos nascidos na própria guerra, antigas companhias ou regimentos. É um do Maputo ao Rovuma, melhor dizendo, do Maputo a Mueda, então palco-mor de guerra. Nele se revive o corolário da nostalgia desses antigos soldados, hoje (quase)reformados, na sua esmagadora maioria regressando pela primeira vez onde combateram na juventude. A resolução de algo que faltava, o uma vez mais, o reviver onde tiveram o medo. Talvez por isso mesmo a longa urgência desta mais uma vez, repassar onde se passara amarfanhado. Mas onde também ganharam afecto à terra, às pessoas. Essas contradições que fazem rica a vida. Para estes quase-velhos é, nota-se, uma necessidade o regresso, a visita. Uma última vez, explicitamente para muitos, implicitamente para quase todos.
Mas o livro é também a memória das impressões de então cruzada com as de hoje, tornando-o assim pequeno documento para entender a visão que os soldados tinham, e iam criando, do Moçambique onde guerreavam. E de como essa imagem se foi transformando até ao hoje.
Torna-o também interessante uma prosa seca, com a vantagem de procurar fugir a moralizações, saudosismos, exotismos, turistismos. Vai vendo e ouvindo os velhos soldados, transmite-nos o que eles viram e vêm aqui. Depois tem piada encontrar velhos conhecidos por entre o livro, o padre Lopes na ilha, ainda a falar da maldita (e horrorosa) estátua do Camões, o Simões (que se irritaria se lesse o livro), o lendário Santos de Mueda, símbolo do tasqueiro português, que vim a apanhar no Encontro e na Tasca de Pemba, agora algures em Nacala, entre outros. E assuntos que fazem a história actual, como o omnipresente boato do pagamento de pensões aos ex-soldados do exército português, coisa que durou para aí uma década e que exigiria um livro, sobre expectativas criadas e também sobre a extraordinária capacidade de reprodução de boatos.
Que, no fim, é um bocado superficial sobre Moçambique? Reproduzindo acriticamente algumas ideias-feitas, "a saudade de Portugal", a excelência do português sobre os dialectos? É, mas é o registo de uma viagem, uma romaria de saudade que é também catarse. Não pretende ser mais nada. Se não se for mais exigente lê-se com muito prazer. E toma-se até como fonte. Confesso que logo de início torci o nariz, o pressuposto logo ali espalhado, quase me levou a largar o livro. Apenas a gargalhada me levou a continuar, e ainda bem. Narra R. Marques (p. 42) que ele e o grupo foram abordados em busca de "ajuda": ""Lembram-se de mim?", pergunta o sujeito, de bolsa na mão. "Não", respondem os portugueses. Compreende-se, afinal está à civil. Mas o homem trabalha no aeroporto, no controlo alfandegário e, conta, "facilitou a entrada do grupo no país" há escassas quatro horas. Agora saíu do serviço. Mas não se esqueceu. "Será que me pode dar uma ajuda?". Não é corrupção, nem é esmola..."
O que me ri, apanharam com esta conhecidissima personagem de Maputo, sempre bem-posto, simpático, esfuziante, a apanhar os portugueses saídos do avião, sempre com a mesma história. E tantos são os anos passados que bom rendimento deve ter, ali em "ajudas" dadas pelos incautos. Folclore puro e simples, o homem devia até ser considerado atracção turística. Tomaram-no a sério, surge como imagem do estado do país. Não é, é um tipo do conto do vigário, universal. Pacífico, diga-se.
Criticável? Nada, Marques e os outros passaram e viram. Lido sem criticismos absurdos o livro é bem interessante. E, particularmente, para os velhos soldados.
Há outra coisa não tanto sobre o livro mas sobre estas viagens que se vão fazendo usuais. Aqui narra-se uma viagem em finais de 2003, por altura das eleições municipais. E faz-me lembrar o certo frisson que, diz-se, existiu no ano seguinte por alturas das eleições presidenciais e legislativas. A causa foi exactamente a série de viagens de velhos soldados nessa época. Talvez seja mero boato mas então constou que a chegada de vários grupos de excursionistas causou a impressão de movimento militar, porventura apoiante de um dos partidos em compita, e que tal teria até levantado problemas na atribuição de vistos. Repito, talvez seja apenas boato (outro), mas significa também o peso simbólico que estas viagens têm ainda. Em ambos os lados de então. Se tiver sido verdade bastaria ler um livro assim, ver as fotos, para o desengano. Memórias vivas. E, surpreendentemente (?), fraternais. Apesar da guerra que fizeram? Por causa da guerra que fizeram.