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Sopros de guerrilha

por jpt, em 20.06.13

 

(Postal escrito ontem para o Delito de Opinião)

 

(Ante)Ontem forças da Renamo atacaram na estrada de Inhaminga, a via Beira-Quelimane, na província de Sofala, que ladeia a floresta e uma linha rodoviária crucial. Tomaram um paiol e mataram 5 soldados (dizem-me que terão sido encontrados mais mortos no mato vizinho). Depois do inopinado ataque em Abril passado em Muxanga, algumas centenas de quilómetros a oeste, que teve características diversas, com uma aparência de mera erupção. Mas agora tudo surge com uma vertente mais planeada e objectiva, a conquista de armamento e munições. E parando o tráfego ferroviário (entenda-se, o carvão). Deixando antever o pior.

 

Logo me lembrei da primeira vez que cruzei aquela estrada, então a via principal que unia o país de Norte a Sul, entre Dondo, perto da Beira, e Caia, a travessia do Zambeze, ainda sem ponte. Foi em 1999, sete anos depois do final oficial da guerra civil. A estrada nacional estava ainda no estado  que ilustro acima, empecilhando o tráfego, e por isso vida económica e a trânsito identitário no país, a vera união. Por todo o lado ainda se viam os destroços da guerra, em particular ao longo do caminho-de-ferro, demonstrando aos mais distraídos (e aos cínicos) o horror que foi a malfadada guerra [o "conflito armado", o epíteto cheio de entrelinhas que aqui se usa(va)], pontapeando o sarcasmo imbecil de Kissinger, menosprezador do drama moçambicano ("uma guerra entre o pior exército do mundo e a pior guerrilha do mundo"). E, tal como em tantos outros sítios no país, a população rural ainda habitando preferencialmente longe das estradas - locais mais perigosos na guerra -, atravessando incomensuráveis dificuldades, e digo-o sem hipérboles.

 

Após 1992 a paz foi-se consolidando. Quando aportei a Maputo de vez, em 1997, ainda havia algum temor nas deslocações, com frequentes ataques, provenientes de desmobilizados que tinham mantido armas. Tendencialmente deslocávamo-nos em colunas, em moldes informais, mais num "o seguro morreu de velho". Mas que não eram apenas inércia: pouco tempo depois de chegar recebi uma leitora do Instituto Camões, que tinha ido passar o fim-de-semana à Ponta do Ouro, uma praia no extremo sul do país. No regresso tinham sido emboscados, o condutor do carro dela tinha sido atingido. A estrada para a fronteira de Ressano Garcia era ainda para atravessar de dia e sempre com algum frisson - lembro-me da minha angústia quando tive que ir, sozinho, buscar o então comissário-geral da Comissão dos Descobrimentos, o simpático António Hespanha, e sua pequena comitiva, ao outro lado da fronteira. Num resmungo de "se me acontece alguma coisa com este tipo no carro estou tramado!". Por isso guiei voando, causando algum mal-estar entre os transportados. Pois fora daqui as pessoas não sabiam do estado fluído da segurança, não havia informação. E nós, residentes, facilitávamos um bocado, um colega do meu irmão, sul-africano, que lhe sucedera no posto, foi morto na estrada. 

 

Na época essa zona rodoviária era patrulhada pelas "milícias do comandante Sousa", encarregues da sua tétrica limpeza (algo a que ninguém se opunha, mesmo que descurando preocupações éticas ou sociológicas). Sousa é um quase mítico militar de origem portuguesa, antigo militar das tropas especiais portuguesas, afável, conversador. Diz-se (nunca confirmei) que é um antigo membro das FP-25, como tantos outros destes para aqui enviado por acordo entre governos, nos idos de 1980s, e que integrou o exército moçambicano com evidente competência. Depois dessa "limpeza" ter terminado as milícias ascenderam para norte, para a via que unia ao Zimbabwe, ainda antes da crise daquele país que reduziu o tráfego e, concomitantemente, as razias na estrada.

 

Mas esses eram processos para além da política. Ecos, resquícios, da guerra civil, da proliferação de armas e da militarização da sociedade. Mas tratava-se de criminalidade, de roubos e alguma desestabilização para incrementar benesses indirectamente obtida.

 

Depois, em XXI, a pacificação. Agora, num contexto político nada linear, antecedendo um ciclo eleitoral complexo [no passado domingo diziam-me que a Renamo  acordara com a Frelimo lançar uma candidatura autárquica na Beira, para derrubar o presidente do MDM. Como articular isto com o germinar desta violência militar?],  e um constante discurso de "boom" económico, estes acontecimentos fazem, pelo menos, lembrar um passado terrível. Não antevendo um futuro similar, para não ser catastrofista. Mas angustiando.

 

Que fazer?

publicado às 15:36

Filipe Raposo

por jpt, em 20.06.13

 

(postal escrito para o Delito de Opinião)

 

Somos visitados por um amigo daqueles, dos de décadas de amizade. Um tipo da música, espectáculos. Simpático, traz prendas, algumas gastronómicas, daquelas da saudade. Enquanto as degustamos falamos do aqui, Moçambique. E também da gasta pátria, pouco, para não desanimarmos. Ouço do como está o meio da música. Dos discos que, claro, não se vendem, dos espectáculos que, enfim, quase não existem, um panorama de arrepiar, talvez não tanto para os nomes muito estabelecidos, mas para muito boa gente. Adiante, chega de carpir. Nomes novos?, pergunto-lhe. Sorri, manda-me ver as prendas, que nem tudo é comida e bebida. Trouxe-me um disco, "A Hundred Silent Ways", do pianista Filipe Raposo. Nunca ouvira, nunca ouvira falar, nem tampouco lera sobre ele. Ouço. E gosto, muito. Venho recomendar, se calhar já atrasado, se calhar o homem já é conhecido o bastante, venho chover no molhado. De qualquer modo aqui fica a minha boa impressão [na página tem algumas músicas do disco].

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publicado às 15:23


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