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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)

"Having trawled through my hard disk, however, I've reached the conclusion that obscurity is exactly what most of that writing does deserve". (Jonathan Coe, "Introduction", 9th & 13th, Penguin Books, 2005, 1)

Há algum tempo ocorreu no bloguismo português um debate sobre os 500 anos do massacre de judeus em Lisboa. De tudo o que já li nesse meio o que então ocorreu foi-me o mais desagradável. De intolerância mútua. Muito dela germinada na incompreensão (um outro tanto na arrogância). Também a esse respeito, do olhar a história e assim fazer o presente, aqui deixo um excerto de uma entrevista a Pierre Nora que gostaria de ter divulgado nessa ocasião. Os realces (a azul) na introdução da entrevista e nas declarações de Nora são de minha responsabilidade.
Pierre Nora et le métier d'historien. « La France malade de sa mémoire » ", Propos recueillis par Jacques BUOB et Alain FRACHON, Le Grand Entretien, Le Monde 2, n° 105, février 2006 ; in " Colonies : un débat français ", Hors-série Le Monde 2, mai-juin 2006.
Que faire quand la France est tiraillée entre des minorités - ethniques, religieuses, sexuelles - qui, toutes, cherchent à imposer leur "mémoire" à la majorité? Que faire quand ces minorités entendent sacraliser la perception qu'elles ont de leur passé et interdire par la loi ou la pression sociale, qu'on puisse la contester?
L'affaire des caricatures de Mahomet et celle du débat sur la colonisation posent des questions voisines. Est-ce au législateur de trancher, de dire l'histoire? Il s'en est mêlé: loi Gayssot de 1990, qui érige en délit la contestation d'un crime contra l'humanité; loi Taubira de 2001, qui fait de la traite négrière un crime contre l'humanité.
Cette tendance, très française, a subi un revers avec l'annulation par le Conseil constitutionnel de l'alinéa de l'article 4 de la loi du 23 février 2005 sur la nécessité d'enseigner "le rôle positif de la présence française outre-mer". C'est que lhes historiens se sont rebellés. Contre l'intimidation du politiquement correct et contre les prescriptions de l'État dans la lecture de l'histoire.
L'un des plus éminents d'entre eux, Pierre Nora, a participé à cette bataille. (...)
Le Monde 2 - Les questions de l'esclavage et de la colonisation, la notion de crime contre l'humanité appliquése à des événements du passé ont fait irruption dans le débat public. Notre histoire semble remise en question. La confusion régne entre une analyse "historique" de ces événements et une approche "mémorielle", plus épidermique, plus immédiate, plus politique. Chacun réclame la reconnaissance de sa douleur. Face à ce déferlement de sentiments contradictoires, touchant à la réalité de notre passé commun, l'historien est mis en question. Voire en accusation. Que faut-il penser?Pierre Nora - La tendance à appliquer la notion de crime contre la humanité à des événements du passé, si révoltants qu'ils puissent être, est dangereuse et inquiétante aux yeux d'un historien. Car cette notion est très précisement définie.
Elle comporte deux aspects qui sont, par principe, étrangers à l'historien: une condamnation morale, qui suppose une humanité identique à elle-même et relevant des mêmes critères de jugement qu'aujourd'hui; et un principe d'imprescriptibilité, qui suppose un temps identique à lui-même, alors que l'histoire est d'abord un apprentissage de la différence des temps.On comprend l'application de cette notion à des assassinats de masse contemporains, visibles, tangibles. Mais avec la traite et l'esclavage que vise la loi Taubira de 2001, on est de deux à cinq siècles en arrière. Et quels auteurs de ces crimes poursuivra-t-on sinon les historiens que évoquent ces événements en des termes que n'autorixe pas la loi?
Il y a là une porte ouverte à la dérive qui ne s'explique que par une forme de laxisme politique et par l'atmosphère repentante et pénitencielle qui règne sur notre société. Cette dérive tend à mettre les historiens au premier rang d'un débat sur la liberté intellectuelle, parce que leur travail est, par définition, le contraire du jugement moral et de la distribution de bons points.
Le Monde 2 - Que préconisez-vous pour sortir de cette situation?
Pierre Nora - Que chacune des parties prenantes au passé reste à sa place. Je suis stupéfait des difficultés à faire comprendre les positions que nous avons prises, pourtant simples et claires.
Beaucoup font semblant de croire qu'il s'agirait de refuser aux politiques le droit de s'occuper du passé. Je n'ai pourtant jamais recontré un historien pour croire que "l'histoire est le monopole des historiens", selon la nouvelle formule.
Il est parfaitement normal que la représentation nationale, sous la forme parlamentaire ou présidentielle, formule des déclarations, vote des résolutions, institue des commémorations, organise des hommages, décide des compensations, construise des musées. C'est son rôle, et même son devoir, de cadrer et d'orienter la mémoire collective, d'honorer les victimes surtout. Aux politiques la gestion du symbolique, le respect du rituel - le seul problème étant qu'ils le fassent à bon escient, avec intelligence et générosité." (...)
Adenda:1. Lei 90-165 (Gayssot) [contra racismos, antisemitismo e xenofobia] (texto); "Le génocide, le juge et le historien", de Madeleine Rebérioux (L'Histoire no 138, novembre 1990, pp. 92-94); "Contre la loi Gayssot", de Madeleine Rebérioux (Le Monde).
2. Lei Taubira (esclavagismo como crime contra a humanidade).

Manuel Maria Carrilho, Elogio da Modernidade (Presença, 1989).
Analisando António Sérgio, com inclemência, mas deixando algo de âmbito mais vasto:"Particularmente interessante é ver que o ensaísmo, "género" que por vezes se identifica entre nós com o sergianismo, carece quer de nitidez estratégica quer de determinação epistemológica. Procurando cobrir todas as disciplinas e áreas do saber e ambicionando efeitos não só pedagógicos e filosóficos mas também sociais e políticos, o ensaísta surge como uma figura omnipresente que não se encontra em parte alguma, instaurando assim um universo de "múltiplos ecos que insinuam que de outro lado poderá vir sempre um suplemento compensador das carências, insuficiências ou imprecisões que num texto ou domínio se detectem, ou, inversamente, um suplemento de suspeita que dificilmente facilitará uma abordagem que, para lá da crítica, pretenda não recusar a adopção de uma perspectiva ou o risco de uma avaliação" (80)

José Guilherme Merquior, A Natureza do Processo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982) [Artigo relacionado aqui]
"...a melhor maneira de corromper um jovem é ensiná-lo a considerar mais aqueles que pensam igual do que aqueles que ousam pensar diferente." (pp. 208-209)**"A educação", disse Lord Brougham, "torna um povo fácil de governar mas impossível de escravizar". Tudo o que foi exposto, ou melhor, lembrado, neste livro sobre o progresso da civilização, supõe que o sentido e valor do processo histórico radicam num substancial aumento da liberdade. Aumento quantitativo: liberdade para muitos mais do que antes; e aumento qualitativo: liberdade múltipla e diversificada. Mais liberdades, e mais gente livre. Em última análise, a natureza do processo é o progresso da liberdade.Claro que, no processo, a presença, e até o papel, da violência são inegáveis. Mas a questão é saber se o seu vulto na sociedade cresceu ou diminuiu a partir da civilização burguesa que criou o industrialismo - e se o status cultural da violência, interna ou externa, foi reforçado ou minado." (198-199)"O problema é saber que significamos com a palavra "educação". De que se trata, fundamentalmente - de cultura, ou simplesmente de instrução? ... Sem instrução popular, é impossível estimular a cultura moderna, individualista por natureza..." (200)"A mensagem da história contemporânea é clara: cultura sem instrução colectiva é uma vã nostalgia conservadora; instrução sem cultura, uma atrofia do desenvolvimento." (207)"Já se observou que o único verdadeiro objecto da educação é deixar um ser humano em condições de fazer permanentemente perguntas. Justamente porque nossas massas industriais instruídas são geralmente incapazes dessa vigilância crítica é que prosperam as superstições leigas sobre a sociedade (marxismo) ou a psique (freudismo e dissidências). Uma educação crítica (expressão no fundo tautológica) produz naturalmente agnósticos aptos a recusar racionalmente os gnósticos extraviados na modernidade e propensos a transviar a cultura liberal da democracia e do progresso." (209)"..."revoluções educacionais" que se limitem a ampliar o acesso à instrução são saltos desenvolvimentistas de fôlego muito curto. A universidade de massa, produtora em série de "idiots savants", não é uma resposta eficiente ao desafio desse desenvolvimento contínuo que é o destino do industrialismo. Pois uma população de "idiots savants" será sempre fácil presa do generalismo charlatão, assim como um mundo instruído mas inculto será indefeso ante as revelações profanas de pseudoculturas messiânicas, salvacionistas ou apocalípticas." (208)"Chesterton captou nada menos do que a essência da cultura no velho sentido humanístico da palavra: cultura como autocultivo, cultura como fenómeno eminentemente perfectivo." (212)**"...aspecto muito frequente dos humanismos antimodernos: sua aglutinação em seitas ideológicas. A história dos humanismos nos últimos cem anos prova que é bem alta a taxa de convergência entre o que chamamos de "humanismo excludente" e uma formação sociocultural bastante peculiar: a vanguarda. ...vanguardas foram os diversos grupos artísticos e literários que criaram o euromodernismo em luta contra o espírito dos tempos modernos, erigindo a ideologia estética em antítese da ideologia social. Vanguardas são ... muitas delas herdeiras confessas do rejeicionismo cultural euromodernista.Essas coincidências ... revelam, de um ângulo sociológico, o parentesco de todos esses humanismos: a sua natureza gnóstica, isto é, de conhecimentos "superiores", fora do alcance do homem comum - que essas ideologias se propõem justamente orientar, guiar e "salvar";" (196)"Somente o teor crítico da genuína educação poderá resgatar a arte do nosso tempo da mentalidade niilista em que ela mergulhou, ao exarcebar o impulso antinômico das vanguardas euromodernistas; niilismo sempiternamente repetido a cada nova proposta de (anti)arte, a cada novo idioleto repassado de preconceitos e crendices contraculturais, e cansativamente saudado por esse santuário do conformismo intelectual que é a crítica neólatra de arte, de literatura ou de espectáculos ... essa arte "radical" - como seus equivalentes literários - representa o ponto mais baixo, o nadir, de uma cultura estética que se deixou colonizar pelo rancor "humanista" contra a civilização moderna. ... Uma arte que grita "pereat mundus" à história social não tem como enriquecer seu conteúdo - condena-se ao autismo da antiforma. Da desumanização da arte passa-se faltalmente à insignificância da arte, a uma produção artística cada vez mais irrelevante e supérfula, cada vez mais isolada da conversação inteligente e sensível da humanidade consigo mesma". (210-211)***"A lição de todos os grandes modernizadores ... consistiu em acreditar na eficiência de certas instituições, desmentindo implícita ou explicitamente quantos atribuíam [as] deficiências a factores étnicos ou psicoculturais. ... acreditar nas instituições não é uma fé cega. Não consiste em abdicar da consideração crítica de seus efeitos, limites e implicações. Por isso ... vivendo na atmosfera de livre exame inerente à sociedade aberta, exige o primado da moral de responsabilidade sobre a moral da convicção." (213)

José Guilherme Merquior, O Liberalismo. Antigo e Moderno (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991, p. 57):
"Na cosmologia clássica da ideologia cívica, a praxis, a acção de homens livres, foi colocada muito acima da poiesis, a produção do trabalho manual. Por que motivo? Porque enquanto o objectivo da poiesis reside no produto e, portanto, em algo que ultrapassa a actividade que o produz, a praxis ou acção é um fim em si mesma. Smith foi o primeiro teórico social de importância a inverter essa valorização: em A Riqueza das Nações, a práxis de políticos, juristas e soldados é redondamente depreciada, enquanto a produção passa por cima. O comércio e a manufactura, e não a prática da política ou a actividade guerreira, proporcionaram o modelo da actividade meritória. E esta mudança de valores implicava o abandono da propensão elitista incorporada à saudade cívica."

Michael J. Sandel: O Liberalismo e os Limites da Justiça (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2005, pp. 12-13)
"Uma ... maneira de amarrar a justiça a concepções do bem sustenta que, para sua justificação, os princípios da justiça dependem do valor moral ou do bem intrínseco das finalidades que servem. Nesta perspectiva, o argumento para o reconhecimento de um direito depende da capacidade de se demonstrar que esse direito honra ou promove um bem humano importante. Não será decisivo saber se um tal bem é amplamente apreciado ou se encontra implícito nas tradições de uma comunidade. Esta ... maneira de ligar a justiça a concepções do bem não é, portanto, e em sentido estrito, comunitarista. Uma vez que baseia a justificação dos direitos na importância moral dos objectivos ou das finalidades que promovem, deverá, com maior propriedade, ser classificada de teleológica, ou (no calão da filosofia contemporânea) perfeccionista. A teoria política de Aristóteles é um exemplo desta abordagem. Antes de podermos definir os direitos de um povo, ou indagar sobre a "natureza da constituição ideal", escreve, "temos primeiro que determinar a natureza do modo de vida mais apetecível. Enquanto isto permanecer obscuro, a natureza da constituição ideal permanecerá necessariamente obscura também." (Aristóteles, The Politics of Aristotle, 1323a14, ed. e trad. de Ernest Baker, London, Oxford University Press, 1958, p. 279)"Os argumentos acerca da justiça e dos direitos acarretam inevitavelmente um juízo de valor. Os liberais, que crêem que a defesa dos direitos deve ser neutral relativamente às doutrinas morais e religiosas substantivas, e os comunitaristas, para quem os direitos devem decorrer dos valores sociais dominantes, cometem o mesmo erro; ambos procuram evitar emitir um juízo de valor sobre as finalidades promovidas pelos direitos. ... a justificação dos direitos depende da importância moral das finalidades que estes servem."
Prince Roman é um conto visto como "obra menor" em Conrad. Mas é o único que mergulha na sua Polónia natal. E que, se calhar por isso, assume explicitamente um tom autobiográfico - o narrador (o inominado "speaker ... of Polish nationality") é Conrad, que recupera um episódio da sua infância para encetar o episódio. Daí talvez o tanto da sua cosmovisão que é deixada, e vincada, nesta pequena história. Sublinhada pelo recordar da (sua) amputação pessoal que a distância provoca:
"And this familiar landscape associated with the days without thought and without sorrow, this land the charm of which he felt without even looking at it, soothed his pain, like the presence of an old friend who sits silent and disregarded by one in some dark hour of life."
[Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997, 212]Obra menor, será. Um menor neste contexto. Maiorizando-se, assim.
Roman Sanguszko, príncipe."This looks like mere fanaticism. But fanaticism is human. Man has adored ferocious divinities. There is ferocity in every passion, even in love itself. The religion of undying hope resembles the mad cult of despair, of death, of annihilation. The difference lies in the moral motive springing from the secret needs and the unexpressed aspiration of the believers. It is only to vain men that all is vanity; and all is deception only to those who have never been sincere with themselves".(Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997, 218)
"The man the Prince was expecting ... was of a family of small nobles who for generations had been adherents, servants and friends of the Princes ... He remembered the times before the last partition, and had taken part in the struggles of the last hour. He was a typical old Pole of that class, with a great capacity for emotion, for blind enthusiasm; with martial instincts and simple beliefs; and even with the old-time habit of larding his speech with Latin words. And his kindly shrewd eyes, his ruddy face, his lofty brow and his thick, grey, pendent moustache were also very tipical of his kind." (214)
"The aristocracy we were talking about was the very highest, the great families of Europe, not impoverished, not converted, not liberalised, the most distinctive and specialised class of all classes, for which even ambition itself does not exist among the usual incentives to activity and regulators of conduct. The undisputed right of leadership having passed away from them we judged that their great fortunes, their cosmopolitanism, brought about by wide alliances, their elevated station, in which there is so little to gain and so much to lose, must make their position difficult in times of political commotion or national upheaval. No longer born to command - which is the very essence of aristocracy - it becomes difficult for them to do ought else but hold aloof from the great movements of popular passion." (206-207)
[Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997]
Imagem do escudo da revolta polaca de 1831 recolhida aqui.
Adenda: Aristocracia polaca.
Joseph Conrad:"It was the dead of winter . The great lawn in front was as pure and smooth as an Alpine snowfield, a white and feathery level sparkling under the sun as if sprinkled with diamond-dust, declining gently to the lake - a long, sinuous piece of frozen water looking bluish and more solid than the earth. A cold brilliant sun glided low above and undulating horizon of great folds of snow in which the villages of Ukrainian peasants remained out of sight, like clusters of boats hidden in the hollows of a running sea."(Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997, pp. 207-208)
Jozef Korzeniowski.:"The speaker was of Polish nationality, that nationality not so much alive as surviving, which persists in thinking, breathing, speaking, hoping and suffering in its grave, railed in by a million of bayonets and triple-sealed with the seals of three great empires".(Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997, 206)
"...patriotism - a somewhat discredited sentiment, because the delicacy of our humanitarians regards it as a relic of barbarism ... It requires a certain greatness of soul to interpret patriotism worthily - or else a sincerity of feeling denied to the vulgar refinement of modern thought which cannot understand the august simplicity of a sentiment proceeding from the very nature of things and men". (Joseph Conrad, Prince Roman, p. 206; versão electrónica disponível aqui).
Private faces in public places
Are wiser and nicer
Than public faces in private places
(W.H. Auden)