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Engate

por AL, em 06.04.13

Isso não é para mim, era o que eu sempre dizia, gosto deles nervosos, sensíveis, com reacção fácil ao toque. Gosto de ser eu a dar o comando de avanço ou de brandeio; de decidir em cada etapa o que se requer. Ter aquele prazer... Molengas não é comigo. Até que um dia me caíu um nas mãos. Não era o ideal, pensei eu, mas quando a necessidade é muita não se olha ao que o destino nos aventa. Bastou um dia e rendi-me. Foi amor ao primeiro toque: o conforto, a facilidade, como se sempre tivéssemos sido – eu e ele – um só. Revelou-se uma surpresa pela resposta fácil e por deixar que fosse eu a continuar no comando. De molengas nada tinha; o prazer era exactamente o mesmo. Melhor até pelo conforto que ele me dava. Sonho agora com um, um carro de caixa automática.

AL

publicado às 12:13
modificado por jpt às 16:53

Fernando Couto

por jpt, em 06.04.13

 

Morreu há poucos meses o poeta Fernando Couto. Trouxe-o para a minha mesa de cabeceira, através da antologia dos seus poemas, "Rumor de Água" (Ndjira, 2007), que junta os seus iniciais livros "Poemas Junto à Fronteira" (1959), "Jangada do Inconformismo" (1962), "Amor Diurno" (1962), "Feições para um Retrato" (1971) com os mais recentes "Monódia" (1996) e "Olhos Deslumbrados" (2001), sendo que eu lhe conhecera a obra através destes dois últimos. A tudo isto juntou dois inéditos.

 

Reproduzo dois dos seus poemas iniciais (do primeiro livro "Poemas Junto à Fronteira"). E aconselho o passeio pelo volume.

 

 

Canções Funambulescas

 

Nº 3

 

Ao sabor das águas flutuam os juncos:

os mandarins estranhos e reais como algas distantes

não sabem dos homens que morreram afogados

nem dão conta dos dias e das noites

negam-se às notícias dos infortúnios

em êxtase vendo as Salomés dançar

recusam-se ao clamor da ira fermentando

nos homens das margens pedindo estrelas e pão

       nos dias de tédio fazem vir a cabeça dum profeta

       masturbam-se com discursos sobre a ordem

       e procuram saber se o anjo terá os seios túrgidos

acariciam os mastins vigilantes

e desesperam em vão de não terem tapetes de sonhos

tentando apagar dos livros as histórias de naufrágios ...

 

 

***

 

Passagem da Fronteira

Ou exortação a Hamlet

 

Alto vai o cheiro a podre

no reino da Dinamarca.

Mataram o velho rei

e é perdido o tempo de carpir.

Ei-la urgente toda imperiosa

a hora terrível da decisão.

E nem sequer se pode pensar

no aliciante do não-ser:

não faz ninho a cobardia

nos jovens corações.

Com a lucidez de quem inteiro avista

o escabroso caminho além,

afastada por agora a dúvida,

vamos, Hamlet, para a decisão de ser

afrontar os riscos.

E o resto não será silêncio.

publicado às 08:32


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