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Uma direcção que quer confiscar os estatutos e impedir no tribunal uma assembleia geral, uma coisa inacreditável num clube, décadas, século até, de vida associativa postas em causa. Um ex-presidente Dias da Cunha, o delfim do "projecto Roquette", que se mete ao barulho em artimanhas jurídicas, sabe-se lá porquê. Um vice-presidente da mesa da assembleia-geral, Daniel Sampaio, agredido pelos sócios, decerto que ajagunçados. Depois, e em registo de minudência diante do desastre estrutural que tudo isto anuncia, um jogador mal contratado (Niculae, que afinal parece que não pode jogar), em desnorte administrativo destes "notáveis". Finalmente, para ajudar (tentar safar?) este inenarrável consulado Godinho Lopes, homem que se presidenciou para limpar a sua conspurcada imagem pública, o Porto empresta in extremis um jogador, Kleber. Sim, esse mesmo que o Sporting tentou contratar há anos e que deu origem a triste novela, diante deste mesmo Porto. Uma trapalhada infinda, uma vergonha atentatória. E uma descabelada subalternização. [Actualização: a contratação de Kleber falhou à última hora, por exigências financeiras do (empresário do) jogador, o que em nada se opõe à ideia deste postal].

Um tipo não muda de clube? Mas, e se o clube muda de clube?

jpt

publicado às 22:11

A carta aberta aos portugueses

por jpt, em 30.01.13

 

Há um ano escrevi aqui (e no Canal de Moçambique) sobre a actual imigração portuguesa para Moçambique, e no meio deixei: "Muitos portugueses a chegarem, a fugir à crise nacional e europeia. Três pontos: a) como qualquer vaga migratória isso vai levantar questões no mercado de trabalho (que aqui assumiram, assumem e vão assumir uma linguagem que remete para as realidades históricas do racismo e do colonialismo). É assim, será assim; b) muita gente chega mal preparada ou seja, com a atitude errada. Altaneira, entenda-se (é também o maldito “complexo do Equador”, que torna “doutor” quem o atravessa – coisa que não é de agora). Muita gente não a tem, vem trabalhar e viver. Esta última leva por tabela, catalogada como “tuga” (ou xi-colono) devida à tonta arrogância de uma parcela de patrícios que não percebem onde estão (“senhor(a), você está no estrangeiro” é coisa que muitas vezes me (nos) apetece dizer); c) e há gente patrícia mais antiga aqui a resmungar contra os que chegam agora, “que raio de gente, etc e tal", como se fossem laurentinos enjoados com os colonos rurais, transmontanos ou madeirenses, vindos para o Chockwé nos tempos idos. Esquecem-se, obviamente, que também chegaram um dia (há dois anos, cinco, quinze – como eu – ou, poucos, há mais anos ainda)."

 

Nos últimos dias recebo várias mensagens com uma "carta aberta aos portugueses", a qual vejo também reproduzida no facebook e na comunicação social. Ecoa o mal-estar com esta imigração e termina com um conselho explícito: que mantenhamos a bola baixa. Sucede-se a algumas outras discussões de facebook (vi algumas, contam-me outras) que realçam o desagrado com a situação actual. Umas explicitando o porquê desse desagrado (mais ligadas às questões da imigração ilegal), outras aludindo a uma generalizada má-vontade dos recém-chegados. E outras pura e simplesmente, considerando os portugueses aqui prejudiciais ("os portugueses são todos mal-educados" li recentemente, e engoli).

 

Esta carta chega-me, e em tons de concordância, por parte de amigos moçambicanos (alguns do grupo socio-etário da sua autora, até dela amigos pessoais), e por parte de amigos portugueses aqui há longo tempo residentes ou ex-residentes de longo prazo. E também por outros patrícios, entre o incomodados e o até receosos, sobre o que isto significa, o que pode induzir. Não se exagere, é um fenómeno normal, também no nosso país, e em tantos outros, a chegada de imigrantes provoca reacções de incómodo. E, em particular, quando estão inseridas num tipo de relacionamento histórico como este, ex-colonial.

 

A questão desta "carta aberta" ultrapassa o seu conteúdo ou mesmo o contexto sociológico muito particular da sua realização. E até mesmo o facto de eclodir na sequência da questão recentemente levantada dos vistos de entrada, cujo incremento de controlo advém da mais normal, e salutar, actividade administrativa. A questão central será até mais a da sua recepção e reprodução (partilha electrónica e conversacional).

 

Alguns pontos gostava de deixar, em corrida, pois por demais atarefado para textos sistematizados:

 

a. Em finais de XX também houve afluxo de portugueses, normalmente quadros ligados a grandes ou médias empresas, ou pequenos e médios investidores. Uma menor dimensão quantitativa e com outras características sociológicas (para facilitar chamo-lhes "expatriados", no sentido de melhor situação socioprofissional e com lugares de recuo). A reacção foi, e as pessoas esquecem-se, bastante mais adversa. Não só porque isto significava a chegada de capital (financeiro, fundamentalmente) português, e nisso parecendo assumir contornos do "neo-colonialismo". Mas também porque as memórias do período colonial, da guerra de independência (e da civil) eram mais vivas. E ainda porque a "classe média" urbana tinha menores disponibilidades e sentia mais o peso competitivo dos quadros estrangeiros. E a questão de Cahora-Bassa não estava ainda terminada, pois continuo a pensar que o final desse processo significou um "degelo" nas relações entre países e, por arrasto, entre sociedades.

 

Quando falo em "reacção adversa" falo de discursos públicos, de personalidades conhecidas. E das "cartas de leitores" aos jornais (e quão célebre era a correspondência, vera e fictícia, no jornal "Notícias"). Alusões e acusações a desmandos e maus tratos (e a escândalos económicos) juntaram-se. Umas teriam fundamento (a mácula de uma grande aldrabice bancária foi terrível) outras nem tanto (a primeira vez que escrevi num jornal moçambicano foi para defender um amigo, administrador de uma empresa, que estava a ser, prolongada e injustamente, escalpado no jornal "Savana". E ainda hoje lembro a gratidão ao Augusto Carvalho por ter intercedido no "Domingo" para que ali me publicassem o justíssimo desagravo).

 

Interessante no processo actual, bem menos intenso, é que se centra no mundo do "facebook", evidenciando a força do novo espaço de discurso público em Moçambique. E fazendo notar que neste espaço, muito menos hierarquizado, as vozes descontentes que se expressam estão mais entre os cidadãos comuns do que nas personalidades da elite político-cultural. Haverá, ponho como hipótese, menos "política" neste expressar do desagrado.

 

b. A sociedade portuguesa indiscutiu o colonialismo. Ou seja, manteve a sua histórica inconsciência colonialista, muito baseada no velho mito do "modo especial de ser português", aliás, do "modo especial de ser colono". Isso implica a manutenção, fluída, de estruturas mentais sociais que condicionam categorizações e relacionamentos, as quais subsistem, como é óbvio, numa multiplicidade de conteúdos - entenda-se, "cada um como cada qual", ou seja, as perspectivas individuais não são determinadas mas são, isso  sim, influenciadas.

 

Esta "inconsciência", este impensar do passado, não num sentido automortificador mas sim com uma veia prospectiva, continua a ser sublinhada por discursos dominantes. O actual pico da literatura "leve" que evoca a "boa África colonial" ajudará, a continuidade da ideia da "lusofonia" como espaço comum (e com a sua excrescência mal-cheirosa Acordo Ortográfico) é disso motor. A ideia de que as realidades históricas eram brutais desvanece-se. E quase inexiste a ideia que essa brutalidade era sistémica, como lhe chamou Sartre. Estas coisas estão escritas, e há muito. Pegue-se no "O Fascismo Nunca Existiu" (1976) de Eduardo Lourenço e vejam-se os luminosos textos dedicados ao (im)pensamento português sobre a relação colonial com África (escritos entre 1959 e 1976!!!) e está lá quase tudo, numa poderosa análise que as décadas seguintes só vieram sublinhar.  Lourenço é muito falado, premiado, elogiado. Mas parece ser pouco (re)lido. A dimensão sistémica colonial da sociedade e economia portuguesa (e metropolitana) está explícita em textos pioneiríssimos de José Capela ainda do início de 1970s, e depois demonstrada no excelente "Fio da Meada" de Carlos Fortuna, um marco já nos anos 90s. Mas dá a sensação que não ultrapassam o meio académico que os respeita. Os extraordinários textos de Grabato Dias (António Quadros) são esquecidos, que de "leves" e "miríficos" nada têm.

 

Porquê este rodeio bibliográfico? Porque o desconhecimento das realidades históricas e a armadilha da "língua comum" produzem em Portugal uma visão de África(s) e categorizações menos actuais do que se pensa, portanto menos úteis, menos utilizáveis, menos propensas a um relacionamento desmaculado (o "imaculado" não é uma palavra ... humana). E implica também muita surpresa, o deparar com ambientes menos propícios aos portugueses do que quantas vezes se pensa, se antevê. Ambientes diversos sociologicamente e diversos nacionalmente, pois não há uma una relação "portugueses-ex-colónias". Mas é tudo, como não poderia deixar de ser, bem menos fraterno do que o nosso (português) senso comum produz.

 

E talvez este tipo de discursos posssa servir, empurrar, para que se pense melhor. Não "de bola baixa". Mas de "bola alta".

 

c. A polémica carta pega em excertos discursivos de portugueses sobre Moçambique (recolhidos aquando das polémicas no facebook sobre o fim da atribuição de vistos de entrada nas fronteiras). São entendidos como significativos, os discursos na internet baseando uma indução sobre os portugueses. Para mim este é também um ponto interessante, pelas novas dinâmicas do discurso público e das suas utilizações e interpretações, que demonstra. Pois ao longo dos anos acompanhei os discursos electrónicos sobre Moçambique, em particular no bloguismo. Com a fantástica colaboração do Paulo Querido, organizei o directório "ma-blog", continuado depois com o Vitor Coelho da Silva no PNetMoçambique. Conheci centenas de blogs moçambicanos e sobre Moçambique. Muitos, muitos mesmo, escritos por portugueses. E vários destes por portugueses em Moçambique, voluntários, missionários, cooperantes, turistas, imigrantes, investigadores (como exemplo muito actual este Beijo-de-mulata, recentemente editado em livro em Portugal).

 

E o que me foi sempre notório, até como analisável, é o facto da (re)produção do encanto nesses blogs. Um encantamento, solidário com as pessoas, embrenhado na natureza, curioso com a história, preocupado com o real e o futuro. Quantas e quantas vezes ingénuo, namorando o exótico, até pa/maternalista, e eu face a isso resmungando. Mas um generalizado tom nos discursos electrónicos portugueses aquando em Moçambique. Oposto, até inverso, ao produzido em discussões de facebook que quase de certeza têm locutores sociologicamente distintos, e na sua esmagadora maioria bem longe do país, cruzando ainda as dores de um "luto colonial", de teimosia imorredoira. E nisso muito mais ligados às concepções (históricas) que acima refiro.

 

Deste modo, também por tudo isto, assentar a tese da malevolência portuguesa (ou da significativa malevolência portuguesa, mesmo que não universal) no "picanço" a la carte desses exemplos mais ultramontanos (ainda que eles sejam, porque o são, recorrentes em alguns contextos electrónicos) me parece francamente letal. Para quem escreve. Não para quem ouve e lê.

 

d. Depois, e por fim, o óbvio e mais importante. Moçambique como "terra de oportunidades"? Como penúltimo passo deste generalizado "go south" africano? Como espaço de mineração e garimpo? Como país que vive uma continuada pacificação e um anunciado desenvolvimento? Como terra de gás e petróleo? Esta é a realidade das representações que o país tem, de momento, no contexto internacional. O problema são os imigrantes portugueses (com as suas características)? Ou é a capacidade do país conviver com o fluxo tão diversificado de imigrantes e de migrantes? O qual foi, inclusivamente, saudado há pouco por um membro do governo como dimensão do desenvolvimento e globalização sentidos no país.

 

A classe média maputense choca-se com a imigração portuguesa, legal e ilegal. E tem razões sociológicas para tal, deixemo-nos de exagerados prudidos. Expressa-as publicamente (jornais, redes sociais). Mas se cruzarmos a sociedade nas suas várias dimensões encontramos outras preocupações com tantos outros núcleos estrangeiros. No norte com os "tanzanianos", nos pequenos comerciantes com os "nigerianos", generalizadamente com os "indianos", em tanta gente com os chineses (sem aspas, pois são realmente chineses contrariamente aos outros universos), nos quadros também com os "sul-africanos", há alguns anos no centro do país com os "zimbabweanos". Etc.

 

A questão é bem mais vasta. E apaixonante. É a de incrementar a capacidade administrativa para dirimir este desafio que a imagem de progresso do país provoca, o fluxo imigratório. E de fazer coexistir isso com desenvolvimento económico e com justiça social - sim, atentando que nestas mobilidades os défices de capital cultural ou económico dos cidadãos nacionais podem ser (podem ser, sublinho) prejudiciais para a justiça social. Ou seja, os desafios do país são enormes, não são os "200 portugueses por mês" (que Núria Negrão, autora da "carta aberta", afirma) - por piores que estes sejam, que nós sejamos.

 

Por tudo isto, ver os meus amigos intelectuais, académicos, empresários ou funcionários burgueses, a maioria deles auto-situando-se "à esquerda" (no espectro político moçambicano esta polaridade inexiste, mas na linguagem autodefinidora funciona), até ecoadores do "indignismo" globalizado, a aplaudirem textos sociologicamente tão débeis, generalizações a roçarem o mero preconceito, e invocações do "respeitinho", do "bater a bola baixa", que aludem ao mais medonho do autoritarismo, é-me doloroso.

 

Até porque, e ainda que não esquecendo (daí a arenga histórica acima colocada) o particular contexto histórico desta imigração portuguesa, a construção de sociedades democráticas é também a defesa de que os imigrantes, não deixando de ser estrangeiros, "batam a bola alta", sejam cidadãos. Metecos, como este blog se reclama. Desajustados, até mal-criados, se calhar. Mas não rasteirinhos.

 

Oxalá.

 

jpt

publicado às 17:52

O problema do Sporting

por jpt, em 28.01.13
  jpt

publicado às 11:18

 

 

"E não se esqueçam: não há nada de novo debaixo do sol". Era com esta frase costumeira que acabavam os seminários de um dos melhores professores da minha vida. Durante quatro horas debatíamos história colonial e os paralelismos subtis entre os discursos coloniais de antanho e as “políticas de desenvolvimento” de agora; os mesmos conceitos trasvestidos com novas roupagens semânticas, tornando-os assim inseríveis (e defensáveis) na moderna corrente bem-pensante que, por bem pensante ser, lhes confere legitimidade. Retida em casa há umas semanas (maldita gripe!) engulo xaropes e televisão em doses nada homeopatetas e muito penso eu nele!Vejo o banquinho do mea-culpa da Oprah Winfrey e só me lembro das confissões públicas e mega-julgamentos estalinistas. De diferente só lhes vejo o destino – o dos primeiros era certamente a morte ou o gulag, já os segundos aqui abrem caminho ao registo literário cum filme em Hollywood. Mas lá está, estou febril...Porque é que os pais do estado social quando ficam doentes vão para os hospitais privados? Uma questão perfeitamente parva, nada relevante e, lá está!, oriunda de uma mente febril.Iraque versus Mali, por onde começar? Por onde se quiser que o terreno é fértil e também tem acessórios e danos colaterais. E a mim não me apetece pensar, porque a verdade é que eu estou febril e “não há nada de novo debaixo do sol”.

 

AL 

publicado às 10:29

Para além do horizonte

por jpt, em 28.01.13
 Já não venho a tempo da inauguração (maldita gripe!), mas não quero deixar de recomendar aos leitores maschambianos que o possam fazer, que não deixem de visitar a mais recente exposição do Miguel Barros. Quem não puder ir, pode ver algumas das obras expostas neste vídeo.Uns e outros podem ainda ver este belíssimo vídeo onde o Miguel nos revela o seu quotidiano de inspiração.">AL

publicado às 09:37

O internacionalismo da CGTP

por jpt, em 26.01.13

Arménio Carlos, líder da CGTP, central sindical ligada ao PCP (ele próprio militante do PCP). Tudo sempre dito como inscrito no amplexo "internacionalista". Continuo na minha, a lógica da esquerda local é absolutamente corporativa, reaccionária. Racista - sempre desligada dos imigrantes em Portugal, diga-se. Agora Arménio Carlos, na manifestação dos professores (!!!!!!) chama "escurinho" a Abebe Selassie, o etíope do FMI que trabalha com Portugal. O racismo, esse que não existe nem nunca existiu em Portugal, ou a ter existido foi sempre das elites, que o povo é camarada e, sendo oprimido, sempre irmão dos oprimidos, vem ao de cima (vá lá, não lhe saíu "cabrão do preto", talvez por haver camaradas senhoras na manifestação).

Leio isto mas a notícia não ecoa a gigantesca vaia com que os manifestantes professores ripostaram à javarda declaração do líder comunista português. Ou será que os manifestantes professores nem vaiaram, até apoiaram? Também me parece ... e é essa escória que ensina as novas gerações. Brancos de merda.

jpt

publicado às 23:25

A propósito de Poussin

por jpt, em 26.01.13

 

O livro é de 1911 (editado por Pierre Lafitte e C.), ano em que o meu avô paterno o comprou (em Coimbra, em Paris?) e assinou. Este "Poussin" (1594-1665) [biografia do pintor] [galeria dedicada] está na estante avoenga acompanhado por um livro da mesma colecção, dedicado a Velasquez. Tem uma biografia do pintor, sem grande aparato teórico, e contém 8 reproduções a cores de algumas das suas pinturas mais célebres, as quais surgem com boa qualidade - têm um século -, ainda que algo, um pouco, sombrias. É quase um livro de bolso, uma edição popular, ainda que de capa dura.

 

E confesso que me comove o livro, e o outro também. Há cem anos, de uma era tão anterior ao mundo Taschen, que trouxe a pintura (e outras artes) para dentro das estantes de todos, com boas reproduções e a preços baratos. Quanto lhe teriam custado, ao meu avô, então jovem estudante, mais ou menos abonado, estas aquisições? De que se teria privado (se calhar de nada, e eu apenas romanceio).

 

 

Depois ando na internet à procura dos quadros que ali são reproduzidos. Todos eles afamados, que pertencem à memória de um amador muito deficitário como eu. E de repente surge-me isto, este desconforto. Pois hoje temos tudo na internet (custa-me nada mostrar à filha o gigantesco universo das artes, esse que era necessário calcorrear para conhecer. E, depois, comprando caros estes livros e reproduções).

 

Mas vejam-se bem estas duas reproduções. Apenas duas das imensas que a "internet" nos dá do mesmo quadro de Poussin. E que mostram bem as radicais diferenças entre as reproduções que vão sendo "uploadadas". Equilíbrios, densidades, luminosidades, etc, tudo se esbate, se pluraliza assim perdendo.

 

Um tipo vai à internet, "vê" a imagem.

 

E desconhece as pinturas ... É o engano global, um aracnídeo de insensações.

 

(na próxima vez que for a Lisboa trago os livros do avô. Mesmo que as reproduções sejam algo sombrias ...)

 

jpt

publicado às 19:33

Heidi já não mora aqui

por jpt, em 26.01.13
(O Pedro Correia fez-me o favor de me convidar para participar no Delito de Opinião, um blog porta-aviões. Este foi o primeiro texto que lá coloquei, esta semana, fica também aqui como meu arquivo.)  

2012 foi o ano em que morreu o meu pai. Assim, sem mais, deixando-me esta papaia na garganta que não há maneira de escorregar, e já correu um ano inteiro. Depois, meses depois, morreu o meu sogro. De repente, inesperado. Assim, a devastar a Inês, assim a alquebrar-me. Velhos já, octogenários, idosos como se diz dos burgueses (ambos "senhores engenheiros", daqueles dos anos em que "engenheiro" era engenheiro). Por isso, por acabrunhados sem o dizer, por doridos, este Natal, esta quadra, mudámos, cedemos, voámos para a família, para o frio, para o nosso Portugal, lamentando toda esta década e meia de vida dos nossos mais-que-queridos que perdemos, e como se assim recuperássemos algo do irrecuperável, dos nossos mais velhos que já não mais veremos (ou só em sonhos, como hoje, na sesta, raisparta, a acordar para as lágrimas, esquivas, do desencanto).

Nisso da nossa Lisboa, que afinal já estranhamos ("pai, por que é que há tantos velhos em Portugal?", pergunta-me a Carolina, nos seus dez anos tão estupefacta naquele eixo geronte entre o Olivais salazarista e a Av. de Roma salazarenta), fugimos, com amigos queridos e "dos tempos", também eles emigrantes de longo termo, até mais do que nós, que até os há, e estes bem mais lá para o Norte rico, mas também eles com esta estranheza indita aquando em casa, e ainda é casa, que o exigimos a nós-próprios. Avançamos, como se festivos, claro, os miúdos todos juntos a alegrarem-nos, para sul, para a nossa costa, quando nos namorávamos, nós então cerca de Alzejur, os outros por ali mais ou menos. O último ali que valeu a pena antes deste Índico que me aprisionou, esta paixão sem metáforas, sem rodeios, sem merdas.

Odemira é como alguns chamam ao gelado atlântico que nos acolheu. Estou na sua costa, a tiritar, em busca de um medronho que me aqueça, pois não se está ali perto de Monchique?, a terra do verdadeiro hidromel?, e deparo-me com um imigrante, este vindo do norte, bem-posto. E logo brota a solidariedade imediata, sabemos nós bem como e quanto, entre quem vive entre aqueles que se julgam outros. É ele que me (nos) leva até aos medronhos e conta-nos o como dele por ali. Que trabalha naquela Odemira, mas a dos montes, a do mato chamo-lhe eu em tom cúmplice. Serviço social, diz-nos, supreendendo-me nestes tempos da raiva egoísta, mercantil. Trabalha com velhos, percorre a área apoiando os aqueles solitários, e aqui não há idosos, são velhos mesmo. Centenas deles, com-abrigo sem-família, diz-nos e traduzo-o assim, por esses montes do interior. 60% não tem casa de banho em casa, a maioria não tem água corrente nem electricidade, e narra a coisa que faz com aquele sorriso doce que eu uso ao falar dos distritos daqui, para os aguentar, para não gritar a des-graça deste mundo sem graça. Lamenta-se um pouco, sem ênfase, sem nenhum mais, pois sem recursos e com distâncias para percorrer (sorrio, como se no nosso rincão houvesse distâncias...) não consegue(m) aceder a mais que meia dúzia de casas por dia, nisso um constante défice da acção devida, do socorro desejado, que seja às vezes, tantas vezes, apenas um pouco de atenção.

Depois, já na Vila Nova das milfontes, à mesa, farta, saborosa, bem bebida, naquilo do já me chegar a trôpego, lembro-me da Heidi (o livro que quase ninguém leu, de Johanna Spyri, a série de animação que a minha geração adorou). Naquela Suíça montanhosa, pobre, "bárbara", por evangelizar, e nisso tão marcando as igrejas protestantes que por lá germinaram em XIX, aquela Suíça rural tão bem descrita por Patrick Harries na sua extraordinária biografia do gigante etnógrafo do sul de Moçambique e nordeste da África do Sul Henri Junod, o "Junod e as Sociedades Africanas. Impacto dos Missionários Suíços na África Austral" , por cá editado pela Paulinas Editorial (sim, nunca editado em Portugal, coisas do paroquialismo tétrico do mundo da lusofonice). Sei, percebo, já discorro, quase sem rumo, como se ainda estivesse à mesa, entre aguardentes. Mas relembro a Heidi dos desenhos animados, a menina orfã de mãe (uma qualquer tuberculose? sífilis não foi, que a moral literária não deixaria. Sida também não, que não havia) levada da cidade pela jovem tia, recém-empregada na cidade (prostituta não era, julgo que alguma honesta aprendiz de artifício manual, ou só operária, ou mesmo criada de servir, de fora, claro), para casa do velho avô, qual urso mal-disposto na montanha, este hibernando de afectos, até temido pelos aldeões do sopé. Afinal, crosta quebrada, um doce de homem, apenas ferido pela solidão, e que dará à menina Heidi a sua experiência de boa selvagem, entre cabritos e pastores, afectos e prazeres. Coisa falsa, claro, Condessa de Ségur em regime de "pastoral". Mas coisa vera, claro, se quisermos viver, essa dos afectos vividos ou sonhados.

É disso que me lembro neste fim do ano, após o Natal. Daquela Heidi. E de todos estes velhos das odemiras, nos montes, sozinhos, inconfortáveis, deixados para trás pelas suas "tribos", pelos seus "clãs", pelos "seus", estes todos amancebados nos feijós, rios de mouros e barreiros, nos seus sonhos de não sei o quê. Pois a Heidi já não mora aqui.

Eles exactamente tal e qual eu próprio, no meu Maputo, nos meus maputos. Deixando os meus mais-velhos para trás. E roubando-lhes a presença. Do sorriso da Heidi. E, até, da minha carantonha. Nos meus sonhos de não sei o quê. E degluto a aguardente.

jpt

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publicado às 18:40

O Poeta Chifrudo

por jpt, em 26.01.13

[Mbate Pedro, Minarete de Medos, Indico, 2009]

Fraco leitor de poesia diante dela sempre me deixo, humilde, com o chapéu na mão. Ainda assim atrevo-me a opinar - que há muito não me entusiasmava deste modo com um poeta moçambicano. Desde que o li que deixe um rascunho de postal para o anunciar. Mas para quê perorar sobre algo para o qual me falta a verve? Basta avisar os que ainda não entrararam no livro. Este "Minarete de Medos" é (foi, que já tem anos) um marco no panorama literário aqui, que anda, sejamos francos, um bocado monótono. E já há algum tempo.

Então combata-se a monotonia e leia-se o Mbate Pedro.

jpt

publicado às 16:57

Requiem por um artigo

por jpt, em 26.01.13

(um postal que ficou em rascunho 5 anos. Era um "requiem por um artigo" que nunca escrevi. Tornou-se assim quase um "requiem por um postal nunca publicado". Fica aqui)

No interessante livro, já antigo, Barzarketing o publicitário moçambicano Thiago Fonseca refere o desafio interessante para a sua actividade profissional - deparar-se com uma população ainda relativamente virgem de imagens audiovisuais, assim passível de uma maior atenção/apreensão aos/dos conteúdos que lhes são transmitidos (impingidos, tantas vezes direi eu).

Não se trata aqui de demonizar a publicidade - certa é a poluição sonora e visual em que resulta, seja na rua (a perfídia moderna assume contornos de painéis, que o arrivismo chama de "outdoors", - p.ex. um painel em tempos colocado ao fundo da Av. K. Kaunda, interrompendo o Índico, merecia a óbvia pena, não adquirir os produtos do anunciante), seja em nossa casa, via tv ou outros meios. Bem pior é a indução de necessidades ou valores, poluição interna (depois há os "liberais" ignorantes que acham a publicidade mera comunicação, informação neutra, mas o trálálá deles é, cada vez mais, mero lixo da moda).

A publicidade tem também coisas óptimas, não só estéticas, mas no respeitante a valores - dessacralização de símbolos, valorização do humor: num país onde o "respeitinho" é muito bonito foi interessante ver a resmunguice com o anúncio realizado com Dilon Djindji [recordo que o postal foi escrito há quase 5 anos]. A má-vontade com a publicidade (e até com o capitalismo) implica a incompreensão do humor, e até a infantilização (ou vitimização) dos ícones, como se estes incompreendessem os seus próprios actos. E, no entanto, nada mais digno do que rir-mo-nos de nós próprios (eu, quasi-ícone de mim próprio isso encenei).

Abaixo deixo alguns exemplos de publicidade (em muitos casos pintada in loco, que é uma actividade fantástica de observar) que fui encontrando ao longo do país. Encimadas pela espantosa praça da Coca-Cola na Beira, que ali encontrei já em 1998, no advento deste processo de iconização dos produtos de consumo (assim tornados substitutos dos "heróis identitários", locais ou nacionais, âncoras político-culturais).

Passados uns anos fui encontrar a praça Samsung junto ao aeroporto da Portela e logo de seguida uma praça Coca-Cola ali para os arredores de Tavira, nas minhas andanças portuguesas. A frisar que esta substituição dos marcadores identitários é bem mais global do que poderia parecer - e ainda bem que não escrevi o tal "artigo" sobre isto, pois a tese que perseguia era que este fenómeno toponómico se estabelecia mais favoravelmente num contexto de transição identitária e de formulação dos "novos heróis", no período da independência moçambicana. Como pude constatar, através desses exemplos portugueses, não podia estar mais enganado.

(pressionando as fotografias elas engrandecem)

jpt

publicado às 16:22

Ainda Filipe Branquinho em Lisboa

por jpt, em 26.01.13

abaixo referi que Filipe Branquinho expõe em Lisboa até ao próximo 23 de Fevereiro. Aqui deixo imagens da exposição que realizou na Gulbenkian, conjuntamente com Camila de Sousa, no Verão lisboeta passado. Acredito que muitos dos que então passaram pelo jardim da fundação não terão gravado na memória os nomes dos fotógrafos e por isso aqui as relembro, para chamar a atenção. Agora o Branquinho está a solo, lá para o Príncipe Real:

(Fotografia de Filipe Branquinho)

(Fotografia de Camila de Sousa)

jpt

publicado às 12:36

Cheias no Chockwé

por jpt, em 26.01.13

Chegam mais fotografias das cheias no Chockwé e da debandada, tardia, da população. Com as imagens chega também o pedido de ajuda.

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publicado às 07:38

Elis Regina

por jpt, em 26.01.13

 

Maneira de fugir à actualidade é também esta ...

 

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publicado às 06:35

40 actrizes pré-1960

por jpt, em 26.01.13

 

Neste combate ao primado da actualidade, que melhor do que estas 40 actrizes pré-1960? (Via Pedro Correia, no Delito de Opinião)

 

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publicado às 06:34

Fernando Charrua e Carlos Queiroz

por jpt, em 26.01.13
 

No consulado socratista dois casos de investida "moralizante" do poder político sobre a sociedade, formas nada esconsas de controlo político, foram os acontecimentos com Fernando Charrua e Carlos Queiroz, muito similares nos seus verdadeiros conteúdos. O primeiro, um professor colocado no ministério da Educação, foi reenviado para o seu local de origem por ter sido acusado de um impropério referindo o primeiro-ministro, dito em privado. O segundo foi atacado pelo próprio secretário de estado, pois acusado de ter praguejado quando referindo-se a um médico, na ausência deste, ainda para mais.

O tribunal decidiu agora que foi ilegal o processo imposto a Fernando Charrua. A hierarquia político-administrativa socrática nada sofre com o assunto. Nem sei se Queiroz colocou a situação no tribunal. Mas se o fez sei bem que, independentemente do que for decidido, aqueles que usaram o poder político para controlar a seu bel-prazer, nada sofrerão. E continuarão como antes. Eles e os que os tomam como modelos.

jpt

publicado às 06:15

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