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Vidrão. in memorium

por FF, em 27.02.13

Divorciei-me do Vidrão há uns anos. Não foi uma separação, foi mesmo um divórcio, legal, de papel passado e tudo. Decisão unilateral. Foi cobardia, reconheço-o. A idade permite-nos essa clarividência de atitudes. Mas na altura pareceu-me o desenlace lógico de uma relação que se tinha complicado nos últimos tempos. Mas foi cobardia. O Vidrão estava doente. Não de uma doença mortal, afinal de contas era apenas da bomba central de travões. Mas estava doente, paralizado, e indefeso. Não tinha segurança social, nem cartão da médis. E a operação era muito onerosa, no total mais de cinco centenas de euros. E nesse ano, que ainda ia a meio, já tinha tido outras enfermidades. Problemas nas articulações, pois fracturou o semi-eixo traseiro, e gases intestinais, pois emitia CO2 mais do que o permitido. Foi uma trabalheira levá-lo ao hospital em cada uma. E um gasto exorbitante. De cada vez tinha que protelar por mais tempo o internamento. Desta não podia mesmo. A minha situação civil de “cidadão com plafond de crédito esgotado” já nem se podia deteriorar mais, como bem se orgulhavam de me dizer os anõezinhos dos multibancos, “dirige-te a outro multibanco, ehehehe”, “operação cancelada, dirija-se ao seu banco, eheheheh”. E decidi. Como uma proposta indecente, entreguei-o, mesmo enfermo a um qualquer Redford. Por dinheiro. Cobardia. E injustiça. Tanto que ele se fartou de trabalhar para mim, de me acompanhar pelos caminhos mais vis que lhe impunha. Coitado, bastas vezes adoeceu, sobretudo das articulações. Mas sempre corajoso, e em 15 anos de relação nunca me pediu um par de sapatos, andou sempre com os mesmos, e diferentes do supletente, que ainda por cima estava roto.

Hoje sinto saudades. Saudades daquele roncar ruidoso. Saudades do apetite voraz que tinha. Da rigidez do seu comportamento. Mas também do modo orgulhoso como afrontava rotundas e cruzamentos, sempre altaneiro dos seus direitos.

Tenho saudades e remorsos. A ilusão do dinheiro fácil rapidamente se esfumou e, hoje, de regresso ao mesmo estado civil de “cidadão com plafond de crédito esgotado”, já nem a sua companhia me mitiga em tristes passeios. Contento-me com a RN. In memorium Vidrão.

publicado às 17:00

Politeísmo (5): Pérola

por FF, em 27.02.13

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publicado às 15:26
modificado por jpt a 7/9/13 às 14:26


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