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ma-schamba e PNETMoçambique

por jpt, em 16.12.10

 

[Fumador Maconde (autor desconhecido, fotografia de Manuel Manarte)]

 

[se não escrever isto tenho que ir fumar um cigarro]

 

Após alguns textos em regime solitário ABM terminou no ma-schamba. No último texto entre aparentes reverências deturpa as minhas opiniões, e isso é feio. Reduz as minhas razões, expostas extensamente e, porventura, com demasiada intensidade, a um (vil?) “bem estar“. E usando uma retórica, até máscula, como se sobre tal coisa planasse. Não repito os meus argumentos sobre o afastamento do blog da política moçambicana imediata. Mas deixo isto: nos últimos anos ABM ocupou aqui importantíssimos cargos na banca. Está agora em sabática. E com toda a certeza que se estivesse em funções, ou prevendo assumi-las em breve, não publicaria o que publicou. Pode vir negar esta evidência. Mas será ridículo por incredível. Por isso mesmo esta sua retórica é inaceitável. E é-me ofensiva.

 

Frisa que o convidei. Sim. Quem ler os arquivos do blog verá que desde 2004 o ABM ali publicou textos. Sobre a história e a economia de Moçambique. Sobre a iconografia do país. Da qual é entusiasta amador. Foi essa paixão e o humor que a rodeava, e que veio acampar no ma-schamba em regime de comentários frequentes, que convidei, convoquei. Foi para isso que me desloquei a casa dele – como, de modo retorcido, invoca agora. Tendo logo ficado explícito quais eram as balizas do nosso empenhamento.

 

Diz ainda que se foi apercebendo da dificuldade em publicar no ma-schamba. Se a sentiu deveria ter publicado alhures. Saindo do blog ou separando registos – se abriu um blog sobre desporto no tempo colonial poderia ter aberto outros. Com ele partilhei (propondo-o como “amigo”) milhares de ligações no facebook,  provenientes dos grupos de leitura do blog. Com esse enorme público, reprodutor ainda para mais, poderia divulgar blog(s) ou ter publicado “notas” no FB. Ou, como o faz regularmente, na imprensa moçambicana. Mas entendeu, apesar das “dificuldades” que sentia, usar o blog colectivo.

 

Este tipo de argumentação, ainda para mais sucedendo à publicação de um conjunto de textos que afrontam um poder, colhe simpatia em algumas pessoas. Disso exemplo são comentadores que surgem justificando-a. Até comentadores residentes, alguns porque – apesar de visitas veteranas – nunca tinham atentado nos “estatutos editoriais”. Outros, como o meu amigo Pedro Silveira, que é jurista, empresário e até tem cargos políticos, que não se apercebem de duas coisas: a) os contextos, internos e externos, do exercício da palavra são bem mais importantes do que meras “histórias”, como ele os reduz;  b) os compromissos (mesmo que apenas em blog) são para cumprir. Enquanto se pode. Quando não se pode, quando não se quer, avisa-se e parte-se.

 

Para culminar este triste final ainda me aparece Isabel Metello, uma bloguista emigrante moçambicana em Portugal, a tentar pontapear-me. Com o mecanismo habitual: truncam-se e deturpam-se as palavras alheias e depois invectiva-se a sua desonestidade. Utilizando o português como uma burguesa bem letrada de Portugal (diversidades ["nuances"] sintácticas e semânticas que ao fim destes anos já consigo perceber) transforma o meu “[co-bloguistas que] “têm também interesses profissionais e pessoais no país” em “detêm interesses em Moçambique” – para os leitores com diferentes usos (sociológicos e regionais) do português recordo a diferente semântica do “ter” e do “deter” no português burguês de Portugal, e é com isso que Metello joga. Usualmente “ter” destina-se também ao intangível enquanto “deter” restringe-se a um conteúdo material ou até materialista [ex. "eu tenho interesses naquela rapariga" como eu gosto de, simpatizo com, tenho vontade/desejo; "eu detenho interesses naquela rapariga", eu sou o proxeneneta (chulo) dela]. Partindo desse aparente pormenor descuidado mas efectiva, e torpe, manipulação Metello invectiva-me por cuidar dos meus interesses pessoais e, por esses, por isso, não “procurar a verdade” sobre Moçambique no bloguismo. Algo que ela como “moçambicana” exige que seja o objectivo de um blog (ou, pelo menos, que fosse o do ma-schamba). Tem todo o direito de procurar a verdade (até nos blogs). Mas não pode exigir que os outros a procurem e a encontrem. Principalmente quando, como é o caso, nunca arvoraram esse objectivo. Para mim o blog sempre foi local de opinião, não de verdade. E a distinção não é um sofisma.

 

É certo que posso compreender a curiosidade de Isabel Metello, moçambicana emigrada em Portugal, e que quer encontrar nos blogs a verdade sobre Moçambique. Eu não tenho essa visão tão linear da “verdade” mas acarinho a ideia de uma relativa claridade provocada pelo confronto de opiniões. Também por isso, e dada a minha blogomania, colectei os blogs moçambicanos e sobre Moçambique. Primeiro com a ajuda do Paulo Querido fizemos o belo “ma-Blog” (que belo nome!), que actualizava o panorama global do bloguismo em Moçambique. Depois, acolhido pela rede PNET estruturei o PNETMoçambique. Ainda que algo desactualizado ali estão coligidos centenas de blogs moçambicanos e sobre Moçambique [Lamento, não há secção "verdade". Mas há secção "opinião"]. Foi o meu contributo para a disseminação no país da palavra, livre (até sob o  ponto de vista de estilo, muito menos rebuscado do que aquele que grassava na imprensa nos finais do século passado e início de hoje), individual, polémica e polemizadora. Para o entrechocar de opiniões (o surgimento de verdades, quiçá). Um contributo sem grande sucesso, o sítio nunca teve grande audiência (talvez por ser coisa de um “tuga”, sempre achei). Mas é a minha participação (não o reclamar sobre os monumentos portugueses apeados ou as mudanças da toponímia ou a malandragem que sucedeu ao não-tão-bom-assim-mas-ainda-assim-honesto poder colonial). A “moçambicana” Isabel Metello, cheia de curiosidade pela verdade, não tem na sua lista de ligações no blog nem o pnetmoçambique nem blogs do país. Do seu país?

 

Porque abocanho eu a senhora emigrante moçambicana no meu país? Porque, como alguns dos leitores do ma-schamba sabem, é e sempre foi por causa da “Isabel Metello” que eu sempre fugi como o diabo da cruz da questão da política interna moçambicana. Apareceu ali, para final do blog, como arquétipo. Feio? Não, eunuco.

 

 

publicado às 08:46

Carlos Pinto Coelho: a seu ver

por jpt, em 16.12.10
[caption id="attachment_25876" align="aligncenter" width="740" caption="Carlos Pinto Coelho (Nova Iorque "Calor de Agosto")"]
[/caption]
Carlos Pinto Coelho (Lisboa ... "Coisa de garça alisando as penas")

[Carlos Pinto Coelho, A Meu Ver, Lisboa, Pégaso, 1992]

De Carlos Pinto Coelho, a propósito da sua fotografia (de amador, como se reclamava), disse Nuno Brederode dos Santos, captando-lhe o olhar abrangente:

"Vejo ternuras e raivas, gritos e humilhações, esperanças e decadências, confidências e denúncias, o momento e o eterno, pormenores e horizontes. (...) E, de vez em quando, vejo a vingança do teu, que é o nosso, remorso: um sorriso na miséria ou uma crispação na opulência.

O teu livro não tem nexo, porque esse é o nexo que tu vês no mundo. (...) A vida faz-se com tudo, porque tudo é a vida. Até a morte."

Morreu agora. Cedo.jpt

publicado às 07:38

Sim, começar um blog perdendo as ligações antes estabelecidas é, para um blogo-picuinhas, uma úlcera. Por isso mesmo um obrigado ao Torquato da Luz que logo actualizou a sua ligação pública. É o celebrar do primeiro elo estrutural aqui para o sítio.

 

Adenda: sou "acusado" de ser injusto por não referir outros elos de imediato estabelecidos, coisa que apenas se deveu a ter-me eu baseado no reconhecimento pelo sistema do blog das ligações para aqui estabelecidas.

 

Nos (bons velhos?) "tempos" nestas ocasiões faziam-se listas de agradecimentos, formas protocolares (até rituais) de se sedimentar aquilo que até certo ponto se foi estabelecendo como uma blogocomunidade (a tal de "blogoesfera", como nunca gostei de chamar). Hoje em dia, nesta era de "blogoindividualismo pós-moderno" é mais raro isso. Assim, e também por conservadorismo comunitarista, aqui ficam os agradecimentos ao The Cat Scats [que protestou, justificadamente, a minha in-gratidão], ao Cova do Urso, ao PembaAatoll, ao Entre as Brumas da Memória, ao Cibertúlia, ao Voz em Fuga e ao Antologia do Esquecimento, blogocompanheiros veteraníssimos. E também ao 100Nada, que não usa coluna de elos mas anunciou a transferência para aqui.

 

jpt

publicado às 07:24

[Luis Abélard, "Reinata]

 

Foram hoje entregues os prémios FUNDAC 2010. Como é óbvio o mais relevante é o "Consagração", que foi atribuído à escultora Reinata. O júri, um grupo integrando Elvira Viegas, Funcho (João Costa), Machado da Graça, Ungulani Ba Ka Khosa, apresentou este texto dedicado à premiada (estou obrigado ao seu presidente, Machado da Graça, que facilitou a sua publicação neste ma-schamba).

 

A atribuição do Prémio FUNDAC “Consagração” a Reinata Sadimba reconhece a notável carreira desta escultora moçambicana, sublinhando o extraordinário merecimento da sua obra. O prémio intenta realçar junto da comunidade nacional as virtudes e as virtualidades do seu projecto artístico. Este que vem constituindo desde há décadas, começado na sua aldeia Nimu, animado com as iniciais experiências na capital nacional na já longínqua década de oitenta, enriquecido com a sua estadia na Tanzânia, e desde então estável mas nunca rotineiro. Pois tem sido um caminho sempre desbravando novas perspectivas, de desafio em desafio, passo a passo, neste seu trajecto de oleira a escultora, da fogueira ao forno. E o qual sendo acarinhado internamente tem também sido reconhecido no estrangeiro, como o demonstram as inúmeras exposições em que a artista tem participado, a título individual ou em manifestações colectivas.

 

Este prémio pretende alertar para as características próprias da sua arte, que implicam referências transversais à sociedade nacional, e as quais se poderão considerar como exemplares reformulações dos patrimónios plásticos e culturais, sem que esta reclamação possa questionar o carácter de irredutível individualidade do exercício artístico de Reinata Sadimba.

 

A escultora é receptáculo das tradições culturais do seu contexto originário. Crescida no planalto Mueda, cedo se iniciou no trabalho da olaria. Uma olaria tradicional, de dimensão utilitária ainda. Mas que também comporta importantes dimensões estéticas, expressas nas temáticas geométricas que explicitam simbolicamente valores e concepções culturais cosmológicos. Uma olaria trabalho feminino, correspondendo a uma divisão por género dos encargos representacionais da cultura maconde: os homens esculpindo na madeira os discursos locais sobre o mundo, as mulheres fazendo-o, menos explicitamente, no moldar da argila.

 

Ascendida à maturidade Reinata inovou o seu trabalho de oleira. Rompeu com os limites utilitários da sua actividade e assim tornando-se demiurga de um novo mundo, figurativo, antroponómico, instável e em riscos de permanente surpresa. Nessa constante vontade de novos passos e novos fornos, carrega consigo o seu passado, traz os picotados geométricos que invocam as formas mas acima de tudo os conteúdos do mundo humano. Traz ainda o ensino tradicional, dos ritos femininos, palco das iniciais figuras da olaria local (shitengamatu) utilizadas nas suas danças finais. Traz, com toda a certeza, as figuras cósmicas, esses shetaniaté mestres do destino, que todo o Moçambique conhece e associa ao discurso maconde. E traz também todo o mundo de figuras, uma fauna reconstruída, um mundo assim capturado para seu deleite e sossego comunitário.

 

Pois no seu labor, pela sua fervilhante imaginação, assiste-se também á reconstrução do papel do imaginário feminino, à mudança do estatuto desses discursos femininos. O mundo, não apenas a representação do mundo, passa a ser produzido por Reinata. E, depois dela, pelas mulheres oleiras. E, porque não, pelas mulheres. Todas elas. Também elas.

 

Sim, Reinata representa o mundo. Mas representa-o como ele é e como quer que ele seja, uma mescla feliz, até utópica. Usa para isso a sua matéria-prima, a cultura na qual foi feita crescer. Mas é exactamente essa sua dimensão criativa, essa sua constante reconstrução, criativa, irónica, que apresenta erotismo e tristeza, festa e quotidiano, a fertilidade, o carinho, o mundo doméstico e a constante monstruosidade, é esse caminho sempre inesperável que Reinata anuncia que cumpre o desígnio artístico que aqui se consagra. As virtualidades da reconstrução. Constante. E rebelde. Assim demonstrando, através da sua individualidade, a extrema plasticidade da cultura dita popular. Sempre reinventada.

 

Reinata oleira maconde, dizem-na como se fosse essa a descrição que a definisse. Escultora do mundo, esculpindo mundos. Fazendo futuros. Pelo seu brilho inscrevendo as mulheres como dele escultoras.

 

Mas também anunciando a escultura em cerâmica, campo hoje em dia tão pujante nas artes plásticas moçambicanas actuais. Com toda a certeza devido à sua influência. São também esses novos caminhos colectivos rasgados por Reinata, essa sua marca no futuro, que se consagram neste e por este prémio.

 

Nota: fotografia de Reinata de autoria de Luis Abélard, publicada em "Com as Mãos. 24 Artistas Moçambicanos" (Athena, 2010).

publicado às 05:47


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