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As Fichas da Índico (2)

por jpt, em 01.11.10

Samussone MACAMO

Nascido em 1945, em Chibuto. Migrou jovem para a então Lourenço Marques onde foi empregado doméstico e cozinheiro entre 1959 e 1970, período durante o qual foi colega do futuramente célebre Chissano. Em 1973 procura o já então renomado escultor que o acolhe durante 30 dias no seu atelier, iniciando-o na arte escultórica, sendo aí que obteve o saber brotar a imagem da madeira. Logo se profissionalizou como artista, realizando a sua primeira exposição individual em 1974 na “Casa Amarela” (hoje Museu da Moeda) e instalando-se como artista residente no Núcleo de Arte até 1979, data a partir da qual constituiu o seu próprio atelier. Desde então participou em múltiplas exposições colectivas nacionais e no estrangeiro (Portugal, Áustria, Itália, Espanha), bem como algumas individuais.

Na sua obra reconhece-se não só o estilo mas também a herança do imaginário do seu mestre. Trabalhando madeira, em particular o sândalo mas também umbila ou chanfuta, Macamo reclama a sua arte como uma escultura narrativa versando sobre o quotidiano, fiel a uma arte interventiva que filiada à urgência de uma elaboração pictórica do abismo humano, defrontada à pobreza que assola o seu povo.

Morada:  Bairro Mavalane, Quarteirão 7, nº 20

Telefone: [acessível a quem o pedir por e-mail para aqui]

DITO

Nasceu em 1960 em Maputo. Jovem ainda iniciou-se no atelier do seu tio Idasse. Após isso ombreou com os vizinhos Luís Sengo e Tinga, companheirismo dos bairros de Infulene e T3, uma partilha de aprendizagens e vivências locais que muito viria a marcar a sua obra futura. Com o objectivo de se formar em pintura parte para a Alemanha (Schwerin, então RDA) em 1985, onde trabalhou numa fábrica de processamento de cabedal durante dois anos e depois frequentou um curso médio de pintura. Desse período salienta a formação recebida e o contacto com a tradição artística europeia, em particular a influência recebida dos impressionistas e dos expressionistas. Regressou a Moçambique em 1989 tendo sido professor até 2000, quando se profissionalizou como pintor. Desde então tem pintado em tinta-da-china, acrílico e aguarelas mas actualmente centra-se no óleo em tela. Artista particularmente activo tem organizado e participado em várias exposições colectivas em Maputo, e ainda participado em colectivas no estrangeiro (Botswana, África do Sul, Itália, Espanha, Portugal).

A sua obra ocorre num universo demarcado. Dito percorre e recria o mundo feminino dos subúrbios, utilizando o seu registo figurativo como forma de realçar a beleza dessas mulheres, o engenho das suas estratégias de vida, do seu embelezamento, os momentos de lazer, da conversa constante, o espaço público que elas marcam e festejam. É assumido o seu propósito de narrar um mundo de felicidade, de anunciar uma África de bem-viver, e é com esse objectivo que molda tal mundo com uma alargada paleta de cores ditas “quentes”. Essas que alguns anunciam como típicas de uma atmosfera africana mas que o artista reclama como balsâmicas e, como tal, inevitáveis ao seu mundo.

Endereço electrónico: ditotembe3[@]gmail.com

Sítio electrónico: www.interseccoes.net

FAIZAL

Nasceu em Maputo em 1975. Concluiu os seus estudos na Escola de Artes Visuais em 2004. De seguida fez formação em pedagogia infantil através da arte, percurso que integrou vários estágios em escolas dos distritos de Gaza. Nestes procurou a reconversão de materiais e saberes locais em recursos pedagógicos, com a construção de parques infantis apropriados. Esta experiência marcou decididamente a sua expressão plástica, tanto quanto à matéria-prima que utiliza como quanto aos valores que expressa, imprimindo-lhe uma atenção em produtos naturais e uma convivência com os valores comunitários e ancestrais.

A sua abordagem surgiu provocatória no meio artístico nacional. Desde cedo, até antes da sua primeira individual (2005), que Faizal acolheu amplo reconhecimento, com sucessivos prémios nacionais bem como com a integração imediata na colecção permanente do Museu Nacional de Arte, algo marcante para um ainda jovem artista e que traduz o enorme impacto que o escultor provocou. As suas obras contêm uma complexa heterogeneidade interna, cerâmicas pintadas que surgem como objectos musicais, apelando à imediata interacção entre obras, artista e público, à constituição de “performances”, esse espaço ainda raro nas artes plásticas nacionais. Estas múltiplas facetas ancoram num projecto artístico único, radicalmente pessoal, em que o escultórico surge associado à busca do “conceito sonoro”. Daí esta atracção pela reconstituição do “tambor”, apresentado em múltiplas e incessantes formas, convocado como corpo e veículo do património cultural moçambicano, este assim invocado, reconstruído. Mas não apenas reproduzido, pois trata-se da sua inquirição através do olhar de um dos mais inquietantes e provocantes artistas moçambicanos.

Endereço electrónico: fomarussumane[@]yahoo.com.br

Atelier: Bairro 25 de Junho, Quarteirão 33, casa 32

Telefone: [disponível para quem o solicitar por e-mail para aqui]

Adenda: a ideia é publicar pequenas e despretenciosas notas na revista Índico, divulgando nomes relevantes das artes plásticas moçambicanas e proporcionando a possibilidade de um maior contacto directo entre público (potencial) e os artistas. A primeira dessas fichas de artistas está aqui. Como é óbvio os artistas não são responsáveis pela fraca qualidade das fotos e reproduções aqui colocadas.

jpt

publicado às 15:14

As coisas incontornáveis

por jpt, em 01.11.10

Abaixo muito me irritei contra a sobranceria de José Pacheco Pereira, ao insultar bloguistas que com ele não concordavam quanto à necessidade (patriótica?) de manter em funções o primeiro-ministro José Sócrates (apesar dele-mesmo), donde de aprovar o OGE. Este que agora, afinal, será aprovado. Foi por isso interessante ver o último Quadratura do Círculo (o filme ainda não está disponível), onde Pacheco Pereira actualizou um pouco o seu pensamento. Já admitiu a possibilidade (melhor dizendo, a relativa bondade num contexto extraordinário como o actual) de um governo transversal no âmbito deste parlamento - o que ele se torceu para evitar a expressão "bloco central" - tendo para isso previamente sido afastado José Sócrates. Espero que isto não seja efeito de "uma “cultura de blogue”, uma educação pela Internet, que alia a superficialidade e o imediatismo, ao radicalismo de ver tudo a preto e branco, bons e maus, heróis e traidores, vendidos e impolutos." Pois isto é quebrar com o "patois" político e jornalístico da incontornabilidade da situação, que vigora nas últimas semanas.

Sócrates não é, como em tempos foi dito sobre outro protagonista, uma "boa moeda". Tem sido letal e urge afastá-lo. E este teria sido um bom momento. Custa dinheiro derrubar um primeiro-ministro (ou não aprovar um orçamento?). Custa, todos sabemos que a democracia é um sistema caro. Como alguém disse é o mais caro dos sistemas, exceptuando todos os outros.

Teria sido mesmo um bom momento de erradicar Sócrates. Mesmo que para isso viesse a ser necessário, neste futuro imediato, coabitar com alguns dos seus homens - e sabe-se que depois de tantos anos todos eles estão conspurcados. Mas é para isso mesmo a política, saber torcer o real para fazer o impossível. Até governar com algumas franjas, menos putrefactas, deste poder.

É isso que se espera dos políticos cultos e pensantes (e que recebem para pensar, já agora). Não que repitam inanidades sobre incontornabilidades, insuflados com o desprezo que nos votam. Aos que votamos, ainda por cima. E é também para isso que servem os blogs, para os eleitores falaram com os seus representantes. Mesmo que não sejam lidos. Pelo menos para a catarse. Tipo "chama-me lá inculto imbecil outra vez e eu digo-te em quem vou votar".

jpt

publicado às 00:44

Campo Sintético para o Sporting

por jpt, em 01.11.10

José Eduardo Bettencourt anunciou o desejo de instalar um recinto sintético no estádio do Sporting (a expressão "relvado sintético" é uma mera aldrabice, típica da prostituição jornalística). A opção é apresentada como solução de um problema, o constante mau estado dos sucessivos relvados. Uma das causas para tal é murmurada, o facto de o estádio ter "defeitos estruturais", pois é tão elevado (achaminado, digo eu, ou seja em formato de chaminé) que provoca alterações climáticas internas arrasadoras para os relvados.

Em suma, foi mal construído. Mal planeado, mal avaliado, mal fiscalizado. Uma bronca gigantesca, milhões e milhões de euros, um estádio construído no centro da capital, e ineficaz nos seus propósitos - ter um campo de futebol. É óbvio que aí vem uma cortina de fumo em forma de enxurrada de notícias sobre as benesses e o actual desenvolvimento tecnológico dos sintéticos. Mas há dois factores adversos: por um lado nenhum dos melhores ou médios campeonatos optam por sintéticos; por outro esta opção do clube não é uma decisão positiva, é uma reacção que tenta minorar os defeitos de um brutal erro. Convém então receber as tais notícias como elas são: um serviço prestado por jornalistas corruptos, a pretenderem dar uma visão optimizadora de uma decisão menorizadora (de um mal).

Um erro - a tal chaminé de estádio, uma reduzida inclinação - que tem uma causa óbvia. Todo o processo de transacção de terrenos e sua urbanização que antecedeu esta construção implicou esta voragem imobiliária, que levou a direcção do Sporting a encerrar o estádio no menor espaço possível - com o patético episódio de sendo obrigatória a lotação de 50 000 espectadores se ter tentado contabilizar os lugares atrás dos painéis gigantes, atribuindo-os aos cegos, já que estes não viam o campo ...). Foi essa vertigem de ganhar espaço urbanizável que levou a esta situação. Agora tudo correu mal, 400 milhões de euros de passivo, um estádio impraticável. É esta a elite "social" "económico-financeira" (das zezinhas e dos pituchos, do grandes bancos e das grandes construtoras) que se passeia em Portugal. Também no Sporting.

É, obviamente, um múltiplo caso de guilhotina.

jpt

publicado às 00:10


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