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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Uma palestra de David Harvey. Uma maneira de ver, uma animada forma de explanar. Vale a pena acompanhar - eu continuo muito renitente face aos resmungos diante da "deslocalização" (a estúpida palavra que usam) do capital. Continuo a vê-los como efeitos do reaccionarismo corporativo (aquilo a que em Portugal se chamou "fascismo") da chamada "esquerda" europeia, antes sindicalista-comunista, hoje identitária-fracturante (veja-se as lágrimas que hoje em dia vertem pelos touros toureados e pelos cães acanilados, antes pelas "raínhas dragas" e num amanhã célere pelos expropriados dos seus bongos). Chorosa porque já não pode explorar o "terceiro-mundo" para ter salários altos, saudosa do "compromisso histórico" (tardo)colonial que pela exclusão da maioria mundial lhes aquecia as .... "identidades".
Mas esta minha deriva é totalmente lateral ao filme, que vale a pena ver.jptMistérios de Lisboa, filme de Raúl Ruiz, baseado na obra de Camilo Castelo Branco
Ainda estou a digerir este filme do cineasta chileno Raúl Ruiz. Passadas quase vinte e quatro horas ainda estou um pouco indeciso quanto ao filme, o que só abona em seu favor, pois pelo menos deixa-nos a pensar nele. A primeira advertência é de que se trata de uma longuíssima metragem, mais precisamente de 4 horas e 26 minutos, por isso o melhor é escolher uma sessão à tarde. O filme tem uma fotografia belíssima, e décors e guarda-roupa de época muito cuidados. Uma trama muito bem delineada. Como não conheço a obra de Camilo não sei se a trama segue ou não com fidelidade. Mas também não me parece muito interessante essa discussão. Pelo menos no filme a trama é complexa, centrada sobre a primeira metade do século XIX, com algum suspense, ironia, e com uma narrativa central à qual se ligam várias estórias paralelas. Gostei também de certos recursos de estilo, como a existência de vários narradores, e um teatrinho de cartão a ligar partes da narrativa. O ritmo é que me pareceu desequilibrado, ora muito oliveiriano ( a influência do Amor de Perdição pareceu-me mais do que evidente), sem os grandes planos mas com movimentos muito lentos e repetidos da câmara; ora quase tele-novelesco. Aliás o elenco é quase todo de actores de telenovelas. Talvez isto seja propositado. Contudo, para um inculto hollywodesco como eu, retirava bem uma horita, pelo menos, ao filme, e filmava tudo mais de pressa.
Parece que vai passar na RTP uma série de 6 episódios, de uma hora cada. Talvez seja uma boa opção. Perde-se na beleza fotográfica do filme, pelo menos na minha televisão seguramente. Mas ganha-se em paciência.
De qualquer modo até recomendo a opção filme. Numa tarde chuvosa, fria e ventosa.
Não me reconciliou com o cinema português (na verdade acho que não se pode dizer que isto seja cinema português, apesar de falado em e sobre Portugal), mas também não me deixou pior. Experimentem.
FF