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AL

publicado às 17:26
modificado por jpt a 7/9/13 às 14:17

Por definição, que me apraz sobejamente, o ma-schamba despreza os dias internacionais e mundiais 'disto e daquilo' e só muito pontualmente assinala este tipo de efemérides.

Hoje, dia 27 de Março de 2013, comemora-se uma vez mais o Dia Mundial do Teatro.

Seja por questões emocionais - o teatro é a minha paixão primeira - seja porque é num teatro que a minha actividade laboral se desenrola, ou seja ainda porque uma das mais importantes manifestações deste dia é a difusão da Mensagem Internacional, escrita tradicionalmente por uma personalidade de dimensão mundial convidada pelo Instituto Internacional do Teatro para partilhar as suas reflexões sobre temas de teatro e paz entre os povos e lida perante milhares de espectadores antes dos espetáculos nos teatros do mundo inteiro, hoje é a minha vez de praticar a excepção à regra.

 

 

Este ano a mensagem foi solicitada ao italiano Dario Fo. Nascido em 1926, Dario Fo é actor, dramaturgo, director, cenógrafo, activista político e Prémio Nobel da Literatura em 1997. O seu contributo, sempre irónico, reza assim:

 

"Já faz muito tempo que a forma de resolver o problema da intolerância para com os comediantes era expulsá-los do país. Hoje, os atores e as companhias de teatro têm dificuldades em encontrar teatros, praças públicas e espectadores, tudo por causa da crise.

Os governantes, portanto, não estão mais preocupados com os problemas de controlo sobre aqueles que se expressam com ironia e sarcasmo, já que não há lugar para atores, nem existe um público para assistir.

Ao contrário, durante o período do Renascimento, na Itália, os que estavam no poder tinham que fazer um esforço significativo para manter em seus territórios os Commedianti, uma vez que estes desfrutavam de um grande público.

É sabido que o grande êxodo de artistas da Commedia dell'Arte aconteceu no século da Contra-Reforma, que decretou o desmantelamento de todos os espaços do teatro, especialmente em Roma, onde foram acusados de ofender a cidade santa. Em 1697, o Papa Inocêncio XII, sob a pressão de insistentes pedidos do lado mais conservador da burguesia e dos expoentes do clero, ordenou a demolição do Teatro Tordinona, em cujo palco, segundo os moralistas, tinha encenado o maior número de performances obscenas.

Na época da Contra-Reforma, o cardeal Carlo Borromeo, que era ativo no Norte de Itália, havia se comprometido com o resgate dos "filhos de Milão", estabelecendo uma clara distinção entre a arte - como a mais alta forma de educação espiritual, e o teatro - a manifestação de palavrões e de vaidade. Em uma carta dirigida aos seus colaboradores, que eu cito de improviso, ele se expressa mais ou menos da seguinte forma: '(...) em relação à erradicação da erva do mal, fizemos o nosso melhor para queimar textos que continham discursos infames, para erradicá-los da memória dos homens, e, ao mesmo tempo, a processar também aqueles que divulgaram tais textos impressos. Evidentemente, no entanto, enquanto estávamos dormindo, o diabo trabalhou com astúcia renovada. Como penetra na alma mais do que o que os olhos vêem, o que você pode ler nos livros desse tipo! Assim como a palavra falada e o gesto apropriado são muito mais devastadores para as mentes dos adolescentes e jovens do que uma palavra morta impressas em livros. É, portanto, urgente livrar nossas cidades de fabricantes de teatro, como fazemos com as almas indesejadas.'.

Então, a única solução para a crise está na esperança que uma grande "expulsão" seja organizada contra nós e, especialmente, contra os jovens que desejam aprender a arte do teatro: a diáspora nova de comediantes, de fabricantes de teatro, que, certamente, a partir de tal imposição, terão benefícios inimagináveis para uma nova representação."

Dario Fo

 

(a tradução apresentada acima é a versão brasileira, bastante mais fidedigna do ponto de vista formal)

 

VA

publicado às 16:59

Politeísmo (26): Huracan

por jpt, em 27.03.13

publicado às 16:18


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