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Adenda à saída do ma-schamba.

por jpt, em 14.12.10

 

Sobre a minha saída do ma-schamba deixo mais esta nota pois muitos leitores são-no de modo esporádico e poderão não compreender o que aqui aconteceu.

 

Como se vê o ma-schamba continua, agora com o solitário ABM. É, como já disse, uma opção legítima. Mas é com toda a certeza uma legitimidade sui generis. Um caso peculiar no bloguismo - e até sorrio diante desta idiossincrasia (mais uma?) do ma-schamba. Essa continuidade implicou que eu tenha apagado as minhas entradas neste blog. Fechei também o ma-schamba no blogspot, anterior poiso. E irei pedir - pois já não tenho acesso à conta - para encerrar o velhíssimo ma-schamba no weblog, onde residem os anos iniciais (2003 a 2006). As entradas de AL foram apagadas enquanto as de FF e as de MVF ficarão visíveis, por decisão dos autores. Os quatro saímos do blog. PSB está em viagem e em breve decidirá do que fazer da sua participação aqui.

 

Todas as minhas entradas foram transferidas para o Pouco-pouco, para aí ficarem arquivadas - ainda que a continuidade do "registo" ma-schamba em novo local e com novo nome não me pareça apetecível. Para além da boa (blogo)disposição a transferência implicou perder três coisas: o nome (o qual, confesso, me é muito identitário); as ligações entre textos, as minhas referências a textos anteriores, sete anos de intra-diálogo, e também as ligações externas a textos meus; e, coisa mais recente e menos importante, os grupos de leitura do blog, em particular no facebook, que estavam com uma dimensão espantosa para um blog destes, não partidário e não jornalístico. Paciência.

 

Sobre o que aconteceu nos últimos dias apenas me ocorre qualificá-lo como inqualificável. Alguns comentadores residentes têm invocado a minha antiguidade no blog como fundamento para que imponha uma "lei", um caminho - e na ausência dessa LL, veterano e sempre áspero comentador, invectiva a minha "estupidez". Mas, em meu entender, o que caracteriza um colectivo é exactamente o facto da antiguidade não ser um posto. E, também, não ser uma agremiação aritmética, sujeita apenas à quantidade opinativa. É um consenso. Fluído e de participação voluntária, moldável às intenções expressas e às respectivas veemências. Por isso mesmo frágil.

 

ABM decidiu transcrever as mensagens diplomáticas americanas pirateadas. Eu escrevi várias vezes sobre o assunto, contestando a sua legitimidade. Assente na repulsa que aqui tantas vez expus sobre a pequenez do americocentrismo do verbo português actual, à "direita" e à "esquerda", como tanto o mostraram as paupérrimas ejaculações "bushistas" e "obamistas" nos últimos anos.  Refutando o anti-americanismo explícito de largo espectro da locução portuguesa (e tão presente nos sectores aparentemente "democráticos" moçambicanos), em particular a que se reclama de "esquerda" mas não só ela, que nada mais é do que uma avatar dos sentimentos anti-democráticos. Assente também na ideia da necessária valorização das instituições democráticas, e do Estado neste caso, principalmente num contexto de sobrevalorização e sobreaudição dos movimentos neo-comunistas. Esses cuja prática intenta o ataque a todas as formas institucionais, via última (e hoje única) de atingirem o totalitarismo pretendido sob a falsária capa do "individualismo", numa deriva ideológica só aparentemente acéfala, pois na realidade é a calculada táctica, nesta viragem do milénio, do obscurantismo euro-ocidental. Valorização essa, crítica e analítica é certo, mas não compatível com o voyeurismo que o caso "wikileaks" originou, origina e reproduzirá. Pois, contrariamente ao que diz a superficialidade jornalística e a falsidade neocomunista, a transparência radical não é mais do que a opacidade. Total.

 

Finalmente, também por experiência biográfica. Trabalhei alguns anos numa embaixada, não tenho a visão tortuosa (nem a palerma, para aí blogorepetida, já agora) do trabalho diplomático, necessário e necessariamente informativo sobre a realidade vivida. E necessariamente impublicado. É para isso que existem arquivos e prazos de abertura. Até porque o "tempo" não é obrigatoriamente padronizado como o "imediato", antropologicamente reduzido ao "quotidiano" [e neste caso regresso à minha besta negra (sem aspas): que um historiador (ainda que seja um historiador que se atreve a escrever que os portugueses foram "o primeiro povo" a prescindir da pena de morte) como Rui Tavares considere que os arquivos estatais devam ser imediatamente abertos, e que explicite isso para agrado de gente inteligente como Joana Lopes, aterroriza-me quanto ao futuro do meu país. Até quando teremos que ver e ouvir estas aplaudidas pústulas e varizes do execrável e ordinário can-can esquerdista?]

 

Sobre essa matéria escrevi alguns textos. Excepcionalmente - nunca isto havia acontecido no ma-schamba - enviei ao ABM um deles, "o sol e a peneira", antes de o publicar, aguardando a sua opinião sobre o conteúdo. No qual me demarcava da publicação das mensagens americanas. Grosso modo pelas razões explicitadas. Após isso ABM decidiu traduzir as mensagens e aqui publicá-las. Insensível a uma relativa coerência interna face a um conjunto de textos que repudiavam o "gotejar", como lhe chamei. Num âmbito mais amplo completamente à revelia dos propósitos deste blog, os sempre chamados "estatutos editoriais", que estipulavam extrema parcimónia quanto à política interna moçambicana. Executando assim uma usurpação de um bem, de um blog, colectivo.

 

Para mais, e como já fiz ver em mensagem privada, levantando outra questão. As mensagens americanas vituperam o estado moçambicano.ABM, no seu propósito divulgador e denunciador, assume explicitamente o seu conteúdo como verdadeiro. Ora se assim é, se o Estado moçambicano assim o é, ABM inconsiderou os meus interesses e a minha situação pessoal, familiar e profissional, sabendo-me único residente, único trabalhador dependente aqui e conhecido como fundador do blog que ele utilizou para atacar o poder moçambicano. Bem como, ainda que em menor grau, os dos outros três co-bloguistas que têm também interesses profissionais e pessoais no país. A nenhum de nós perguntou se estaríamos disponíveis para aderir à  sua iniciativa. Mais uma vez o refiro, usurpou um local colectivo, com regras bem-dispostas mas explícitas, em função dos seus interesses e/ou das suas vontades.

 

Eu não estaria disponível para essa associação. Por razões políticas e ideológicas, algumas que então expressei e outras que agora desenvolvo. Também por razões ligadas à auto-percepção: esta questão não me é uma questão de cidadania. Eu não sou cidadão e não o sendo nunca reduziria, um naco que fosse, a paz de espírito da minha família para reproduzir uma coisa que ainda por cima considero, em abstracto, impublicável - e isto prende-se com o que o comentador ARL referia há algum tempo aqui: a incapacidade de tantos se perceberem aqui estrangeiros. Eu assim me percebo. Pode ser discutível o grau de excentricidade com que cada um se vê numa situação residencial, ainda para mais a longo termo como é o meu caso. Mas por mais solidariedade que sinta com o país Moçambique não tenho, e disciplino-me para não ter, as pulsões da cidadania.

 

Porquê tudo isto? Não posso deixar de interpretar. Independentemente das questões individuais e das ligadas à específica interacção entre os co-bloguistas do ma-schamba é-me óbvia a influência de uma dimensão recorrente, mesmo que não universal, nesta questão do olhar dos portugueses sobre os países antigas colónias. É a da permanência do ressentimento histórico. Um ressentimento, mesclado com a confusa reclamação de pertença, que tudo polui e tudo acaba por incompreender, quantas vezes reclamando-se de um empirismo ... inexistente. É-me óbvio que foi esse ressentimento histórico que assassinou uma boa, ainda que distante, amizade. E, por arrasto, um blog.

 

Vou-me deszangando. Pois percebo, aliás sei muito bem, que também eu tenho sido muito mau amigo dos meus melhores amigos. Não dos distantes, sim dos mais próximos, mais queridos e respeitados. E não a propósito da merda de um blog, mas sim no relativo às coisas mais importantes coisas da vida. Mau amigo e sem a grandeza (ou mesmo a pequenez) de tentar ultrapassar isso, isto, de refazer o refazível. E também eu por causa do ressentimento. Um ressentimento diferente, ressentido comigo mesmo. E isto dos ressentimentos vai-nos apoucando, muito-muito.

 

Não sei o que aconteceu com o ABM. E também não sei bem o que aconteceu comigo. Mas, é óbvio, alguma coisa não nos correu bem. E não nos está a correr bem.

 

A ver se esta merda melhora. E não vai ser num blog, com toda a certeza.

 

jpt

publicado às 07:35


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