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Onomatopeias

por jpt, em 30.06.13

 

Paulo Pinto Mascarenhas, bloguista e animador de blogs, diz e parece-me que acerta, que "o Facebook e o Twitter já quase mataram os blogues". Elísio Macamo, que foi bloguista, usa o Facebook para deixar textos sobre Moçambique, e nisso provoca debate. São textos para aí com 2 páginas A4, coisa de 5000 caracteres (meia página de jornal, mais ou menos). E alguns leitores queixam-se, resmungam, que os seus textos são longos, cansam-se. Porfírio Silva, que é bloguista, sente-se solidário e aconselha aos que no Facebook escrevem textos longos a que "façam parágrafos, coloquem linhas de intervalo. Ajuda a leitura. E, por essa via, a compreensão.".


Não venho com a ideia de que nos blogs habita (habitou) a virtude. Houve de tudo, mas o mais interessante é que há (ou houve) palavra pública livre, nisso expressando as reflexões possíveis a cada um de nós. Pego nestes três exemplos que denotam como ela agora se constrange, amarfanhada nos contextos dominantes. Na vertigem do clic-clic/scroll down os leitores impacientam-se com os textos "longos" que na realidade são curtos. E naqueles recantos, ditos "estados", entre o espaço acabrunhado e o número limite de caracteres, nem sequer os que escrevem um pouquito o fazem (ou sabem fazer) de modo legível, iletram-se.


As "redes sociais" são instrumento de mobilização? Sim, como (re)mostra o actual caso brasileiro. Mas há mais. Nelas reina o mero meme? Sim, mas não só.  Também, e principalmente nas questões políticas, o texto curtíssimo vence, em meras invectivas, aquilo que dantes se chamavam "bocas". Alguns jornalistas (alguns destes meus conhecidos, amigos), até (ex?)bloguistas, mas não só, são nisso expoentes, coleccionam os "gostos", e até as "partilhas", que são caixas de ressonância - quanto mais "likes" recolhem, mais "tocados" são, mais difundidos surgem.

 

É o reino da onomatopeia intelectual. Cada vez mais pobre. Cada vez mais sonoro. "Participado", acham.

publicado às 00:53

Acontecendo em Moçambique

por jpt, em 28.06.13

[Grant Neuenburg]

 

Nos últimos dias recebi várias mensagens, de amigos, de leitores do ma-schamba, até de co-bloguistas, incentivando-me a usar o ma-schamba para informar sobre os acontecimentos que vêm decorrendo em Moçambique. Algumas provenientes de vizinhos, enredados, como eu, nesta angustiada teia de incertezas, temores pelo futuro do (seu) país. Muitas outras vindas de Portugal, de onde me dizem não haver muita informação sobre o que aqui se passa ("só se liga à Turquia e ao Brasil", dizem alguns, "só se fala na crise", apontaram outros). Lamento desiludir mas "não posso mentir" - esta bela expressão usual no português de Moçambique -: não possuo quaisquer informações suplementares nem tampouco alguma consideração analítica (e muito menos se explicativa) para partilhar. Talvez apenas algum cuidado suplementar, o de não acreditar em todas as notícias (e mais ainda nas FB-"notícias") que vão fluindo.

 

Recordo que não sou jornalista nem nunca entendi o bloguismo como um sucedâneo da imprensa (e continuo sem perceber porque me mandam convites e comunicados de imprensa). Blog é(-me) diário. Não intimista, mas ainda assim diário. Mais ainda, não sou, como bloguista, um "moçambicanólogo". Nem profissionalmente o sou - e menosprezo, por razões epistemológicas, antropólogos (e doutras ciências sociais) que gingam essa condição, "anunciada na TV" como se apresentavam os produtos rascas há algumas décadas.

 

Ou seja, o que está a acontecer em Moçambique? Houve conflitos no centro do país, tem havido alguns ataques na estrada nessa região, onde se circula em coluna. Falta informação substantiva na capital.  Mal-estar expresso nas conversas. Afirmação constante de teorias da conspiração ("nada é o que parece ser"), que surgem "virais", como se diz agora . 

 

E que  mais acontece no país? Noel Langa expõe na Associação Moçambicana de Fotografia, em dueto com Filomena Gaspar. Mas o mais-velho deveria ter feito uma individual, tem material para isso, sempre no seu figurativo mágico, ternurento e sereno, o "noelismo" que lhe é próprio. No contexto da sua obra tem algumas obras de referência ("O Amigão", como ele o é, "Fruta de Vida", um elogio do caju que eu gostaria de levar para casa, "Caminho Longo I", entre outras).

 

 [Grant Neuenburg]

 

Desde há dias que Grant Neuenburg tem a sua individual "Xilunguini" exposta na Kulungwana (a galeria na estação dos CFM), fotografia abstracta, trechos murais, de naturezas mortas e desvalidos cascos de navios, que surgem inovadores na fotografia em Moçambique e que são um delicioso momento de elogio do belo, da sua produção, acima de tudo pela inteligente produção do paradoxo, um quase-manifesto, na manipulação do real para o elevar a essa condição.

 

Em ambas as exposições, mas mais ainda na do Grant, pelo seu inusitado aqui, entrevemos o caminho necessário. Sempre, agora ainda mais ao país. O de tornar o real, tal qual ele é, nosso. Não utopizando-o, não apenas reflectindo-o. Refractando-o. Pela inteligência e com o talento possível a cada um. Por isso tão necessário é avançar, agora, até à Associação Moçambicana de Fotografia e até à Kulungwana. Crer.

 

 

publicado às 16:02

Politeísmo (45): naquele tempo

por jpt, em 27.06.13

publicado às 20:30

 

Mandaram o tipo à África do Sul, é jornalista. À porta do hospital onde Mandela agoniza diz o tal jornalista português que se coloca a possibilidade de se terminar o apoio artificial, tecnológico, à vida do velho líder. Mas tomar essa decisão enfrenta um problema, diz-nos, com ar semi-pesaroso semi-analítico. E explicita o tal problema, como se pedindo a nossa compreensão para aquele peculiar contexto cultural, quiçá muito africano: é que na "tribo" de Mandela só se pode fazer isso, cessar o apoio artificial à sobrevivência, a pedido do próprio. Ora como Mandela está (já) impedido de o fazer só resta uma solução. Que a família tome essa decisão.

 

Ocorre-me que na minha "tribo" também é assim.

 

Não sei quais serão as regras, morais e legais, para estes casos lá na "tribo" do energúmeno jornalista. Nem os da "tribo" (selvagem, canibal, ágrafa decerto) dos seus  espectadores, consumidores dos seus anunciantes.

 

Que "tribo" de gente.

publicado às 21:22

“Now is the time”

por jpt, em 25.06.13

 

(Um texto antigo, de memórias ainda mais antigas. Para este tão especial 25 de Junho. E minha memória de Nelson Mandela, Homem entre os homens. Tem sido bom viver enquanto ele.)

 

 

 “Now is the time”

 

Vi Mandela num comício em Aliwal North, 400 kms distante de onde nos haviam colocado, aquela East London, pequena cidade portuária de boas praias, capital daquele troço de bela terra de brancos encaixado entre os bantustões Ciskei e Transkei, esses planaltos e serras bem mais pedregosos, então destinados, naquele país louco, aos negros, os “originários”, viria eu a aprender depois, noutro local, os “kaffirs” como então já poucos diziam. Era o tempo do “Now is the time”, o até-que-enfim final daquilo, um maldito aquilo. E pairávamos sob o sentimento de estarmos na História, uma alegria contagiante, generalizada, mesmo esfuziante, aliviada do passado, esperançosa do futuro. Também mesclada, e mais até nas pequenas vilas rurais, com a angústia dos alguns que viam acabar o seu pequeno, mesquinho e irrazoável mundo.

 

Naquela missão eleitoral emparelhei com o D., um francês da minha idade, já calejado, vindo directo de anos com a Cruz Vermelha na guerra dos Balcãs. Como éramos os mais novos da equipa, impacientes e com a volúpia de conhecer, enquanto os restantes se deixaram na modorra citadina ficámos nós a acompanhar as actividades políticas no Ciskei e no sul do Transkei, e ainda nas paupérrimas townships vizinhas, enormes antros de miséria que nem no mapa vinham, e algumas das quais carregavam nomes como Frankfurt, Hamburgo ou Berlim, o absurdo extremo, um sarcasmo toponímico. Uma área enorme a cobrir, uma agenda diária frenética.

 

Valeu-nos que havia um acordo implícito com a polícia, na estrada a velocidade dos observadores era irrestrita. E assim vogávamos entre locais, no afã de a todos chegarmos. Eu carregava bastante e o D. ainda era mais louco (lembro-me de adormecer a seu lado a mais de 180 kms por hora. Naquele pequenino VW Citi 1800 que maior prova de confiança se pode pedir a alguém?). Assim trepidante foi a nossa vida nesses três meses.

 

Foi um verdadeiro mergulho no país, tão diferenciado, complexo, ele era, inebriante que estava. E com vislumbres dos seus líderes. No primeiro domingo em East London coube-nos um jantar no very british Rotary Club, com Thabo Mbeki. Suave, dulcíssimo, ali para deixar aos comensais o recado, que se veio a concretizar, do “business as usual”. E logo no dia seguinte um comício nos arredores, um estádio de futebol cheio para ouvir Ramaphosa, então líder da Cosatu (a central sindical do ANC). Radical, um orador implacável – quem diria então que poucos anos depois seria um dos maiores bilionários do país, até dono de ilhas paradisíacas em Moçambique? -  prometendo “casas, trabalho e escolas para todos, já”, algo que, e bastava olhar em volta, era mais do que justo e necessário. Só nos custava, franzir de experiência feito, aquele “já” tão repetido. Mas tão ansiado por quem ouvia – e foi a primeira vez que vi brancos, poucos, meia dúzia de operários, naquele toyi-toyi que tanto assustava outros e tantos, os estabelecidos. Class rules, disse eu para o lado, mas não era bem verdade. Enfim, na época ainda se discutia qual dos dois seria o vice do Mandela, e seu sucessor, e ficámos espantados com tamanha diferença entre ambos.

 

E outros também. Várias sessões com Winnie, então já separada mas ainda mulher do Madiba. Assim vista ao vivo era uma mulher impressionante, lindíssima na sua já idade, um carisma imponente. Se o discurso era radical - quase quase como o daqueles comícios do PAC (Congresso Pan-Africano), então ainda fiéis ao desejo de uma Azânia sob o lema do “one settler, one bullet”, de cujas sessões foram as únicas das quais nos escapulimos, num “não vale a pena”, tão mal recebidos éramos -, bem interessante era ver o número e a postura das tantas mulheres que sempre a rodeavam e acolhiam, nas cidades ou nas pequenas aldeias: gender issues, imensos, os que lhe alimentavam a liderança, uma bandeira própria. E Holomisa, o grande sobrevivente da política sul-africana, que de presidente do Transkei a dissidente do ANC ainda por lá anda. Simpático, a acolher-nos numa montanhosa aldeola. E, subtil, a rodear-nos pelos seus guarda-costas, não nos fosse acontecer algo. Estes, putos, verdadeiros putos, a confundir-nos, vendo-nos com uniforme, logo a mostrarem-nos as armas, à vez, decerto que novas, delas falando, com elas rindo, como se brinquedos recém-recebidos. Nessa sua alegria a desmontarem qualquer cenário de perigo, como os dois bem percebemos. Mas também a transmitirem um tom algo surreal a tudo aquilo. Para mais tendo nós acabados de cair no golpe que derrubou Gkozo, o muito menos hábil presidente do Ciskei, um dia único, rijo, memória por si só, para mais tarde …

 

Um dia ao rossio de King William’s Town veio FW. Chegámos tarde, atrasados por uma outra qualquer acção. Ali encontrámos uma grossa confusão, a praça quadrada cercada com gente até às entradas, uma contra-manifestação ANC, algo que violava o acordo entre partidos, feito para evitar violências. E isto logo pouco tempo depois da mortandade no Bophuthatswana, que começara numa coisa similar. Ficámos os dois estupefactos, lá estavam os nossos colegas EU e tantos outros observadores, atraídos pela visita de De Klerk. Mas estavam saudando os contra-manifestantes, até com “Vs” a la Churchill, com eles aplaudindo, enfileirados, manifestando-se. “Estes gajos são iguais em todo o mundo” terei resmungado no meu francês de então, já desprezando a esquerdalhada inconsequente. Depois fomos lá para o meio, onde mil apoiantes do Partido Nacional, se tanto, brancos, claro, rodeavam o seu líder. Tensos, assustados, angustiados (“a provarem do que fizeram durante décadas”, terei eu usado de novo o meu francês), convictos que aquele cordão policial não lhes protegeria o futuro. Lá nos pusemos perto do palanque, “showing the flag” (melhor dizendo, “showing the caps”), que era para isso que lá estávamos e nos pagavam. Pouco depois FW acabou a arenga, curta, nervosa, naquele contexto, e avançou. Viu-nos, parou e inverteu o caminho para nos cumprimentar, às estrelas em fundo azul da União Europeia. Naquela época o homem era um símbolo também. Para mim um Gorbatchev, até fisicamente parecido, um líder com a coragem de acabar uma tralha enorme e desprezível, a do seu povo. Nisso e por isso um tipo admirável, e foi o que lhe quis expressar naquele aperto de mão, na resposta ao seu agradecimento. Afinal ainda puto, também tenso naquilo tudo, engasguei-me e saiu-me apenas um estuporado “God bless you, sir”. Horas depois, já de cervejas na mão, ressacando um dia intenso, e sabendo-me todo ateu, o D. ria-se, desbragado, daquela minha tirada. “Estava a falar com um boer, pá”, defendia-me eu, acabrunhado, enquanto percorria o meu parco calão francês. O que fui ali gozado. Com alguma razão. Mas não toda.

 

 

 

  

Num desses dias veio nova tarefa. O comício perto de Aliwal North com Mandela, convocado para as 8 da manhã. Mandela é dali, nasceu um pouco mais a norte, no Transkei, mas a sua língua mãe é Xhosa, a língua local. Tornando ainda mais interessante, se tal possível, acompanhá-lo na região, entre a sua gente, se quisermos falar assim, o que vale o que vale, que nunca fez ele alarde de algum xhosismo. Mas ainda assim foi também por isso que lá fomos, tão exultantes, saímos na alvorada, naquele habitual “pata a fundo” para chegar à hora marcada. Para encontrar um estádio de futebol já apinhado, bancadas e relvado, e mais houvesse ... Ali tudo madrugara, para acolher o Madiba. Foram horas na expectativa da sua chegada, era a campanha e decerto que o líder tinha várias sessões no caminho. E nessa espera ali ocorreu festa constante, cânticos múltiplos, grupos corais, das igrejas alguns, outros mais ou menos espontâneos, um corrupio de gente feliz. Nós, estrangeiros, constantemente interpelados, saudados, numa comunhão festiva. Mais espantoso ainda, não havia qualquer produção, nem discursos, nem animadores, nem espectáculos musicais, isso dos profissionais para alegrar ou apenas aquecer o “povo”, como é tão costume pelo mundo todo. Apenas a população esperando o seu candidato, o seu líder, até que enfim, e em festa por isso. Era a minha primeira vez em África, ainda desabituado de muitas coisas, inesperando tantas outras. E toda aquela agitação, superlativa, todo aquele som e cor me deixou fascinado, mesmo que sempre na disciplina do anti-exótico.

 

 

Finalmente, já bem pela tarde dentro, às 4 horas, chegou a caravana. Foi o delírio, mas não aquele delírio do êxtase, espumado, frenético, sim o da alegria, o de receber e partilhar, um cúmulo de comunhão, um “estar juntos” como se disse depois. Quando soou que aí vinha deixei-me de neutralidades, também eu corri, atravessando o estádio, para o receber, a coisa do uniforme fez-me chegar até perto, nisso em definitivo perdendo de vista o tradutor. Mandela apareceu, aquele ar de falso frágil, o sorriso quase enigmático e que nunca consegui definir melhor do que chamando-lhe maroto. Na felicidade alegre do tal “até-que-enfim”, digo, o “Now is the time”, palavra de ordem de então. A população delirante e eu, nós, quase tanto, qual de nós, observadores – e tantos eram, dezenas, chegados nas últimas horas, quantas ongs andavam naquilo … -, não era de Madiba?

 

Mandela cruzou-nos e subiu ao palco, uma apoteose. Junto do seu povo, que o era a maioria do país, mas mais ainda ali, terra de Xhosas, que enchiam aquele terreno, pensei. E discursou. Logo, de imediato, arrepiando-me, verdadeira “pele de galinha” – e ainda hoje, ao escrever isto me acontece. Pois falando em africânder. Ali mesmo, no seu espaço natal, falando “a língua do inimigo”. Foi breve. E no fim pediu desculpa, já em inglês, e disse que queria fazer um resumo, pois ali estavam, estávamos, muitos “amigos estrangeiros”. E disse-nos, a todos os outros repetindo, que ali, África do Sul, era, já era, ia ser, a nação “arco-íris”, a “rainbow nation”. E partiu, para este nosso futuro.

 

Um “healer”, curandeiro laico, sarando o passado, prevenindo o futuro, minha tese que foi parte da conversa no longo regresso desse dia, lento pois comovido. “Amandla” para homens assim. Com a enorme grandeza da generosidade. De fazer futuros.

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 16:07

38 anos

por AL, em 25.06.13

Foi aos 38 anos que virei a minha vida do avesso. Carreguei o meu passado – escovei o menos bom e dei brilho ao melhor. Olho agora para trás com alegria, contente com os passos que dei.

Moçambique independente faz hoje 38 anos. Infância conturbada, adolescência difícil. Que a idade adulta lhe traga a maturidade e a serenidade que hoje me animam nos altos e baixos de uma vida cheia.

Danço pois com uma velha amiga (aqui na cooperativa já repetente) e encerro o aniversário com um desejo.

AL

publicado às 10:29

Sopros de guerrilha

por jpt, em 20.06.13

 

(Postal escrito ontem para o Delito de Opinião)

 

(Ante)Ontem forças da Renamo atacaram na estrada de Inhaminga, a via Beira-Quelimane, na província de Sofala, que ladeia a floresta e uma linha rodoviária crucial. Tomaram um paiol e mataram 5 soldados (dizem-me que terão sido encontrados mais mortos no mato vizinho). Depois do inopinado ataque em Abril passado em Muxanga, algumas centenas de quilómetros a oeste, que teve características diversas, com uma aparência de mera erupção. Mas agora tudo surge com uma vertente mais planeada e objectiva, a conquista de armamento e munições. E parando o tráfego ferroviário (entenda-se, o carvão). Deixando antever o pior.

 

Logo me lembrei da primeira vez que cruzei aquela estrada, então a via principal que unia o país de Norte a Sul, entre Dondo, perto da Beira, e Caia, a travessia do Zambeze, ainda sem ponte. Foi em 1999, sete anos depois do final oficial da guerra civil. A estrada nacional estava ainda no estado  que ilustro acima, empecilhando o tráfego, e por isso vida económica e a trânsito identitário no país, a vera união. Por todo o lado ainda se viam os destroços da guerra, em particular ao longo do caminho-de-ferro, demonstrando aos mais distraídos (e aos cínicos) o horror que foi a malfadada guerra [o "conflito armado", o epíteto cheio de entrelinhas que aqui se usa(va)], pontapeando o sarcasmo imbecil de Kissinger, menosprezador do drama moçambicano ("uma guerra entre o pior exército do mundo e a pior guerrilha do mundo"). E, tal como em tantos outros sítios no país, a população rural ainda habitando preferencialmente longe das estradas - locais mais perigosos na guerra -, atravessando incomensuráveis dificuldades, e digo-o sem hipérboles.

 

Após 1992 a paz foi-se consolidando. Quando aportei a Maputo de vez, em 1997, ainda havia algum temor nas deslocações, com frequentes ataques, provenientes de desmobilizados que tinham mantido armas. Tendencialmente deslocávamo-nos em colunas, em moldes informais, mais num "o seguro morreu de velho". Mas que não eram apenas inércia: pouco tempo depois de chegar recebi uma leitora do Instituto Camões, que tinha ido passar o fim-de-semana à Ponta do Ouro, uma praia no extremo sul do país. No regresso tinham sido emboscados, o condutor do carro dela tinha sido atingido. A estrada para a fronteira de Ressano Garcia era ainda para atravessar de dia e sempre com algum frisson - lembro-me da minha angústia quando tive que ir, sozinho, buscar o então comissário-geral da Comissão dos Descobrimentos, o simpático António Hespanha, e sua pequena comitiva, ao outro lado da fronteira. Num resmungo de "se me acontece alguma coisa com este tipo no carro estou tramado!". Por isso guiei voando, causando algum mal-estar entre os transportados. Pois fora daqui as pessoas não sabiam do estado fluído da segurança, não havia informação. E nós, residentes, facilitávamos um bocado, um colega do meu irmão, sul-africano, que lhe sucedera no posto, foi morto na estrada. 

 

Na época essa zona rodoviária era patrulhada pelas "milícias do comandante Sousa", encarregues da sua tétrica limpeza (algo a que ninguém se opunha, mesmo que descurando preocupações éticas ou sociológicas). Sousa é um quase mítico militar de origem portuguesa, antigo militar das tropas especiais portuguesas, afável, conversador. Diz-se (nunca confirmei) que é um antigo membro das FP-25, como tantos outros destes para aqui enviado por acordo entre governos, nos idos de 1980s, e que integrou o exército moçambicano com evidente competência. Depois dessa "limpeza" ter terminado as milícias ascenderam para norte, para a via que unia ao Zimbabwe, ainda antes da crise daquele país que reduziu o tráfego e, concomitantemente, as razias na estrada.

 

Mas esses eram processos para além da política. Ecos, resquícios, da guerra civil, da proliferação de armas e da militarização da sociedade. Mas tratava-se de criminalidade, de roubos e alguma desestabilização para incrementar benesses indirectamente obtida.

 

Depois, em XXI, a pacificação. Agora, num contexto político nada linear, antecedendo um ciclo eleitoral complexo [no passado domingo diziam-me que a Renamo  acordara com a Frelimo lançar uma candidatura autárquica na Beira, para derrubar o presidente do MDM. Como articular isto com o germinar desta violência militar?],  e um constante discurso de "boom" económico, estes acontecimentos fazem, pelo menos, lembrar um passado terrível. Não antevendo um futuro similar, para não ser catastrofista. Mas angustiando.

 

Que fazer?

publicado às 15:36

Filipe Raposo

por jpt, em 20.06.13

 

(postal escrito para o Delito de Opinião)

 

Somos visitados por um amigo daqueles, dos de décadas de amizade. Um tipo da música, espectáculos. Simpático, traz prendas, algumas gastronómicas, daquelas da saudade. Enquanto as degustamos falamos do aqui, Moçambique. E também da gasta pátria, pouco, para não desanimarmos. Ouço do como está o meio da música. Dos discos que, claro, não se vendem, dos espectáculos que, enfim, quase não existem, um panorama de arrepiar, talvez não tanto para os nomes muito estabelecidos, mas para muito boa gente. Adiante, chega de carpir. Nomes novos?, pergunto-lhe. Sorri, manda-me ver as prendas, que nem tudo é comida e bebida. Trouxe-me um disco, "A Hundred Silent Ways", do pianista Filipe Raposo. Nunca ouvira, nunca ouvira falar, nem tampouco lera sobre ele. Ouço. E gosto, muito. Venho recomendar, se calhar já atrasado, se calhar o homem já é conhecido o bastante, venho chover no molhado. De qualquer modo aqui fica a minha boa impressão [na página tem algumas músicas do disco].

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publicado às 15:23

Contracosta

por AL, em 19.06.13

Tendo tido que deslocar-me recentemente a Vilanculos, tive a sorte de ficar num lodge encantador – o Villas do Indico. Mas os donos não são dos que se deixam ficar sentados, por muito tentadora que seja a paisagem. Organizam expedições absolutamente fantásticas pelo continente. Deixo aqui a sugestão para a expedição deste ano.

AL

publicado às 06:35

Férias (prolongadas)

por jpt, em 13.06.13

 

O colectivo ma-schamba vai de férias, prolongadas, sem termo certo. A maioria de nós está em radical sabática de botadura pública. O MVF (Miguel Vale de Figueiredo) tem o seu belíssimo painel fotográfico metido no Facebook, para quem queira acompanhar e dele seja "amigo-FB". Eu irei botando de vez em quando no porta-aviões Delito de Opinião e dedicar-me-ei a meter as minhas memórias nesta minha conta, em registo mais aborrecido.

Até breve, bom inverno ou bom verão, conforme o sítio

publicado às 11:17

Casamentos de Santo António

Igreja de Santo António de Lisboa

©miguel valle de figueiredo

publicado às 09:04

Bigger than life

por jpt, em 11.06.13

 

A Câmara Municipal de Lisboa chamou Álvaro Cunhal a uma avenida, neste ano do seu centenário. Resmunguice à parte, o homem foi "bigger than life", como se quer a alguns. Raríssimo, pois assim. Mais raríssimo ainda, se pensarmos no mundo português. Voto sim! Gulags?, Angolas?, Hungrias?, Checoslováquias?, o XX totalitário? Ok. Mas que panache tinha Cunhal. E que dimensão. Voto sim, venha a avenida Cunhal!

 

Depois lembro-me do meu pai António, comunista até à sua morte, "sem culto da personalidade", claro, e como tal "não-cunhalista" como o eram os comunistas da sua geração. Lembro agora que soube da morte do velho líder comunista numa manhã, em plena reunião na universidade. Ao entrar no anfiteatro, único português presente, vários colegas se levantaram para me darem os pêsames. Não, não tenho fama de comunista, alguns até me julgam algo fascista (e talvez não apenas por não ser fan da retórica semi-porno do revolucionarismo hedonista d'hoje em dia). Eram convictas essas condolências, um património simbólico do meu país que partia. Logo fui telefonar para a longínqua casa, "mãe, como está o pai?", "ai, filho, muito em baixo...", morrera pouco antes Vasco Gonçalves, naquele momento o sempre "secretário-geral". As figuras daquela geração. E, para aqueles, esta a maior de todas.

 

Entre esta lembrança de um homem ímpar e do apreço que lhe tinha o meu pai suspendo a vertigem crítica. E para isso nem preciso olhar os anões sôfregos que pululam na cena pública do meu país. Basta-me a memória do homem. Sem perseguir o que quis. Sabendo-o maior do que muito do que quero. E, com toda a certeza, do que os que querem o que eu quero.

publicado às 20:11

 

A última vez que compareci às comemorações oficiais do 10 de Junho em Maputo foi há 10 anos, e sei bem quando foi pois ainda vivia na F. Engels, ali vizinho da residência do embaixador. Cheguei bem tarde, vindo um trabalho entre Boane e Moamba, mas ainda lá fui como sempre o fazia nesta data. Quando cumprimentei o funcionário público que então ocupava as funções de representante, ele ficou a olhar insistentemente para a minha ausente gravata. Eu não lhe disse o impropério que ali mereceu - na época era cooperante, tive que aguentar - mas nunca mais lá voltei. Já agora, os últimos três embaixadores portugueses foram muito fraquinhos, e um tipo, ainda para mais tendo conhecido as verdadeiras excelências que os antecederam, perde a paciência para o mero aparelhismo, mesmo que doirado com o brilho do simbólico. E muito prejudicado com os tiques sociológicos de uma corporação profissional que a torna tendencialmente (muito) renitente à aprendizagem, auto-encerrada, numa "endogamia" intelectual medíocre e incompreendedora. É certo que ao longo dos anos conheci uma mão cheia de bons, até excelentes, diplomatas. Serão esses os que estão socialmente descansados e sociologicamente informados, nisso entendendo que uma república é uma mole de cidadãos e não uma hierarquia de estatutos ontológicos. Mas esses não são, infelizmente, a regra, e isso apouca as competências gerais. Enfim, diz-se que o homem que agora chegou a Maputo é de outro calibre, e ainda bem pois o momento histórico merece e exige. A ver vamos. Se suplanta o que se vem passando e a equipa que tem.

 

Este ano fui à recepção comemorativa. O novo embaixador fez um bom discurso, para além do protocolar. Sublinhou que os portugueses residentes, 23 000 (?, sempre julguei que um pouco mais), constituem um contingente relativamente diminuto se comparado com os emigrantes portugueses em tantos outros países. Certo que o impacto migratório não é apenas estatístico, mas é avisado recordar isso para obstar à ideia da "vaga" de portugueses num país com 23 milhões de habitantes. E deixou dois pontos importantes a reter, quais recados para nós outros, portugueses: a) estamos cá a trabalhar, a ganhar a vida, com o apoio local. No respeito das leis - necessário sublinhar, num contexto em que muito patrício julga que vem gingar diante dos regulamentos. É uma trabalheira, e conspurca a imagem de quantos por cá não o fazem; b) a comunidade portuguesa deixa a política moçambicana para os moçambicanos. Conveniente de lembrar num momento antecessor de um ciclo eleitoral, para acalmar alguns hipotéticos excitados.

 

A festividade em si própria foi interessante. Para mim, a permitir-me rever conhecidos, já raro convívio dado o meu ensimesmamento e o nosso envelhecimento. E continuo a espantar-me com isto de ver os patrícios, quando em algo oficial, a vestirem-se todos com fatos azuis. Qua aquele velho "azul Carris", o dos uniformes dos motoristas e revisores de autocarros. Acham que vão finos, assim. Não vão. Mas enfim, é o que conseguem. E se se esforçam é de louvar. Mas não deixa de ser um uniforme. E isso não é lá muito bom, que a cidadania não se uniformiza. Tornando o cada um como cada qual num cada todo como cada quais. E isso não é bom, principalmente hoje, a precisar de mais cores.

 

Para o ano há mais. E até lá há muito para percorrer. Muito mesmo.

publicado às 20:57

Mário Soares e os outros

por jpt, em 10.06.13

Tenho o facebook e a minha lista de blogs cheia das intervenções de Mário Soares, adversas ao governo português. Sobre este último já disse o que tinha a dizer no já velho dia 27.6.2011: um governo com o CDS/PP que coloca como secretário de estado um daniel campelo não tem qualquer hipótese, é mais da mesma merda, eco da corrupção do sistema político, então, na primeira era campelo, patrocinada pelo paupérrimo Sampaio.

 

Venho de uma função  oficial, o tal 10 de Junho das comunidades, onde encontro conhecidos e amigos, alguns funcionários outros nada disso, capazes de invectivar o presente e salvaguardar o passado. E assim a irritar-me, francamente. Amizade à parte fico irado. Gostam do passado, que regressa. Apreciam Soares (esse com o qual José Pacheco Pereira se apouca terminalmente, chamando-lhe agora "Presidente", como se estes cargos fossem imorredoiros, como se não fossem a termo certo, electivos, como se não fossemos nós uma república, e é pena ver um professor que respeitámos senilizar-se intelectualmente por mera estratégia, ecoando a parvónia protocolar americana, sacralizadora). Soares o do abraço, em visita oficial à Argélia, ao corrupto, corruptor Craxi, então auto-exilado pois procurado pela justiça italiana, tamanha a sua conivência com a Mafia. Os mesmos funcionários e outros nada disso que gostam de Sampaio, o presidente que foi abraçar o corrupto Abílio Curto, o presidente da câmara condenado à prisão (por "amizade", disse então em falso arroubo másculo, mascarando o pontapé dado na necessidade de defender a democracia e a tendencial limpeza do sistema administrativo-político).

 

Crise portuguesa? Sim, claro. A incapacidade de ver que a crise vem do populismo corruptor é sinal do profundo de que brota a crise. Não são os extremistas, adversários da democracia, que são os grandes inimigos desta. São estes aparentes democratas incapazes de encontraram as raízes sistémicas do abalo que sofremos. Da "banda do cavaco" a estes socialistas mediterrânicos. É refutando esta tralha, a formada nos 80s de Macau, socialista, podre desde então, e o bloco psd, germinado no cavaquistão. A democracia defender-se-á assim. Refutando esta escumalha, "presidentes" e não presidentes. Não topologicamente. Nunca com o amigo de mafioso Craxi ou com o amigo de corrupto Curto, nem com o gajo que ganhou upgrading da "Mariani".

 

Para a frente, democraticamente. E nunca para trás. E, nisso, claro, nunca com quem despreza a república, como agora o afinal servil Pacheco Pereira. Uma purga, é o que o país precisa. Já! Também, amizade à parte, diante dos funcionários ou nem tanto, amigos ou conhecidos. Assassinos do meu país. Por interesse próprio, alguns. Porque obtusos, outros.

publicado às 20:06

Grant Lee Neuenburg em Xilunguini

por jpt, em 09.06.13

A não perder esta individual de fotografia. Até quinta-feira.

publicado às 12:48

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