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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)

Chego a casa e o ABM avisa(-nos) que Pessoa morreu há 75 anos. Para um dia assim haverá pessoanos a escreverem com propriedade sobre o assunto. Eu deixo o Zeca Afonso a cantar. Não há décadas que passem sobre estas palavras ...
No comboio descendenteVinha tudo à gargalhada.Uns por verem rir os outrosE outros sem ser por nadaNo comboio descendenteDe Queluz à Cruz Quebrada...No comboio descendenteVinham todos à janelaUns calados para os outrosE outros a dar-lhes trelaNo comboio descendenteDe Cruz Quebrada a Palmela...No comboio descendenteMas que grande reinação!Uns dormnindo, outros com sono,E outros nem sim nem nãoNo comboio descendenteDe Palmela a Portimãojpt
[/caption]No Franco-Moçambicano uma individual de fotografia de Thibault de Puyfontaine, retratos de paisagem urbana do Egipto. Supra-romântico, um coloração provocante, até histriónica por vezes. O fotógrafo garante que as fotografias não foram "mexidas" a posteriori, uma pureza que para alguns é valor - não o é para mim, que não exijo nenhuma fidelidade a um qualquer pré-definido real. Mas face a estas verdadeiras pinturas entusiasma-me a técnica de captação e composição ainda que me afaste a exotização assim provocada.
Mas vale bem a visita a este Egipto [ou, pelo menos, ver a exposição no sítio do fotógrafo]. E também marcar atenção a Thibault de Puyfontaine. Que me dizem agora a fotografar Maputo. O que virá ele mostrar um dia? Fica a curiosidade. E a atenção - esperando que o Franco-Moçambicano venha a mostrar esse trabalho quando tal for possível.
jpt
Abaixo, e já há uns tempos, deixei uma palestra do académico britânico e marxista David Harvey, sobre a crise geral. Quem a tenha visto, e é bem interessante, poderá reparar o que acontece à argumentação quando Harvey chega à questão da actual deslocalização do capital, sempre vista como o mal dos males. O que nos diz o geógrafo britânico? Tal como tantos outros invectiva o neo-liberalismo, que a permite, insurgindo-se contra a ausência de controle (de fixação) do capital. "Não há algemas no capital", protesta. E explicando isso aponta o caso da Índia (é o exemplo que escolhe, e não nos poderá surpreender a particular atenção de um britânico nas actuais passadas do velho Raj). Pois Harvey, tal como tantos outros, quando chega a esta faceta da problemática sai abruptamente da economia, esquece-se da sociologia e restringe-se à moral. Tão analítico é em tudo o que é anterior (e a animação do filme é interessantíssima) mas suspende-se neste ponto. Para ele o que é relevante no actual processo económico na Índia - e por arrastamento de outros contextos nacionais - é a explosão de bilionários [entenda-se, o cristo-marxismo pune moralmente a riqueza]. Nada mais. Nem uma palavra sobre todas as outras transformações na Índia, ou nos países que vivem situações similares. E nem uma única sobre o que provocava a assimetria nacional de acesso ao capital. Sobre o processo histórico daquilo a que podemos chamar, glosando um teórico porventura lido pelos harveys deste mundo, "acumulação moderna de capital".
Há algum tempo Paulo Varela Gomes, prestigiado intelectual português que tive o prazer de conhecer na minha juventude, escreve esta "Declaração". Foi publicada no jornal Público (23.10.2010) e deixo-a aqui numa transcrição num blog pois as ligações aos jornais são muito breves. PVG propõe aos seus patrícios a desobediência civil-financeira em protesto contra o empobrecimento (pauperização? proletarização?) a que estão votados. O interesse do texto é o facto de também ele (no fundo como todos os que navegam nestas áreas) se amputa, uma autofagia intelectual. A insurreição de PVG é como a de Harvey, contra os Estados europeus (no caso de PVG contra o Estado português) por não serem capazes de aprisionar o capital nas suas fronteiras, de serem porosos, assim provocando o empobrecimento dos trabalhadores europeus, a crise do "estado social" (expressão muito em voga nos últimos meses) por via da deslocalização de capital. Harvey ainda resmunga contra a explosão de bilionários indianos mas PVG nem refere o assunto das mudanças exo-ocidentais.
No caso de PVG ele aponta um caso doloroso do seu empobrecimento, deixou de comprar livros. Compreendo-o perfeitamente, há algum tempo que passo pelo mesmo, o salário que ganho não me permite comprar livros e isso - mesmo que em absoluto não seja dramático - choca com uma concepção de vida, de consumo. O "ethos" e o "pathos" académico posto em causa, a interrupção da volúpia do afagar novas capas, do êxtase do folhear é bem pior do que o "coito interrompido".
Mas o que ninguém gosta de recordar é que falamos de "ethos" e de "pathos" académicos de um determinado contexto, assente numa histórica manipulação e concentração dos recursos [por exemplo, quando é que os académicos moçambicanos tiveram rendimentos suficientes para brotar uma cultura profissional bibliófila e bibliofágica?]. O eixo de entendimento é o mesmo. Em Harvey ou em PVG a transferência de capital para o "terceiro mundo" é um mal, pois gera diferenciação social e até riqueza (Harvey) e pune o trabalho ocidental (PVG). Não há uma palavra sobre o facto da anterior deslocalização que favorecia algum trabalho ocidental em detrimento de outro (a Siemens, a Renault, a Toyota em Portugal, p.ex.) ou do acordo histórico que punia o trabalho do "terceiro mundo" através da sua exclusão radical da sua industrialização, por via da perenidade da "localização" do capital, por via da exclusão racial. Ou seja, por via de um "compromisso histórico" assente na exclusão racial.
A ideologia castafioresca, o "vejo-me tão revolucionário e tão analítico neste espelho", morre assim. Pela tecla. Onde borbulham as mais coloniais concepções do mundo. Amputadas, repito, daquele "pós" que tanto as sossegava e legitimava.
jpt



Cheguei a Washington a 4 de Outubro de 2002. John Allen Muhammad, o sniper de Washington, com o seu parceiro Lee Boyd Malvo faziam o seu sétimo disparo , o primeiro não mortal. Terminariam com 13 disparos , a 22 de Outubro, 10 mortais, finalmente capturados a 24.Dois ou três dias mais tarde liguei à Elsa, emigrada há muitos anos nos EUA, contacto que virou amiga. Ofereceu-se prontamente a me vir ajudar, nas suas folgas, a procurar casa, pois era agente imobiliária no estado da Virgínia, e a ela devo a muito bem negociada casa,onde depois viveria os quatro anos seguintes , entre a Connecticut Ave e a Wisconsin, nas margens do boémio bairro de Adams Morgan e com o Rock Creek Park, a poucos metros, que se entranha por toda cidade. Levava-me também aos grandes malls para comprar algumas coisas necessárias para nos instalarmos, o universal Ikea, o americano Home Depot, situados ao longo da Beltway, 12 faixas, com carros a moverem-se, sem parar, em ambos os sentidos, que circunda todo o District of Colombia. Cenário escolhido pela dupla para fazer os disparos, around the Beltway, nos parques de estacionamento dos malls ou em estações de serviço limítrofes, feitos a partir da traseira de um Chevrolet Caprice, azul, transformado para o efeito.A Elsa entrava a grande velocidade nos parques, deixava-me com a minha filha Leonor, na altura com 15 meses, à entrada, que a pegasse ao colo e de seguida dizia: “corre para o interior”, depois partia, novamente a grande velocidade para estacionar, eu ficáva a espreitar por detrás da parede, a ver a Elsa aparecer a correr em zigzag, como ela mais três ou quatro outros clientes, com ar assustado, que seguiam à risca o que era debitado por vários especialistas criminais em como evitar o tiro dum sniper, a toda a hora na televisão e na rádio.Pânico generalizado, uma comunidade inteira com a fobia de poder vir a ser a próxima vitíma.As escolas cancelavam as actividades ao ar livre, os pais corriam, mais cedo, a buscá-las, em zigzag.Eu descobria a cidade, inside the Beltway, com a Leonor no carrinho “guarda-chuva”, o centro, a National Gallery, o móbile do Alexander Calder na entrada da ala este, a livraria sempre com livros em saldo, o Museu de História Natural na esquina oposta, ao topo o Capitólio. Sentia-me seguro naquele sítio, que deve ser o com mais polícias por m2 do mundo. A viver este serial killer como espectador de um filme real com argumento de Hollywood, os imensos lençóis do Washington Post, à noite os noticiários da CNN, das televisões locais, os briefings diários do chefe da polícia Charles Moose, as mensagens de Muhammad deixadas em cartas de tarot. A carta da Morte, “Call me God”, na fronte.John Allen Muhammad foi executado por injecção letal a 10 de Novembro de 2009.[PSB]
[Luís Souto, capa de Wona Gaya]
Avisei quando foi inaugurada esta "Wona Gaya", exposição fotográfica dedicada a Inhambane que é organizada por Luís Souto. Contém 40 fotografias do autor (de 2010 e de 1988) e integra ainda duas reproduções das célebres fotografias publicadas em 1929 por Santos Rufino, nesse cruzar de três épocas intentando um passeio pela história da cidade. O catálogo contém ainda uma pequena história do núcleo urbano, de Cândido Teixeira.
A mostra é pictórica, centrada na arquitectura e paisagem, com pequenas investidas no mundo comercial e piscatório. E faz jus ao encanto local, nisso privilegiando o transporte cromático. Por isso mesmo será normal que venha a constituir-se itinerante - em Portugal teria público com toda a certeza. E a sua apresentação teria toda a "legitimidade" pelo menos nas cidades em tempos geminadas com Inhambane (se as tais gemelagens não servem sequer para isto, para um entre-conhecimento, para que servirão?).
[Luís Souto, Hotel Carlton, Inhambane]
[Luís Souto, sem título]
Mas o Luís Souto não se limitou a fotografar. Deixou também entrar a luz, apenas a suficiente, sem estragar o efeito, para pensar o real de agora. Imprimiu essa "fotografia" assim:
"Ver Inhambane é também ver, com tristeza, a descaracterização da cidade com a colocação abusiva de painéis publicitários, com a pintura das paredes (e não só) com publicidade que destrói a identidade dos indivíduos. É ver novas construções em locais totalmente desadequados que impedem a vista e quebram a harmonia da cidade.
Ver Inhambane é, finalmente, saber que a cidade está protegida pela Lei do Património Cultural; perceber que a modernização por vezes conflitua com a preservação e que, nesta dicotomia, aparecerão sempre os novos mercadores tentando, como no passado, trocar ouro por missangas."
[Luís Souto, sem título]
jpt
[Postal da então "Rua Araújo", não identificado. Copiado no arquivo de Humberto Lopes]
Abaixo resmunguei, irado, contra o plágio e contra o desatinado hábito de copiar os textos de blogs e fazê-los rodar via e-mail sem indicar a autoria e a origem. Coisa que me parece, e particularmente quando os (in)citadores são jornalistas, reproduzindo o velho preconceito dessa classe contra os blogs, em tempos idos vistos e incompreendidos como concorrenciais. Mau humor o meu, disseram-me então, a propósito desse desabafo.
Num destes últimos dias sentei-me numa hoje em dia já rara esplanada de fim de tarde. Cervejas corridas, falámos da baixa, das construções, da fortaleza, do trânsito, etc, conversa mole mas que em tal temática deixa escapar o fel de quem vê o se mundo ir mudando sem que seja seguindo o desenho por si desenhado. Em nisso estando um dos convivas comentou o estado da Bagamoyo, a ex-Major Araújo, da beleza do edifício do ARPAC onde alguns de nós já trabalhámos, e ainda o estado da Escola de Dança. Feito dono de novidades um outro anunciou que o Luso está (ou esteve?) fechado, obras para renovação. Comentei (e assim sentindo-me vetusto) em forma de lamento "há anos que não vou à Bagamoyo", falando, claro está, daquela da noite. Logo um dos meus parceiros de mesa engoliu, ávido, o gole de 2M, assim libertando as goelas para me invectivar. Que a Bagamoyo é importante, e bela. Não teria eu lido há tempos a história da rua, desde o seu tempo de Major Araújo? Ao meu "leste onde?" responde-me que recebeu um texto via e-mail, o qual muito gostara de ler. "E de quem é o texto?" perguntei-lhe eu, capcioso. Pois, a isso é que não me podia responder, o texto não lhe tinha chegado assinado.
Pois é, lá lhe disse eu que o texto é do António Botelho de Melo, publicado num pobre blog. E fiquei-me, e até hoje, a resmungar: é certo que a escrita in-blog é gratuita. E não dá nem cv nem é prestigiante. Mas caramba, não custa nada quando picam os textos do bom do ABM indicarem a autoria.
jpt

"De Fogo em Fogo e outros poemas", um conjunto de poemas de Raffaele Carrieri apresentados num pequeno opúsculo, uma curta edição (150 exemplares) bilingue, integrando versões de António Cabrita do trabalho do poeta italiano. Não quero apoucar o interesse do poeta (que é, radical e realmente, o que interessa) mas é o objecto que me chega às mãos que me chama a atenção imediata. Em primeiro lugar porque a edição da traduções, de prosa ou de poesia, é raríssima em Moçambique (mesmo de obras escritas em línguas nacionais). Neste caso a publicação inseriu-se nas actividades da X Semana da Língua Italiana no Mundo e é uma produção da Escola Portuguesa de Moçambique, a contar com o apoio da embaixada italiana.
E nisso radica uma segunda dimensão do meu interesse. Pois uma publicação destas ecoa (e até simboliza) as crescentes actividades em Maputo dos sectores culturais das representações diplomáticas, em particular a espanhola e a italiana (para além da institucionalização ainda recente do Instituto Goethe). Ainda que modestas, e não particularmente exigentes, estas actividades que se vão somando ao já habitual cenário agitado pelo Franco-Moçambicano, o Camões e o CEB (entretanto "correctamente" rebaptizado), dão um tom mais aberto ao ambiente cultural na cidade que, por vezes, tende a enquistar.
Mas é a um terceiro nível, basto surpreendente, que este pequeno livro me entusiasma. Pois denota a capacidade, absolutamente original, da Escola Portuguesa, uma instituição estatal portuguesa, de se abrir à cultura estrangeira. Ou seja de entender a sua presença, como agente de formação e de divulgação da língua e da cultura portuguesa, de conceber a sua actividade (o seu pelouro), como um potenciação das capacidades de tradução e de abertura. Uma visão cosmopolita.
Isto, que em teoria parece absolutamente pacífico, é absolutamente original, tamanha a tendência castrense [lusocastrense, por assim dizer] que ocorre habitualmente nessas instâncias - e falo, frise-se, das instituições radicadas em Lisboa. Presumo (e nisso estou quase certo de estar certo nesta especulação) que uma obra destas não corresponde a um projecto global, que será mais produto de uma articulação incidental, uma vontade momentânea da embaixada italiana cruzando-se com a fervilhante actividade do bom do António Cabrita. Mas ainda que assim sendo o simples facto de encontrar responsáveis estatais portugueses a trabalharem no estrangeiro (e na CPLP ainda por cima) com abertura para usar o português língua para traduzir e não apenas para narrar a gesta do entre Fernão Lopes e Gonçalo M. Tavares é um acaso extraordinário. Uma sorte. Para continuar?
Do breve livro (36 poemas) deixo dois.
Invejo a LulaMuito invejo a lulaQue se eclipsa no se preto:Branco é o seu recobro, a salvoNo variável azul.e uma versão muito daqui ...
Deixai-me Sozinho com os RiosDeixai-me sozinho com os riosDeste cacimboQue calcina a planícieE o osso preto dos montes.Deixai-me sem fagulhasComo a mais esquiva lenha,Aos outros a visibilidadeA consciência e a luneta.jpt