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O mundo tal como vai

por jpt, em 16.04.13

 (busto de Voltaire)

 

 Em "O Mundo tal como vai" Voltaire conta-nos que Ituriel é "um dos génios que presidem aos impérios do mundo", tendo a tutela do "departamento da Ásia". Certo dia convoca o cita Babouc, e envia-o a Persepólis, capital da Pérsia, com o encargo de relatar detalhadamente o que lá encontrará, pois na última assembleia dos génios da Alta Ásia houve discussão sobre o destino a dar a esse reino, fartos que estão das "loucuras e dos excessos dos Persas". Estão os génios na dúvida, ou corrigi-la ou exterminá-la.

Lá foi Babouc, encontrando por lá do pior, do mais imoral e corrupto. Mas não só. Após algum tempo chegou o momento de terminar a sua missão: "Afeiçoara-se à cidade, onde o povo era educado, doce e benfazejo, embora imprudente, maldizente e cheio de presunção. Temia que Persepólis fosse condenada; temia o relato que iria entregar. Eis o que fez para apresentar de modo favorável essa descrição. Encomendou aos melhores profissionais de fundição da cidade uma pequena estátua composta de todos os metais, das terras e das pedras mais preciosas e mais vis e levou-a a Ituriel:

-Despedaçareis esta bonita estátua - perguntou Babouc - só porque não é toda de ouro e diamantes?

Para bom entendedor, meia palavra basta, e Ituriel resolveu nem sequer pensar em corrigir Persepólis e deixar andar o mundo tal como vai.

- Porque - disse - se nem tudo está bem tudo é admissível."

publicado às 20:30

Homens e deus(es)

por jpt, em 16.04.13

 (Zeus)

 

Dado que à minha filha foi comandado que lesse o "Ulisses" de Maria Alberta Menéres (e eu continuo com muitas dúvidas sobre se estas "adaptações" para infantes não serão prejudiciais) pus-me a reler a "Odisseia". Para logo ao abri-la poder partilhar (por cima da "adaptação") isto, que está no âmago de tudo o que entre nós anda, e que deveria estar na mente de todos, e ainda mais nas dos tais "infanto-juvenis":

 

"Mas para longe se afastara Posídon, para junto dos Etíopes,

desse Etíopes divididos, mais remotos dentre os homens;

uns encontram-se onde nasce, outros onde se pôs o Sol.

Para lá se afastara Posídon, para deles receber

uma hecatombe de carneiros e touros;

e aí se deleitou no festim. Quanto aos outros deuses,

no palácio de Zeus Olímpio se encontravam reunidos.

E o primeiro a falar o pai dos homens e dos deuses [Zeus],

Pois ao coração lhe vinha a memória do irrepreensível Egisto,

a quem assassinara Orestes, filho de Agamémmnon.

A pensar nele se dirigiu assim aos outros imortais:


"Vede bem como os mortais acusam os deuses!

De nós (dizem) provêm as desgraças, quando são eles,

pela sua loucura, que sofrem mais do que deviam!

Como agora Egisto, além do que lhe era permitido,

do Atrida desposou a mulher, matando Agamémnon

à sua chegada, sabendo bem da íngreme desgraça -

pois lha tínhamos predito ao mandarmos

Hermes, o vigilante Matador de Argos:

que não matasse Agamémnon nem lhe tirasse a esposa,

pois pela mão de Orestes chegaria a vingança do Atrida,

quando atingisse a idade adulta e saudades da terra sentisse.

Assim lhe falou Hermes, mas seus bons conselhos o espírito

de Egisto não convenceram. Agora pagou tudo de uma vez."

publicado às 20:27

Balada da Ameixa Seca

por jpt, em 16.04.13



Balada da Ameixa Seca

 

Vai à mercearia e compra ameixa seca,

P'ra o intestino a ameixa é levada da breca!

 

O mal do Ocidente - quem há que não o sinta? -

é não ter a tripa sempre limpa.

 

Com seus altos valores, o Ocidente

dá por demais ao dente, dá por demais ao dente.

 

Põe-me os olhos nos povos que só comem arroz:

dão melhores guerrilheiros do que nós.

 

Um saquitel de arroz, uma biciclet',

arma na bandoleira - e lá vai o viet.

 

"Noss'povo" ao contrário, como o que apanha à mão.

Até parece fome de muita geração!

 

E larga, já comido, o corpo em qualquer canto.

Sonha Terceiro Mundo e é Europa, entretanto.

 

Encostado ao sobreiro ou ao ficheiro,

"Noss'povo" já nada tem de marinheiro.

 

Sua tripa, represa, é trabalhosa.

Sua prosápia já só é má prosa.

 

Portugal-do-casqueiro à Europa-das-latas

manda cortiça, vinho, diplomatas.

 

Espera contrapartidas: sol-e-vistas

é cartaz que atrai muitos turistas.

 

Mas com a ameixa seca - coisa pouca! - 

é que pode acordar sem amargos de boca.

 

Vai à mercearia e compra ameixa seca.

P'ra o intestino a ameixa é levada da breca!

 

(Alexandre O'Neill)

publicado às 20:24

Uma machila

por jpt, em 16.04.13

 

Um pequeno livro de gravuras da Madeira, sem textos, que vem das gavetas da minha família matrilinear, aquisição aparentemente de Agosto de 1908, assim anotado (a lápis) no livro. Vistas de Câmara de Lobos, Funchal visto do mar, a sua baía vista do ocidente e do oriente, aquele anfiteatro ainda despojado da construção que vim a conhecer 70 e tal anos depois, os postais da cidade, (jardins públicos, com flora frondosa, os edifícios administrativos e uma "catedral" pouco monumental, o forte, o carro de bois, o funicular, o "Monte Palace Hotel", presumo que então o Hotel Polana lá do sítio). E esta "machila", que daria para um texto sobre os símbolos do colonialismo e de como essa iconografia foi construída, parcelando com bisturis historiográficos o real tão mais complexo e significante do que o que conseguimos referir.

publicado às 20:21

Voltaire e as belas artes

por jpt, em 16.04.13

 

"De qualquer das formas, a sífilis assemelha-se às belas artes: não há como saber quem a inventou; todavia, com o tempo, deram a volta à Europa, à Ásia, à África e à América" (109, "Os ouvidos do conde de Chesterfield e o capelão Goudman")

publicado às 20:20

Politeísmo (35): Hades

por jpt, em 16.04.13

publicado às 20:19

Os animais são nossos amigos

por AL, em 16.04.13

Não vai ser fácil, mas veja o que consegue fazer, foi a frase final do briefing feito pelo director de um projecto de uma reserva natural que lutava com o reassentamento de populações. A minha tarefa era tentar explicar a importância das ciências sociais a biólogos, veterinários e ambientalistas. São pessoas que passam o dia a contar bactérias, plantas e animais, tinha-me ele já dito no início da conversa, gente que enumera e conta aquilo que vê; que lida com números, vectores e quantidades. Não percebem muito bem o que são intangíveis, aquilo que vocês fazem. Nem eu!, calei eu para mim. Matutei e lembrei-me de um episódio vivido há uns anos e que seria uma boa bofetada de introdução. Perdão, uma boa ilustração introdutória. E foi assim que comecei a minha palestra:

 

Era já o fim do dia quando regressei à pequena comunidade que generosamente me tinha cedido uma palhota para eu aí abrir a minha tenda. Aguardava-me a senhora dona do terreiro da palhota e duas amigas, em franca cavaqueira e risos mais ou menos controlados. Não tardei a perceber que me esperavam; tinham coisas que contar. “Hoje tivemos visita”, respondem ao meu como foi o dia?. “Colegas teus, duma ó-ene-gê”, soletraram com olhares de soslaio e um brilho de riso e ironia nos olhos. Colegas meus?, quase me assusto eu, que ali me cria sozinha. “Sim, mas doutras coisas; diz que é do ambiente” (risos e mais olhares de soslaio). E foi engraçado?, pergunto eu perante tanto riso mal contido. “Disseram que a natureza era nossa amiga”, rematam elas num riso agora descontrolado em palmadas nas pernas.

Fico perplexa e só me sai um “e não é?”. “Ana”, em tom censurado, “mas então tu não vives aqui connosco? Não vês como de manhã temos tudo para sacudir? Que tem lagarto, escorpião, carraça, rato, pulga, aranha que morde... Que passamos o dia a varrer e a capinar para a cobra não vir morar com a gente? Que vamos ao rio com medo? Que tem crocodilo, que tem hipopótamo? Até a terra tem matacanha. Onde está a natureza dessa amizade que vieram aqui falar? Que esta, a nossa, a gente anda sempre a enxotar para fora da nossa casa!”

Mas, perplexo-me ainda eu a tentar acertar os meus carretos, a vossa natureza também tem fruto, tem lenha, tem água, tem sombra... Não acham que vos dá coisas e deve ser acarinhada? Vocês precisam de lenha para cozinhar mas se começarem a tirar muita, cada dia têm que ir mais longe pois há menos mato... “E não vamos melhor? Que mal tem menos mato? Fica o caminho mais andamoso e vamos mais seguras. Se andam homens por aí, não têm onde se esconder e é mais fácil fugirmos”.

Insisto, enveredando pelo divino. Não é aí que se fazem rituais? Que comunicam com os ancestrais? Onde vão buscar frutos que fermentam em bebidas sagradas? E raízes e plantas que curam? Não foram vocês que me contaram das rezas que vão fazer a um sítio no mato para terem filhos macho?

Concedem-me um sim hesitante, a contragosto e sem grande entusiasmo, que contrapõem ao contarem-me também do medo que tiveram na guerra por terem que dormir no mato, reino de espíritos e feras; dos abrigos subterrâneos onde se poluíam com as almas dos mortos; das feridas e dores que as diversas picadas provocam; das malárias recorrentes; das galinhas a custo alimentadas que viram desaparecer de noite; dos ratos que até as roupas lhes roem; das culturas arruinadas pela “vida selvagem”; da água que mata a sede e, por vezes, a vida; do assédio constante de uma natureza sentida hostil.

 

Terminada a história tenho perante mim uma sala de cientistas naturais em estado de choque, visivelmente atordoados, onde só os (poucos) africanos presentes sorriam e concordavam em leves acenos de sim. Tendo-lhes arrestado a atenção, o resto da palestra foi fácil. Terminei com a história da sereia, com foto da mesma em destaque. Depois vieram perguntar por mim, mas eu disse que não. Sugeri que incluíssem nas suas equipas cientistas sociais do país onde se projectava a reserva natural. E eles disseram que sim. Acho que levei a nova a bom porto. Insh-Allah!

AL

publicado às 17:52


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