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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Chego a uma conferência nacional na Universidade Eduardo Mondlane e sei da ocorrência de um painel sobre novas tecnologias de informação e bloguismo. Dizem-me que a houve uma comunicação sobre a fibra óptica, outra generalista e uma outra sobre bloguismo no país. Uma académica moçambicana (também bloguista) falou do bloguismo em Moçambique utilizando os dados do Pnet Moçambique, o sucessor do Ma-Blog [gosto imenso deste nome e tenho pena de ter tido que o abandonar], que organizei e que junta mais de 250 blogs sobre Moçambique.
jpt
Não vou eternizar a conversa sobre o BDBook, de que ontem aqui falei [1, 2, 3]. Mas o jornal Sol refere o assunto (que é noticiável, neste momento há 190 mil pessoas que clicaram afirmativamente um assunto durante o último dia). E noticia que há já mensagens a alertar para os perigos, a quererem calar a BD pois esta nada mais é do que uma conspiração contra a segurança "dos nossos filhos".
Acontece que eu tenho uma enorme lista de ligações, construída a partir do grupo de leitores do ma-schamba (a maioria dos quais ou aceitou ou propôs uma ligação de "amizade" comigo). E nesse âmbito apanho uma enorme variedade de tráfego pedonal, atraente exactamente porque tão diverso.
No seio dessa multidão que me passa à porta já tinha reparado na mensagem que alerta aos perigos dos perfis "comics" no facebook. Que promovem um terreno propício à pedofilia - uma preocupação legítima, atente-se (ainda que seja muito mais sensato impedir que as crianças tenham liberdade informática). Fui ver o que era a mensagem ["nota", no vocabulário FB] . E é tão óbvio, a ira contra a "conspiração BD" no facebook brota dos núcleos ideologicamente securitários, onde as identidades se afirmam pelos trajes militares, pelas causas militares, pelo miguelismo, etc É um desconforto que surge ideologicamente muito marcado. Ao primeiro momento agita a insegurança, e assim penetra nas pessoas. Não que seja uma falsidade, uma manobra propagandística, pois os indivíduos que assim pensam assim sentem - é até doloroso assistir a anciãos que ainda se revêm nas fardas, armas e episódios acontecidos há meio século; e sendo ridículo o apego ao miguelismo ele não pode ser considerado falso (ainda que na maioria dos casos essa corrente monárquica se restrinja a um bacoco arrivismo).
[PS: explicitando melhor - o autor da nota que está a correr é um miguelista que é irreconhecível no perfil (uma pequena contradição) face à panóplia radical que ostenta; a ligação que me levou até lá (muito pouco depois da publicação) é um veterano da guerra colonial cujo perfil é dedicado à guerra e seus ícones e ao culto das "tropas especiais". É o núcleo puro e duro, ideológica, iconográfica e sentimentalmente. Depois claro, agitada a segurança das crianças e o perigo da "pedofilia" (o equivalente contemporâneo da bruxaria, na Europa) dissemina-se a suspeita e surge o "bom senso" ajuizado, bem intencionado. Mas, sempre, irreflectido.]
Mas é desse núcleo intelectual que brota o alerta da teoria da conspiração, o afã securitário. Vale o que vale. Quanto ao BDbook. E, muito mais importante, quanto à vida real.
[Adenda 2: Manuel Duran Clemente, o homem que no 25 de Novembro de 1975 foi à televisão para nos dizer que o país seria uma ditadura comunista e a quem cortaram a palavra para passarem um filme do Danny Kaye, também está nas minhas ligações via ma-schamba. O seu perfil no facebook é a fotografia de um jovem barbudo a la Che, fardado, na televisão, exactamente esse momento que lhe marcou a biografia. Também ele (com o tal perfil fardado, e mostrando-se como era há 35 anos atrás numa má imagem da tv) nos vem dizer dos perigos do Lobo Mau. Que tem uma boca grande, orelha grande, mãos grandes e ... acrescento eu, uma pila grande.
Se guardassem as fardas nos baús, mais as medalhas, os autocolantes e os el-reis ... faziam mais pela segurança e pela paz de espírito de todos nós.]
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Esta diversão traz ainda uma adenda, ligada a outra coisa, a da contínua construção pública do "eu" de cada um. Passo pelo mural de uma antropóloga que se interroga "que acontece, todos são bonecos?". Alguém (minha amiga) explica-lhe o que se passa mas entretanto um outro passante lhe explica, altaneiro, "são mimetismos" e acrescenta "como sabes, eu de mimetismos nada sei". Sorrio, reconheço-lhe o nome, é um bloguista (esses que foram acusados de abrir blogs por mimetismo) e está no facebook (isso que é uma febre de mimetismo). E ali está ele, em flash de castafiorismo, "rio-me de me ver tão belo original e não-mimético neste espelho", sequioso de aplausos.
As pessoas, na construção do público si mesmas, não têm limites ao ridículo?
Adenda: mas sobre o mesmo assunto também há ondas porreiras (e lúcidas).
jpt
O Rui cresceu. Fez-se homem. E fez-se à vida. Pegou na trouxa e foi para Moçambique, para Quissico, no distrito de Zavala. Por lá anda desde Fevereiro, por um ano. Abrindo-se ao mundo. Abrindo-se aos outros. Ajudando outros miúdos na missão paulatina. Ajudando-os a crescer. Ele está a crescer com eles, como Homem.O pai está orgulhoso. Mas com saudades.FF