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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Ruy Duarte de Carvalho, Os Papéis do Inglês, Lisboa, Cotovia, 2000"Ontem à tarde ocorreu uma configuração na paisagem de que nunca mais me vou esquecer. Todo este tempo tem sido de chuva e fui aferindo daqui, todas as tardes, os caminhos da água que inexoravelmente nos iam envolvendo umas vezes pelo sul e depois a rodar para leste, outras pelo norte, uma massa pesada e compacta de céu muito escuro que de oriente se estendia até muito longe, uma barreira azul-cobalto por detrás das nuvens mais próximas e das suas bordaduras, dos seus debruns, brancos e explosivos. Só longínquo ocidente preservava uma faixa de céu limpo, que o sol atingiu quando ia a pôr-se e de onde irrompeu então essa luz verde, rasante e limpíssima, que acontece às vezes e incandesce mais do que ilumina. As superfícies brancas da lona da tenda e da chapa do jipe, o ocre do chão, as ramas dos mutiatis, as pedras e as roupas do Paulino e do sobrinho, tudo irradiava uma espantosa luminosidade autónoma. De costas para o ocidente, era o espectáculo destas fontes de inverosímil luz contra a barreira de chuva a leste, painel total. A envolver o acampamento todo, o jipe dum lado, a tenda do outro, duas árvores no meio e entre e para além delas as pedras que nos servem de cozinha e as pessoas nelas, havia não apenas um, mas dois arcos-íris, altos no céu, concêntricos e assentes no perfil do verde da mata próxima. E tudo exactamente no centro dos dois arcos. Uma coisa assim perfeita, concertada, determinada, irreal, e tão completamente ordenada em função daquele local, eclodia perfeita qual aparição e seria puro vício de prevenção não lhe conferir um estatuto de sinal. Mas era como numa gravura abusiva e kitsch, inverosímil e quase obscena pela artificialidade da composição e pelo excesso impudico da cor." (182-183)
Ruy Duarte de Carvalho, Como Se o Mundo Não Tivesse Leste, Lisboa, Cotovia, 2003"Um homem não deixa nunca sem mágoa um espaço que inventou e o inventou, uma nação que urdiu para si por escolha e amor ao chão." (43)"Já vive no mundo que não se distingue. Se é vivo, se é morto, se é Deus, se é palavra, se é gesto, se é alma, não lhe dá cuidado. É o mundo, e se é mundo progride em silêncio, porque é o silêncio que governa tudo." (156)
Ruy Duarte de Carvalho, Vou Lá Visitar Pastores, Lisboa, Cotovia, 1999"Quererás tu, ou poderá interessar-te, ou ajudar-te, saber o que ando eu próprio para aqui a fazer; investido há mais de cinco anos num projecto que ninguém me encomendou e a tentar por todos os meios torná-lo socialmente rentável sem perder no entanto de vista que se trata de facto de um projecto pessoal que em plena consciência me atrevo a manter e a sustentar apenas porque através dele não descuro, antes reforço, as obrigações e actuações que entendo inerentes ao meu lugar cívico, sem prejuízo, antes com benefício, para a comunidade em que ocupo o lugar de cidadão em condições de agir segundo os seus próprios recursos e instrumentos?" (101)
Ruy Duarte de Carvalho, Observação Directa, Lisboa, Cotovia, 2000//andou anos a dizer que a uma paisagem, para tê-la,só podendo partilhá-la, até que aprendou a partilharcom a própria paisagema amarelidade, em si, do amarelo dela.
Ruy Duarte de Carvalho, Actas da Maianga, Lisboa, Cotovia, 2003"Proclama-se pois a determinação de repor um passado, de reabilitar uma "cultura" nossa, e investe-se em conformidade, mas o que se "repõe" não corresponde afinal a passado nenhum nem a qualquer presente que não seja o da representação que um certo presente faz daquilo que hoje lhe ocorre poder ser um passado adequado às estratégias que o presente lhe dita. O equívoco, assim, proposto como testemunho." (233)
Ruy Duarte de Carvalho, Aviso à Navegação, Luanda, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1997"Nunca me ocorreu falar em nome fosse de quem fosse e pessoalmente ponho séria e constantemente em dúvida a fundamentação de qualquer filosofia, modo ou dispositivo de representatividade. Mas do ponto de vista da minha actuação cívica, e aqui não é o antropólogo que se manifesta mas o cidadão angolano, só posso justificar-me, perante as populações e perante mim mesmo, se continuar a trabalhar para que a "sociedade global" tenha em conta a diversidade dos interesses e das lógicas que a nossa realidade comporta e se aperceba de que, por exemplo, numa era em que tanto se fala de direitos humanos, não cabe certamente num tal espírito de cruzada o sacrifício do direito de certas populações preservarem a capacidade de se resolverem quando os processos donde emanam os discursos sobre os direitos do homem conduzem à desestruturação e à destruição totais." (134-135)