Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Fátima, Futebol e Fado

por FF, em 25.02.13

É comum associarmos esta trilogia a uma estratégia ideológica do Estado Novo, no duplo sentido de, por um lado, construir um identitário nacional, por outro lado, envolver o povo português num imaginário apolitizado, obscurecedor de veleidades políticas contestatárias da ordem e da moral que se pretendia impor. Por isso mesmo, essa trilogia seria alvo de nefasta e inconsequente campanha a seguir ao 25 de Abril de 1974. No seu afã libertário, a novel intelectualidade nacional revolucionária elegeu Fátima, o Futebol e o Fado, como símbolos da portugalidade retrógrada, fascista e reacionária e, concomitantemente, como alvos da purga cultural, para o nascimento do Homem Novo português.

Contudo, ao contrário do que então se pretendia, a relação triológica persistiu. Modernizou-se, por um lado, por exemplo Fátima deixou de ser o único lugar iconoclástico da fé nacional. Globalizou-se, o futebol extravasou fronteiras e internacionalizaram os lusos. E cosmopolitizou-se, o fado deixou de representar tão somente o triste e cruel destino luso, como Rocha Peixoto tão bem caracterizou, e passou a integrar uma pluralidade de textos e contextos.

Mas a sustância que na verdade caracteriza a relação permaneceu. O Futebol enquanto locus da relação Fé-Fado/Destino. Destino trágico, mas sempre eivado da esperança ao retorno glorificador. Tal como a Saudade de Pascoaes, ao trágico do Destino cruel, junta-se a Fé do regresso às glórias do passado.

Mas uma Fé, modernizada, que já não se expressa unicamente na linguagem mariana de Fátima, mas noutras linguagens mais ecuménicas, que se realizam noutros fóruns, religiosos, ou laicos, como por exemplo em eleições. Na terra mãe, ou em qualquer lugar da diáspora, ciclicamente se renovam esperanças e se reproduzem saudades. E se regressa ao mito Sebastiânico. No verde da esperança, predomina o vermelho de dor.

publicado às 15:39

 

 

A sessão de amanhã, terça feira (26 de Fevereiro de 2013, 10 horas, anfiteatro 1502 da Faculdade de Letras e Ciências Sociais, campus universitário) dos seminários do Departamento de Arqueologia e Antropologia da Universidade Eduardo Mondlane:

 

Os Nyanja também são vientes: os desafios da presença e representação etnográfica.

 

A apresentação é do nosso Elísio Jossias, antropólogo do departamento, que está actualmente a realizar o seu trabalho de campo destinado ao seu doutoramento. E que vem apresentar o actual "estado da arte" da sua reflexão.

 

Mais do que recomendável, pelo que se trata aqui não só de uma informação. Mas também de um apelo, quase convocatória. À comunidade das ciências sociais in-Maputo. E aos interessados em geral.

 

Até amanhã. 

publicado às 13:48

Actualizações do ma-schamba

por jpt, em 25.02.13




Leitores amigos avisam-me que desde a recente transferência do ma-schamba para o contexto SAPO deixaram de receber as actualizações do blog nos seus "readers" ("favoritos"). Com efeito, e apesar dessa transferência ter mantido a mesma morada electrónica (URL) do blog, o sistema de notificações foi desactivado.


Eu não sou especialista disto e presumo que possa haver outra forma de rearranjar a situação. Mas partilho a forma que conheço de reaver as actualizações do ma-schamba, para isso convidando os leitores que incluíram (e os que poderão incluir) este blog na sua selecção pessoal (ou nas preciosas listas de blogs actualizados, que julgo ser aplicação que só existe no blogger).


Trata-se de reinscrever o ma-schamba nessas selecções usando este endereço:


http://ma-schamba.com/data/rss


E nós agradecemos a companhia.


publicado às 11:05

Como abaixo anunciei desloquei-me a Nampula para cumprir uma já antiga promessa, a de cortar cabelo e aparar barba nesta barbearia "Alvalade XXI", sita no bairro Namutequeliwa, se o Sporting eliminasse - como veio a eliminar - o arábico Manchester City. Algo que me pareceu urgentemente necessário, ainda que sendo eu um incréu, dado o aziago percurso que o amado clube tem tido desde este meu incumprimento de ajuramentado.

Acontece que desconsegui vislumbrar o prestigiado estabelecimento. Percorri o bairro, acima e abaixo, primeiro de carro, depois calcorreando ruas e ruelas, sem que encontrasse quem me pudesse aconselhar, pois nem transeuntes, nem polícias, nem comerciantes, nem mesmo os inúmeros colegas barbeiros (e salões de cabeleireiros, os quais são, como se sabe, uma "indústria de serviços" florescente) me souberam ajudar, alguns dos quais até me olhando com condoído ar, nisso aparentando suspeitar da minha saúde.

Cabisbaixei-me. Que fazer?, como diria o russo. Ir até ao afamado clube "Sporting" de Nampula não seria opção, bem central edifício que é, assim sem exigir relevante esforço para ser frequentado, e como tal não me eximindo da condição de "pagador de promessas". Para mais um "Sporting" hoje em dia mero menos-que-sofrível restaurante -  e onde os gerentes mandam acumular o lixo no interior do recinto comensal, exactamente na porta de entrada, qual comité de boas-vindas aos clientes, uma particularidade única que nunca encontrara em quase 17 anos de frequência de restaurantes moçambicanos. "Peculiares patrícios", terei eu resmungado, enquanto mastigava os catastróficos nacos de nervos pomposamente intitulados "bife importado" ... Por estas e por outras, concluí, é que o Godinho Lopes quase atirou o clube para a segunda divisão.

Bem, regresso à minha via de peregrino. Cruzado e recruzado Namutequeliwa sem atingir a "Alvalade XXI" aceitei a hipótese da barbearia ter encerrado, mudado de ramo, ter o "nosso" barbeiro partido para outras paragens. Ou ter sido trespassada, e logo repintada, como é usual no ramo, com as garridas cores encarnadas da VODACOM ou canarinhas da MCEL. Ou, mesmo, naquele recente alaranjado pouco-mecânico da vietnamita MOVITEL, bem crescente a Norte.

 

Mas vozes amigas (e contento-me por ter bons amigos naquele Norte) ajudaram-me. Que peregrinasse eu a Angoche, recomendaram. Que seria um árduo caminho, algumas vias intransitáveis, outras quase assim mesmo, que as chuvas têm devastado a terra (pouco) batida. Mas que por lá encontraria um resistente e persistente "Sporting", onde poderia eu, à falta da opção inicial, ressarcir-me do meu incumprimento, libertar-me da desonra vigente.

Assim fiz. E meti-me ao longo caminho, em prolongada agressão à espondilose. Horas passadas alcancei a belíssima Angoche, terra mais-do-que-recomendável, e tão esquecida está ela. E logo, no seu centro, encontrei este aprazível recinto, condignamente pintado.

Este mesmo, o "bar restaurante residencial Sporting", ali herdeiro, talvez avatar, de um antigo clube Sporting de Angoche (ou de António Enes, ou de Parapato, não tenho a certeza sobre o nome do velho clube desportivo). Logo entrei, feliz, dessedentando-me. Depois de algumas "Impalas", acompanhadas de resumos de futebol europeu na pequena TV sobre o balcão, um luxo para os parcos clientes, visitei as instalações.

Para aqui, tão longe dos centros mediáticos, encontrar a solução para os problemas do Sporting. Não deixei de compreender que todo este longo percurso me foi imposto, talvez pelo acaso, talvez pelo desígnio, para desvendar a situação, para poder anunciar à nossa "nação sportinguista" esta solução, a simbiose perfeita para nos alegrar o futuro e sossegar o presente, o elixir que a secular sabedoria angochiana (coti?) nos apresenta:


(para melhor compreensão)

Bastará seguir o paradigma de Angoche. Que o milagre (a ressuscitação?) acontecerá. Inevitavelmente!

publicado às 06:14


Bloguistas







Tags

Todos os Assuntos