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Retratos

por jpt, em 05.11.10
(por AL em homenagem a um homem bom) –

Chamemos-lhe Padre Zé. Foi padre de circunstância e não de vocação. Não que não fosse um bom cristão e católico praticante; era-o concerteza. Não tivesse ele sido padre, teria à mesma cumprido as suas obrigações de homem de fé. Que era. Não o quis assim o destino: fê-lo nascer pobre amadrinhado pela beata da vila. Rica, cedo reconheceu no menino a inteligência e a curiosidade. Fadou-o ao seminário onde acabou por se licenciar em padre.Dali seguiu para uma das então províncias ultramarinas; fundou missão; abriu escola; organizou hospital. Dizia missa diária na cubata apelidada de capela. Homem de fé e devoção mas novo e pouco dado a castidades, cedo se amancebou com moça local com quem vivia maritalmente e a quem abençoou com nove filhos. Eram felizes. Todos. Adorado pelas gentes que a ele de longe acorriam, acérrimo defensor dos direitos dos “indígenas”. Obstinado contra o sistema do xibalo e xamboco.Alertado por colonas menos tolerantes chamou-o o Bispo à capital da província. Não pode ser assim Padre Zé, escandaliza a população. Seja discreto, apadrinhe as crianças; não precisa de as perfilhar; arrede essa mulher para as franjas da aldeia. Padre Zé, ouviu, meditou. Irmão Bispo, é verdade que vivo amancebado com a mesma mulher há já muitos anos e é verdade que dela tenho nove filhos. Sou um mau padre, é verdade, assim quis o Senhor que me contrariou a castidade; não queira agora o Irmão fazer de mim também um mau pai. E com esta se retirou.Assistiu à independência, sobreviveu duas guerras. Morreu há uns anos, rodeado pela mulher a quem sempre foi fiel e pelos nove filhos agora reproduzidos em netos inúmeros. Morreu feliz e em paz na sua missão.Amén!

publicado às 03:46

Jorge Ferreira

por jpt, em 05.11.10

Jorge Ferreira antigo dirigente político foi um bloguista empenhado, atento e solidário. Um verdadeiro gentleblogger. Nunca o conheci pessoalmente. Há cerca de um ano tive(mos) a abrupta notícia da sua morte precoce, homem da minha idade vitimado pelo cancro. Agora tive a sensação que o primeiro aniversário da sua morte se aproxima, e em pouco me antecipei. E por isso visitei o seu Tomar Partido, o blog-porta para o mundo que manteve até ao fim. Choquei-me, os seus dois últimos textos (1, 2) são breves entradas sobre a trapalhada orçamental do governo português de 2009. Podiam ter sido escritas hoje.

Não quero instrumentalizar a memória dos mortos. E sei que esta não é a melhor maneira de homenagear Jorge Ferreira. Mas é um incidente cristalino sobre o poder que temos. O país que temos.

jpt

publicado às 02:26


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