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por jpt, em 03.07.06
Chega-me via e-mail (presumo que numa corrente), mas vem apropriada a citação:" (...) O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino? (...)(Mia Couto, O Fio das Missangas , Lisboa, Editorial Caminho)

publicado às 11:37

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por jpt, em 03.07.06

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Michel Maffesoli, O Eterno Instante. O Retorno do Trágico nas Sociedades Pós-Modernas, Lisboa, Instituto Piaget, 2001

"Na origem desses diversos totalitarismos, há uma paranóia: a de um racionalismo mórbido, que procura uma explicação última (raça, classe, lei do mercado) e que rejeita tudo o que não se submete a uma tal injunção. Para parafrasear Paul Valéry, direi que a procura da "profundidade" só pode resultar num "de profundismo" mortífero, de que esses cavaleiros de triste figura, que se erigem em "proprietários" da sociedade, são os protagonistas essenciais.Dom Quixote da modernidade, eles têm o poder de dizer o verdadeiro e fazer o bem. E, por isso mesmo, consideram que têm legitimidade para perseguir a gaya scienza, o saber "inútil", ou a maneira de ser irónica e desenvolta, muito mais inclinados a usufruir da existência, em gastarem-na, em vez de a contabilizarem. O politicamente, o filosoficamente, economicamente correcto deste fim de século talvez seja o último avatar, um pouco ridículo, dessa paranóia totalitária". (112)

publicado às 11:34

A Pomba, de Patrick Suskind

por jpt, em 03.07.06
 

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Patrick Suskind, A Pomba, Lisboa, Presença, 1987 (Tradução de Teresa Balté)

Sem ascensões a críticas, apenas recensão do que vou folheando. Mas ainda assim esta mostra do absurdo tailorista (modernidade?), como concentracionário higienista, psicanaliticamente explodindo dado o magma do nazismo, é muito arrumadinho e explicadinho para o meu gosto.

"Quando lhe aconteceu isto da pomba, que de um dia para o outro mudou radicalmente a sua existência, já Jonathan Noel estava com mais de cinquenta anos, havia uns bons vinte que levava uma vida igual e sem incidentes e nunca lhe teria passado pela cabeça que ainda lhe pudesse vir a acontecer qualquer coisa de importante, senão morrer." (7)"Já quase transpusera a soleira, levantara já o pé, o esquerdo, a perna já começara a dar o passo - quando a viu. Estava pousada diante da porta, a menos de vinte centímetros da soleira, iluminada pelo pálido reflexo da luz matinal que entrava pela janela. Estava encolhida, com as patas de garras vermelhas assentes no pavimento do corredor, no ladrilho encarnado, cor de sangue de boi, com a plumagem lisa, cinzenta-chumbo: a pomba." (15)"Em seguida pegou na lata vazia, nas cascas da pera e no papel do queijo e embrulhou tudo no saco, juntamente com as migalhas de pão, depositou o lixo e a garrafa vazia no canto, atrás da porta, retirou a mala de cima da cadeira, arrumou a cadeira no seu lugar, na ábside, lavou as mãos e foi para a cama. Enrolou o cobertor de lã aos pés da cama e tapou-se apenas com o lençol. Depois apagou o candeeiro. A escuridão era completa. Não penetrava no quarto um único raio de luz, nem sequer pela fresta, lá no alto, só a fraca corrente de ar quente e húmido e os ruídos vindos de muito, muito longe. "Amanhã mato-me", disse. E adormeceu." (82)

publicado às 11:31


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