Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)

[Margaret Kalk (org.), A Natural History of Inhaca Island, Witwatersrand University Press, 1995]
Numa época na qual é habitual julgar o ser similar (ou até subordinado) ao ter é notório que este Ter (ser) passa ainda pelo "andar". Ou seja, é-se se se for, se em determinados momentos do ano se andar para junto do mar, onde se transpira com abundância, se é ferido pela luz solar e onde se mostram os refegos e furúnculos próprios e apreciam as cicatrizes e tatuagens alheias, e todas essas chagas em vice-versa. Seja isso na costa do sol maputense, aos milhares, ou em refúgios quase-secretos nas águas do cabo delgado, os propósitos são os mesmos. O melhor disso mesmo é podermos enviar, com frequência, sms (ou até mensagens para o facebook, se tivermos "daqueles" telefones), a informar de quantas laurentinas premiuns já bebemos, de quanto azul é o paraíso solar só nosso, ou as formas das mamas face às quais nos babamos, e outras coisas que tais. Enfim, fazer os outros ser (ter) menos dado o nosso tanto ter (ser). Andar ...
Não tenho paciência para estas vertigens solares alheias. Não quero saber da "alegria" alheia - que aliás reputo de alienadora. Nos próximos dias, ar condicionado ligado, vou-me dedicar à leitura deste livro colectivo, 394 grandes páginas dedicadas à ilha defronte, adiada há muito. Não estarei nem aqui nem no trampolim facebook - onde poderão mostrar as vossas aventuras, na praia, na neve, nas montanhas, nas discotecas. Estarei, de forma ainda mais literal, dedicado ao saber.
Sejam. Aliás, andem. Tenham, em suma.
Esta coisa do rescaldo no fim do ano é um exercício, costumeiro, de arrogância insuportável. Para o fazer arma-se o indivíduo da omnisciência necessária à divindade, daquela que se apropriou do tudo acontecido na última nesga de tempo, aquela à qual os pobres, e humanos, humanos chamam "ano". Na realidade sei lá o que se passou durante o ano, nem mesmo da minha vida - entre o distraído e o obtuso, e ainda para mais encerrado na acédia -, neste pior e maldito dos anos que agora termina, posso fazer o altaneiro resumo e elencar os piores e melhores momentos. Mas, ainda assim, trôpego vaidoso, deixo-me botar o que me fica de 2010:
Sobre os livros ... Na literatura que obra "a do ano"? "O Olho de Hertzog" de João Paulo Borges Coelho, pelo chorudo prémio (Leya) e pela atenção que (finalmente) convocou sobre a já extensa obra do seu autor - e que espero se possa traduzir em ... traduções. E em leituras, deste grande escritor moçambicano. Mas também pelo "projecto" que o livro encerra, o manifesto - LM do início de XX como umbigo do mundo. Fantástico de amor, etnográfico e ideal, pela cidade. Excelente (desperdício) como utopia do país, de desautarcia, pelo desencerramento contrário à década que agora vigora.
Na "oratura" (é um termo que abomino, referindo-se a literatura oral) uma obra de relevo [e aqui tão rara], "Fábulas de Cabo Delgado", recolha sistematizada por Gianfranco Gandolfo (uma das figuras do ano) e retrabalhadas por António Cabrita (idem). Sou muito pouco simpático a este tipo de fixação (e formatação) das narrativas populares mas o trabalho está muito bem conseguido - resultante da sonolência generalizada esta fixação da literatura popular em língua maconde não teve discussão, nem de especialistas nem de jornalistas nem de "proprietários" (diga-se que obras já bem anteriores do género, de Lourenço do Rosário e Luís Filipe Pereira, também não provocaram discussão crítica). Gandolfo esteve ainda (um grande ano para este trabalhador silencioso) na produção do livro e da exposição Matias Ntundo. Gravuras 1982-2010, um dos acontecimentos em livro e em exposição do ano (esta na Fortaleza de Maputo), central no domínio das artes plásticas. António Cabrita (figura crucial no meio cultural actual em Maputo) esteve ainda noutros eventos, dos quais destaco o excelente (apesar da pobre impressão) "Kok Nam. O Homem Por Detrás da Câmara", com sua entrevista e organização. Obra crucial. E que espero seja antecâmara de um verdadeiro álbum sobre a obra do Kok, a quem alguma apressada miopia continua a reduzir a um mestre de reportagem, coisa que efectivamente ele não é. Sendo muito mais.
E o "Com as Mãos", do Luís Abélard. O Luís foi-se embora, cruel e devastadoramente cedo, mas deixou este seu encantado olhar sobre quem com as mãos nos encanta o mundo. Aqui. Inultrapassável livro. Textos dos melhores conhecedores de arte em Moçambique. E fotografias de 24 dos artistas moçambicanos.
No cinema João Ribeiro apresentou um filme, que não vi por razões de saúde. Decerto chegará o momento. Importante entender que a sua possibilidade brotou da inflexão dos financiamentos da União Europeia ao cinema africano. Nos últimos anos os caminhos esconsos (ditos lóbis, até com direito a acordo ortográfico) têm vindo a direccionar estes recursos para o cinema afro-francófono. No penúltimo processo o afro-lusófono foi alvo de vários financiamentos (o que já não aconteceu, dizem-me, neste último concurso), algo possível por razões de pressão política. A ver se tal caminho de financiamento continuará a ser percorrido.
Na imprensa dois factos. A passagem da "Índico", a revista de bordo da LAM, para a direcção de Nelson Saúte. Tendo-se tornado uma excelente revista cultural moçambicana, algo tão necessário e ansiado. E o facto do "País" publicar uma edição de sábado dedicado (quase)exclusivamente à cultura. Com valor flutuante mas muito significante que o jornal tenha feito esta opção.
Personagem do ano? Jorge Dias. Nos últimos anos tem sido o Curador do Museu Nacional de Arte onde constituiu com a sua directora, a excelente Julieta Massingue (pessoa única no exercício institucional), uma belíssima dupla, de sucesso, agitando e fazendo do Museu o sítio menos convencional da actual e convencional cena artística moçambicana. Entenda-se, ao contrário do que é quasi-universal, nestes últimos anos foi a grande instituição que serviu para agitar consciências e práticas artísticas no país. Este ano acolhendo (e produzindo) a Bienal do Muvart (Movimento de Arte Contemporânea em Moçambique), um passo em frente depois do relativo fracasso de há dois anos atrás, e mostrando que há caminhos percorridos (e não só "a percorrer") - ainda que a Bienal tenha sido uma realização passível de críticas, isso só significa a sua relevância. Para além da sua actividade de crítico artístico (do qual este jpt amador tantas vezes discorda) Jorge Dias apresentou ainda Transparências - muito valorizada por um excelente filme de Filipe Branquinho -, uma curiosa articulação entre a instalação programática (o corpo central) e falsa retrospectiva (antigas obras completamente reformuladas), que foi momento alto do ano na cena das artes plásticas. Agora termina o seu trabalho no Museu e segue como director da Escola de Artes Visuais (integrando a grande remodelação dos quadros estatais ligados à cultura). Se isso levanta algumas interrogações sobre que enfoque assumirá o Museu Nacional de Arte por outro deixa antever excitantes passos no ensino das artes aqui. A ver vamos.
Acontecimento do ano? A construção civil em Maputo. Que virá a marcar a paisagem urbana da cidade e a auto-percepção da capital. A minha alma, se existisse, estaria em sangue.
jpt
"A menos que se disponham a consentir na morte, as velhas nações, por apodrecidas que estejam, não poderão dispensar novos ídolos. Desde que não tenha sido já irremediavelmente atingido, o Ocidente terá de repensar todas as ideias que lhe roubaram e que foram aplicadas, enquanto contrafacções, noutros lugares (....) Tendo abandonado a realidade pela ideia, e a ideia pela ideologia, o homem deslizou na direcção de um universo derivado, de um mundo de subprodutos, em que a ficção adquire as virtudes de um dado primordial. Este deslizar é o fruto de todas as revoltas e de todas as heresias do Ocidente, e contundo o Ocidente recusa-se a extrair dele as suas consequências últimas (...) Ao deserdar-se em benefício dos seus inimigos, corre o risco de comprometer o seu próprio fim e de perder uma ocasião suprema. Não contente com ter traído todos estes precursores, todos esses cismáticos que o prepararam e formaram, de Lutero a Marx, imagina ainda que, do exterior, outros lhe virão fazer a sua revolução e que lhe serão devolvidas as suas utopias e os seus sonhos. (...) De momento, são os seus adversários que, convertidos em teóricos do dever a que ele se esquiva, erigem os seus impérios sobre a timidez e o cansaço do Ocidente. Que maldição o terá ferido para que no remate do seu surto não produza senão esses homens de negócios, esses merceeiros, esses arranjistas de olhar nulo e sorrisos atrofiados, que encontramos por toda a parte ...?"
[Emil. Cioran, História e Utopia, Bertrand, 1994, pp. 30-32 (Tradução Miguel Serras Pereira)]
Esperando os Bárbaros
Mas que esperamos nós aqui n'Ágora reunidos?
É que os bárbaros hoje vão chegar!
Mas porque reina no Senado tanta apatia?
Porque deixaram de fazer leis os nossos senadores?
É que os bárbaros hoje vão chegar.
Que leis hão‑de fazer os senadores?
Os bárbaros que vêm, que as façam eles.
Mas porque tão cedo se ergueu hoje o nosso imperador,
E se sentou na magna porta da cidade à espera,
Oficial, no trono, co'a coroa na cabeça?
É que os bárbaros hoje vão chegar.
O nosso imperador espera receber
O chefe. E certamente preparou
Um pergaminho para lhe dar, onde
Inscreveu vários títulos e nomes.
Porque é que os nossos dois bons cônsules e os dois pretores
trouxeram hoje à rua as togas vermelhas bordadas?
E porque passeiam com pulseiras ricas de ametistas,
e porque trazem os anéis de esmeraldas refulgentes,
por que razão empunham hoje bastões preciosos
com tão finos ornatos de ouro e prata cravejados?
É que os bárbaros hoje vão chegar.
E tais coisas os deixam deslumbrados.
Porque é que os grandes oradores como é seu costume
Não vêm soltar os seus discursos, mostrar o seu verbo?
É que os bárbaros hoje vão chegar
E aborrecem arengas, belas frases.
Porque de súbito se instala tal inquietude
Tal comoção (Mas como os rostos ficaram tão graves)
E num repente se esvaziam as ruas, as praças,
E toda a gente volta a casa pensativa?
Caiu a noite, os bárbaros não vêm.
E chegaram pessoas da fronteira
E disseram que bárbaros não há.
Agora que será de nós sem esses bárbaros?
Essa gente talvez fosse uma solução.
[Constantin Cavafy, tradução de Alexandre O'Neill, republicada em Coração Acordeão, Independente, 2004]
[Georges Perec, Um Gabinete de Amador, Presença, 1993 (Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)]
É uma maravilha, pequena pois curta é a narração sobre o mundo, falso, falsificado e falsário. Nela Perec recorre à excêntrica, e fabulosa, figura do marinheiro Benjamin Morrell, conhecido exactamente por efabular, por "falsificar" suas viagens, o real de então.
"O segundo quadro intitula-se Perdidos no mar de Weddel (anónimo, Escola americana, século XIX) e retrata um episódio dramático de uma outra expedição americana, a de Benjamin Morrell. Entre 1823 e 1839, Benjamin Morrel deu quatro voltas ao mundo, a última das quais terminou tragicamente nas costas de Moçambique" (58).
Este marinheiro, experimentado e sui generis (vale a pena ler-lhe a breve biografia), veio culminar as suas verdadeiras e não tão verdadeiras aventuras em Moçambique, aqui deixando-se morrer de "febres". Essas impiedosas.
jpt
[Alexandre O'Neill, Coração Acordeão, O Indepedente, 2004]
EsquerdireitaÀ esquerda da minoria da direita a maioriado centro espia a minoriada maioria da esquerdapronta a somar-se a elapara a minimizarnuma centrista maioriamas a esquerda esquerda não deixa.Está à espreitade uma direita, a extrema,que objectivamente é aliadada extrema-esquerda.Entretantoextra-parlamentar (quase)o Poder Popularvai-se reactivar, se ...Das cúpulas (pffff!) nem vale a penafalar, que hão-depular!Quanto à maioria da esquerdaficará -se ficar - para outro poema.(1976)(Também) sobre os blogs políticos portugueses.
[Oscar Wilde, As Melhores Histórias de Oscar Wilde (ilustrado por P. J. Lynch), Ambar, 2003 (5ª edição), sem indicação do tradutor]
"O filho do Rei ia casar, e por isso toda a gente celebrava. (...) Foi uma cerimónia magnífica (...) O último ponto do programa era uma grande exibição de fogo de artifício, a acontecer exactamente à meia noite (...) E assim, no fundo do jardim do Rei, foi construída uma grande tribuna, e logo (...) os foguetes começaram a falar uns com os outros. (...)
"Que sorte para o filho do Rei", disse ele, "casar no dia em que vou ser lançado. (...) Eu sou um Foguete extraordinário, e descendo de pais extraordinários." (...)
"Eu odeio indelicadezas e maus modos de qualquer espécie, pois sou extremamente sensível. Ninguém no mundo é tão sensível como eu, tenho a certeza disso." (...)
"Que direito tens tu de ser feliz? Devias pensar mais nos outros. Na realidade, devias pensar mais em mim. Eu estou sempre a pensar em mim e espero que os outros façam o mesmo. Isso é o que eu chamo simpatia. É uma virtude bonita e tenho-a em alto grau. (...)"
jpt
[W.G.L. Randles, Da Terra Plana ao Globo Terrestre, Lisboa, Gradiva, 1990]
Abaixo, a propósito da selecção de imagens da Reuters que ilustra a década passada, ecoei o meu - habituado - espanto com o excesso de atenção sobre "o conflito" (o próprio singular usado é significante) em Israel. É uma constante, essa supra-atenção (existente nos defensores de cada "causa"), com toda a certeza herança do implícito bíblico, essa Jerusalém como centro, umbigo do mundo. E por isso mesmo me lembrei deste delicioso livro de Randles - se alguém tiver um familiar interessante pode bem oferecer-lhe um exemplar neste Natal (de notar, para os interessados na história de Moçambique, que este grande historiador escreveu também "O Império do Monomotapa entre XV e XIX").
E fica uma breve citação do texto - para mostrar como (tant)os jornalistas pensam o cosmos no princípio de XXI.
"A ecúmena cristã plana, está representada de maneira muito esquemática nos mapas da Idade Média por um círculo cuja superfície está dividida em três partes pela letra "T", donde lhes vem o nome de mapas-múndi "T e O". A vertical do "T" representa o Mediterrâneo e separa a Europa da África; as duas metades da transversal representam, uma, a Tanais (o Don) e, a outra, o Nilo: só por si, eles separam a Ásia do resto do Mundo. No ponto da junção entre a vertical e a transversal do "T" situa-se Jerusalém, o centro do mundo. No século XII Pedro Comestor assinala: "Alguns dizem que este lugar [Jerusalém] é o umbigo da Terra habitável ..." (39)
jpt
[Augusto Massari, Os Italianos em Moçambique na Época Portuguesa (1830-1975), Maputo, Imprensa Universitária, 2005]
Livro dedicado à presença dos italianos em Moçambique, escrito por um diplomata italiano durante a sua missão no país. Interessante, informativo, ainda que a profissão se tenha imposto ao olhar. Pois filiado à actividade missionária católica e também ao nacionalismo (de retórica até serôdia): “[os missionários italianos] para além do seu trabalho de evangelização … permitiram às populações moçambicanas habitando as zonas mais arredadas e desconhecidas pelo homem europeu conhecer e apreciar a humanidade, a laboriosidade [sic], a inteligência e a alegria do povo italiano” (226) e “pondo em prática os grandes ideais de solidariedade e de amizade, típicos do povo italiano, perante as populações mais necessitadas” (131). Já não é tempo para estas formulações! Um nacionalismo católico que lhe prejudica a compreensão da história moçambicana, como neste eco anti-pombalino da historiografia portuguesa católica: “durante o período da ditadura do Marquês de Pombal, foi o seu ódio patológico contra a Companhia de Jesus” - “Ódio patológico”, porquê? - que o autor até entende como prejudicial para o “controle português da África Oriental” pois que devido a isso esse controlo se teria então restringido a “poucos senhores dos prazos, que no vale do Zambeze, conseguiram manter uma certa influência portuguesa” (8 ) [de referir a inconsistência de apresentar Pombal como no poder durante a segunda década de XVIII (7-8), o que talvez seja apenas um erro de revisão].
Parece óbvio o exagero da influência eclesiástica (e jesuítica) bem como a incompreensão da sociopolítica dos “Prazos” e das realidades políticas históricas em Moçambique, algo que até transparece na forma como escorrega na questão das terminologias administrativas portuguesas e dela retira, para o longo período XVI-meados XIX que “os portugueses tinham o controle de pouco mais de 30% do actual território moçambicano”(10), um exagerado exagero.
Ainda de notar a incompreensão (ou nacionalista - de italiano - tentativa de ilegitimação) do projecto colonial modernista europeu em Portugal, ao invectivar a I república portuguesa por “o partido republicano, paradoxalmente, que fará do imperialismo um dos seus cavalos de batalha, consolidando o sentimento de afeição e de vínculo à vocação colonial da nação portuguesa” (18). Paradoxalmente porquê? Enfim, características “amadoras” da obra, somadas ao facto de indiscutir a identidade “italiana”, mas que não lhe tiram o interesse mas que fazem exigir particular distância na leitura. Em particular face à deriva nacionalista, desnecessária, a que nem o pequeno prefácio da historiadora Anna Maria Gentili está imune. Mas não é para discutir a história geral de Moçambique que se avança para um livro destes, sim para fruir o que há para saber sobre a presença de italianos aqui (ainda que a própria ideia de "italianos" seja indiscutida no livro). E para esse objectivo é muito interessante:
O livro organiza-se cronologicamente. Começa por breve abordagem a alguns passantes de XVI, e que deixaram registo escrito: Lodovico de Varthem que aportou a Ilha de Moçambique e Sofala na primeira década e publicou em 1510 um “Itinerário”, reeditado em 1885 (citado em 27-28); Andrea Corsali, que aportou na Ilha em 1515 (citado em 28-29). São breves incursões, como se curiosidades, em relatos típicos da época, sempre saborosos de ler.
Depois são abordados os percursos de duas famílias ainda presentes na paisagem moçambicana, os “pioneiros” como lhe chama o autor. Os Fornasini e os Albasini, oriundas de indivíduos que chegaram cerca de 1830, famílias que durante várias gerações tiveram membros com renome e interessantes percursos. Neste âmbito Massari refere até que João António Fornasini, segunda geração aqui, mulato - miscigenação que não ocupa o autor, nem relativamente à dimensão "italiana" das personagens nem tampouco quanto às características mais porosas da hierarquia sociopolítica de então face a décadas posteriores - que chegou a governador interino do distrito de Inhambane e seu capitão-mor (décadas de 80 e 90 de XIX), teria sucedido a José Loforte, durante décadas capitão-mor da pequena vila, e que seria também ele de origem italiana - e também fonte de uma reconhecida e alargada família local. Mas o autor não adianta mais dados, para essa “italianização” das famílias históricas da sociedade crioula moçambicana.
Um terceiro período abrange o processo de formação urbana, com a corrida aos minérios preciosos na África do Sul e Rodésia do Sul, com a construção dos caminhos-de-ferro LM-Pretória (terminado em 1895) e Beira-Salisbury (terminado em 1898), implicando a chegada de operários especializados e de pequenos comerciantes, alguns dos quais se fixaram, principalmente na capital (onde o primeiro consulado italiano se firmou em 1905, demonstrando o crescimento estável dessa comunidade). E logo depois com o sucesso de alguns comerciantes e industriais que marcam a paisagem urbana e social da cidade: Giuseppe Cavallari, fundador da “A Nacional” a primeira marca de cerveja moçambicana, que resultaria da fábrica Jolanda. Os Sorgentini que ficaram proprietários e desenvolveram o Hotel Cardoso. Os Buffa-Buccellato que construiram a primeira pista de patinagem e o Varietà. E na Beira o Hotel Savoy de José de Martini e o Cosmopolitan Hotel de Pedro Tognoli. E a “Branca das Mãos de Ouro”, Branca Berg, das primeiras europeias residentes na então Lourenço Marques, mulher do espectáculo, cantora, empresária hoteleira, jogadora, muito provavelmente prostituta de elite - um historial, de que há memória histórica, e que se impõe de imediato como personagem para futuras ficções, literárias ou cinematográficas.
Um quarto processo, de tentativa de implantação de interesses italianos (lombardos) no norte do país, em Cabo Delgado e fundamentalmente no Niassa, vocacionados para a agricultura, e com apoios económicos e políticos de Itália, que terão sossobrado com a crise de 1929 (a imagem da capa é a da reprodução de um jornal italiano que refere a "colónia italiana em terras de África"). Tudo isso em articulação com os missionários italianos que chegaram em 1925 com o intuito de se estabelecerem no Niassa. Era um projecto com contornos políticos de expansão italiana, ainda que pouco sistematizados – Massari, narra risonhamente, que os missionários da Consolata, foram recebidos no porto da Beira por uma orquestra cujo maestro local, italiano (adstrito à hotelaria local), fez tocar o hino da juventude do partido governamental, de Mussolini. É talvez o ponto mais interessante do livro, esta abordagem aos processos estratégicos da missão da Consolata em penetrar no Niassa, articulados (mesmo que de forma algo fluída) com os interesses agrários e políticos de sectores italianos pró-coloniais e agrários. Isto durante a década de 20, aquando do espírito colonial italiano virado para a África Oriental. E enfrentados com profunda desconfiança por clero e administração portuguesa, o que permite um entendimento algo mais trabalhado sobre as relações entre missões católicas e Estado português de então.
Um quarto momento do livro é dedicado aos efeitos da II Guerra Mundial. O refúgio no porto de Lourenço Marques do navio Gerusalemme, ali fundeado com a sua tripulação durante 3 anos e meio, e o afundamento do navio britânico Nova Scotia ao largo da costa e cujos sobreviventes foram transportados para Moçambique, aqui tendo ficado por anos, em ambos os casos implicando alguns processos de integração, episódica ou perene. Para além desses episódios marítimos (também muito propícios a narrativas) dois elementos surgem no pós-guerra. A presença de alguns refugiados italianos, oriundos do regime derrubado, associados a uma alguma disponibilidade de capital e estatuto social e facilmente integrados no âmbito do Estado Novo.
E a chegada das novas missões católicas, capuchinhas, dehonistas e comonianas, que viriam a marcar a paisagem cultural e até política da colónia e do futuro país. Como o veio a fazer este futuramente célebre padre Prosperini (falecido em 2004) depois de fundar a União Geral das Cooperativas. Condignamente homenageado no final do livro.
Há poucos meses, e num texto também de fumador, aqui evoquei Sandro Pertini e Enzo Bearzot, essa dupla campeã do mundo de futebool em 1982. Pertini, o campeão presidente da república. Enzo Bearzot, a lenda feita treinador, quando as estrelas ainda eram os jogadores. Morreu agora, a minha vénia.
(Há muita gente, há muita informação. Morre muita gente. É opressiva a presença de tanta morte.)
jpt
Cem imagens que marcaram a década, um sequência de fotografias da Reuters, pela jornalista Paula Cosme Pinto, presumo que responsável pela selecção,e publicada no Expresso. Apesar de já me terem passado algumas décadas, e como tal vários rescaldos destes, ainda me surpreendo: o centro do mundo é em Jerusalém?, como pensavam os nossos medievais antepassados? Existiu um tal de Fernão de Magalhães? A terra é redonda? Existem seis mil milhões de indivíduos que não vivem em Israel e arredores?
[Gosto particularmente das fotografias dos pobres soldados americanos, sempre preocupados com as crianças e civis que foram feridos por acidente. Fazer favor de comparar com os malandros dos soldados outros, por exemplo haitianos ou africanos, ou mesmo asiáticos ou isso, sempre danados para a violência.
Para quem gostar destas imagens e como estamos na quadra natalícia convirá enviar um muito WASP cartão de boas festas à emocionada jornalista ...]
jpt
Noto agora que há algumas semanas André Abrantes do Amaral, do Insurgente citou o ma-schamba no programa televisivo Combate dos Blogs, fazendo o blog chegar à tv pela primeira vez. Logo de seguida [associação de ideias?] o representante do blog Cinco Dias elogiou o excelente sítio Buala - convém referir que este Buala, sítio dedicado com esmero à cultura africana contemporânea nada deve ser criticado por ser elogiado por alguém de um blog como o Cinco Dias, blog comunista [inlinkável], local onde se defendem ditaduras teocráticas e apedrejadoras, e que acoita um miserável caluniador (um inominável antropólogo - muito ecoado por co-bloguistas do ex-simpático Bruno Sena Martins e de outros coimbrões bloguistas, académicos de vileza historiográfica por mera malvadez política) - sei que isto de um imigrante dizer que é vilmente caluniado no seu local de imigração por bloguistas dos dois maiores blogs comunistas portugueses é complicado. Pois fica nos auditores/leitores a sensação de que ou ele próprio é um maluco com a dupla mania da perseguição e grandeza; ou que é mesmo um aldrabão, e daí que mui justificadamente enxovalhado; ou, quiçá (haverá alguém?), que está a levar com a baixeza de uma parelha de familiares desonesta e caluniadora, para além muito bem sucedida bloguisticamente falando.
Enfim, o Buala é um sítio óptimo, e justifica toda a atenção. E é inocente da "simpatia" que desperta nestes eternos candidatos a apparatchik. Ainda que seja interessante acompanhar o percurso dos conteúdos e entender das razões dessa simpatia - para quem realmente tenha interesse pelas culturas africanas contemporâneas e como as correntes fascistas e comunistas europeias as querem ler, entenda-se, violar. Pois nestes processos de "companheirismo" convém nunca esquecer que os comunistas, para além de torpes caluniadores como o são no Cinco Dias, são os herdeiros do pior de XX. Quando gostam de algo algo está mal ou algo querem perverter.
Mas para além da chegada à tv (ainda que à ordinária tvi) o velho ma-schamba tem mais glória. Leio os jornais no fim-de-semana. O "A Verdade", 50 000 exemplares distribuídos gratuitamente,o mais lido dos jornais moçambicanos, dedica as suas páginas centrais a transcrever as traduções do wikilikismo dedicado a Moçambique. E às traduções dá o crédito devido: "responsabilidade do site maschamba" [ultrapassando os grão-efeitos dos mais afamados e "capelizados" blogs portugueses, sorrio]. Não me alongo mais sobre o registado. Apenas noto o esbater da grandeza máscula de ABM, afinal em favor de um colectivo. Que indesejava a tal "glória".
No último texto um simpático comentador disse-me que "o assunto está-te a corroer". A corrosão é óbvia. A cura é o silêncio. Diante da falsidade comunista dos arrastões e dos cinco dias. Diante do desvairo retornado. Mas confesso a minha preferência pela doença. Mesmo dando o tal aspecto de maluquinho, com a mania da perseguição e das grandezas.
"É um tipo estar grosso, sentar-se ao blog, teclar, postar e não "deletar". O resto é tanga." [auto-citação de 10 de Fevereiro de 2006, num blog antigo]
jpt

Sendo um pouco normativo inclino-me para a ideia de que uma página na internet, mesmo que seja apenas uma página no facebook, é voluntariamente apagada em duas condições: pelo seu criador; por decisão partilhada de quem nela tenha participado. Como desconheço a causa do desaparecimento da página "maschamba" no facebook, que em tempos criei, fico surpreendido. E partilho essa minha surpresa com aqueles alguns milhares lá inscritos, com muito ou pouco interesse (valoração que não interessa nesta questão), que não foram sequer informados desse encerramento. Partilho a minha surpresa. E lamento-a.
As terras estavam exauridas, as acusações (e as práticas) de feitiço surgiram, os processos de fissão linhageira eclodiram, as gentes avançaram. Qualquer manual de introdução anuncia estes processos, o mais difícil é vivê-los, mesmo que metaforicamente. Eu sou o mais velho e vou portar-me como tal, para que não haja mais surpresas destas os antepassados ficam à minha guarda. Disse.
jpt
[Fumador Maconde (autor desconhecido, fotografia de Manuel Manarte)]
[se não escrever isto tenho que ir fumar um cigarro]
Após alguns textos em regime solitário ABM terminou no ma-schamba. No último texto entre aparentes reverências deturpa as minhas opiniões, e isso é feio. Reduz as minhas razões, expostas extensamente e, porventura, com demasiada intensidade, a um (vil?) “bem estar“. E usando uma retórica, até máscula, como se sobre tal coisa planasse. Não repito os meus argumentos sobre o afastamento do blog da política moçambicana imediata. Mas deixo isto: nos últimos anos ABM ocupou aqui importantíssimos cargos na banca. Está agora em sabática. E com toda a certeza que se estivesse em funções, ou prevendo assumi-las em breve, não publicaria o que publicou. Pode vir negar esta evidência. Mas será ridículo por incredível. Por isso mesmo esta sua retórica é inaceitável. E é-me ofensiva.
Frisa que o convidei. Sim. Quem ler os arquivos do blog verá que desde 2004 o ABM ali publicou textos. Sobre a história e a economia de Moçambique. Sobre a iconografia do país. Da qual é entusiasta amador. Foi essa paixão e o humor que a rodeava, e que veio acampar no ma-schamba em regime de comentários frequentes, que convidei, convoquei. Foi para isso que me desloquei a casa dele – como, de modo retorcido, invoca agora. Tendo logo ficado explícito quais eram as balizas do nosso empenhamento.
Diz ainda que se foi apercebendo da dificuldade em publicar no ma-schamba. Se a sentiu deveria ter publicado alhures. Saindo do blog ou separando registos – se abriu um blog sobre desporto no tempo colonial poderia ter aberto outros. Com ele partilhei (propondo-o como “amigo”) milhares de ligações no facebook, provenientes dos grupos de leitura do blog. Com esse enorme público, reprodutor ainda para mais, poderia divulgar blog(s) ou ter publicado “notas” no FB. Ou, como o faz regularmente, na imprensa moçambicana. Mas entendeu, apesar das “dificuldades” que sentia, usar o blog colectivo.
Este tipo de argumentação, ainda para mais sucedendo à publicação de um conjunto de textos que afrontam um poder, colhe simpatia em algumas pessoas. Disso exemplo são comentadores que surgem justificando-a. Até comentadores residentes, alguns porque – apesar de visitas veteranas – nunca tinham atentado nos “estatutos editoriais”. Outros, como o meu amigo Pedro Silveira, que é jurista, empresário e até tem cargos políticos, que não se apercebem de duas coisas: a) os contextos, internos e externos, do exercício da palavra são bem mais importantes do que meras “histórias”, como ele os reduz; b) os compromissos (mesmo que apenas em blog) são para cumprir. Enquanto se pode. Quando não se pode, quando não se quer, avisa-se e parte-se.
Para culminar este triste final ainda me aparece Isabel Metello, uma bloguista emigrante moçambicana em Portugal, a tentar pontapear-me. Com o mecanismo habitual: truncam-se e deturpam-se as palavras alheias e depois invectiva-se a sua desonestidade. Utilizando o português como uma burguesa bem letrada de Portugal (diversidades ["nuances"] sintácticas e semânticas que ao fim destes anos já consigo perceber) transforma o meu “[co-bloguistas que] “têm também interesses profissionais e pessoais no país” em “detêm interesses em Moçambique” – para os leitores com diferentes usos (sociológicos e regionais) do português recordo a diferente semântica do “ter” e do “deter” no português burguês de Portugal, e é com isso que Metello joga. Usualmente “ter” destina-se também ao intangível enquanto “deter” restringe-se a um conteúdo material ou até materialista [ex. "eu tenho interesses naquela rapariga" como eu gosto de, simpatizo com, tenho vontade/desejo; "eu detenho interesses naquela rapariga", eu sou o proxeneneta (chulo) dela]. Partindo desse aparente pormenor descuidado mas efectiva, e torpe, manipulação Metello invectiva-me por cuidar dos meus interesses pessoais e, por esses, por isso, não “procurar a verdade” sobre Moçambique no bloguismo. Algo que ela como “moçambicana” exige que seja o objectivo de um blog (ou, pelo menos, que fosse o do ma-schamba). Tem todo o direito de procurar a verdade (até nos blogs). Mas não pode exigir que os outros a procurem e a encontrem. Principalmente quando, como é o caso, nunca arvoraram esse objectivo. Para mim o blog sempre foi local de opinião, não de verdade. E a distinção não é um sofisma.
É certo que posso compreender a curiosidade de Isabel Metello, moçambicana emigrada em Portugal, e que quer encontrar nos blogs a verdade sobre Moçambique. Eu não tenho essa visão tão linear da “verdade” mas acarinho a ideia de uma relativa claridade provocada pelo confronto de opiniões. Também por isso, e dada a minha blogomania, colectei os blogs moçambicanos e sobre Moçambique. Primeiro com a ajuda do Paulo Querido fizemos o belo “ma-Blog” (que belo nome!), que actualizava o panorama global do bloguismo em Moçambique. Depois, acolhido pela rede PNET estruturei o PNETMoçambique. Ainda que algo desactualizado ali estão coligidos centenas de blogs moçambicanos e sobre Moçambique [Lamento, não há secção "verdade". Mas há secção "opinião"]. Foi o meu contributo para a disseminação no país da palavra, livre (até sob o ponto de vista de estilo, muito menos rebuscado do que aquele que grassava na imprensa nos finais do século passado e início de hoje), individual, polémica e polemizadora. Para o entrechocar de opiniões (o surgimento de verdades, quiçá). Um contributo sem grande sucesso, o sítio nunca teve grande audiência (talvez por ser coisa de um “tuga”, sempre achei). Mas é a minha participação (não o reclamar sobre os monumentos portugueses apeados ou as mudanças da toponímia ou a malandragem que sucedeu ao não-tão-bom-assim-mas-ainda-assim-honesto poder colonial). A “moçambicana” Isabel Metello, cheia de curiosidade pela verdade, não tem na sua lista de ligações no blog nem o pnetmoçambique nem blogs do país. Do seu país?
Porque abocanho eu a senhora emigrante moçambicana no meu país? Porque, como alguns dos leitores do ma-schamba sabem, é e sempre foi por causa da “Isabel Metello” que eu sempre fugi como o diabo da cruz da questão da política interna moçambicana. Apareceu ali, para final do blog, como arquétipo. Feio? Não, eunuco.