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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Nos próximos dias, por razões lúdicas e profissionais, não poderei actualizar o blog. Abaixo ficou uma enxurrada de entradas, que estavam em mais-ou-menos rascunho. Obrigado pelas visitas. Aos bloguistas de várias latitudes: zanguem-se (sim, o crescimento bloguístico em Moçambique também azeda, deve ser uma lei física. Ou informática). Zanguem-se muito.Aos bloguistas de grande espírito: Viva o Sporting! O sofrido é risonho. Falo do futuro, claro.
Até hoje sempre pensei que se estivesse em Lisboa votaria. Mas com declarações deste tipo Soares Franco descredibiliza-se, totalmente: "há dez anos herdámos um Sporting de tanga"? E nestes dez anos o que aconteceu para se chegar onde se chegou? 277 milhões de euros de deficit e a culpa é da "pesada herança"? Do gonçalvismo? Do fascismo?
Não adivinho nenhuma alternativa. Mas com uma demagogia destas de quem está no poder no Sporting há mais de dez anos (o "projecto Roquette"), escamoteando um óbvio falhanço, porventura suicidário, não adivinho grande futuro. O Sporting está à beira do abismo. Declarações destas demonstram quem quer dar o passo em frente.
Não há dúvidas, o peso dos homens na história é decisivo. Aquilo que o Senhor João Rocha construíu (e há ignorantes que ainda vêm acusá-lo por um jogador de futebol que mudou de clube) foi absolutamente dissipado. A minha homenagem a esse grande nosso Presidente. A minha saudade. E a minha angústia.
"Political or military commentators, like astrologers, can survive almost any mistake, because they more devoted followers do not look to them for an appraisal of the facts but for the stimulation of nationalistic loyalties. And aesthetic judgements, especially literary judgements, are often corrupted in the same way as political ones."
[George Orwell, "Notes on nationalism", In Defence of English Cooking, Penguin Books, 2005, p. 12]
[António Sopa, Bartolomeu Rungo, Maputo-Roteiro Histórico Iconográfico da Cidade, Centro de Estudos Brasileiros, 2006, 56 pps.]
(c. 1880)
(1960-1970)
[John Locke, Carta Sobre a Tolerância, Edições 70, 1996, (tradução de João da Silva Gama, revista por Artur Morão)]
É óptima a existência destas edições populares dos clássicos. São relativamente baratas, acessíveis à compra (encontram-se, são distribuídas). E assim permitem aos populares ler tamanhas palavras. E, mais do que tudo, recomendarem-nas, emprestarem-nas, recortarem-nas e assim passá-las aos populares mais novos. Têm defeitos nas notas de rodapé? Referências bibliográficas incompletas? Notações exóticas? Citações incompletas? Revisões parece-que-inexistentes? Terão, mas é por isso que são populares. Letra pequenina e lombada frágil? Sim, mas são populares.
O que me irrita são as não-traduções. Não é a primeira vez que aqui venho com latinices semelhantes. Não consigo entender a inexistência de tradução (que seja entre parêntesis, que seja em rodapé, até mesmo no fim do livro) das citações em latim. Durante muito tempo pensei que fosse sinal de distinção. Género quem aqui vem (o aqui são as ilustres colecções) tem que saber latim (e alemão, também sofre do mesmo mal). Pensei assim bastante tempo, chapéu na mão, respeitoso e humilde diante do saber de quem edita ou traduz tão grandes pensadores. Ainda que paradoxo, então as colecções populares não serão para nós, populares? Já letrados no hoje-em-dia do progresso mas não em latim (ou, repito, em alemão)? Mas enfim, de paradoxos está o mundo cheio. Ainda assim isto irrita-me, e cada vez mais.
Como mero exemplo, nesta "Carta Sobre a Tolerância" as duas siglas, bem significantes, que integraram a edição original, anónima, surgem
pelo menos 3 vezes, nas introduções e no texto. Em nenhuma delas são traduzidas, tal como várias outras citações. Porquê? Nós, populares, não podemos saber o conteúdo exacto e total do livro? Há dimensões que serão só para iniciados?
Repito, isto é mania geral, não apenas neste livro. Tradutores altaneiros? Editores elitistas? Vice-versa?Talvez não. Pois estas são traduções de edições traduzidas. E quando nessas edições base (normalmente em francês) algum excerto em latim foi traduzido também aqui o surge em português. Portanto a imperscrutabilidade do latim não é um dogma (aliás neste caso está-se a traduzir um original latim, mas enfim). E na única tradução do latim para português (ainda que mediado pela tal tradução francesa, ainda assim) em todo o livro o jeito é este:
"Não tinha ele tomado como divisa o pensamento atribuído a Santo Agostinho: In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas" (na necessária unidade, na dúvida liberdade, em todas as coisas caridade)" [meu sublinhado]. [versão wikipedia, para quem tiver curiosidade]
Confirme-se. É um pequeno erro (ainda que invalide uma ideia). Até pode ser de revisão. Mas denota bem, o restante latim deste(s) livro(s) não é traduzido porque é desconhecido. E não se solicita trabalho complementar. O latim a seco não é sinal de distinção. Afinal somos todos populares, posso entrar. E ponho o chapéu na cabeça.
Mas e os mais-novos, como lhes traduzir as latinices avulsas? E, principalmente, como não os deixar assustar diantes dos excertos (quase)incompreensíveis?