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Politeísmo (57): o milagre

por jpt, em 14.08.13

publicado às 22:00

O Primado da Fonética

por jpt, em 14.08.13

publicado às 15:40

Sons aqui (13): Venâncio Mbande

por jpt, em 14.08.13

 

 

 

Sobre Venâncio Mbande aqui no ma-schamba.

publicado às 10:26

Ao Balcão da Cantina (31)

por jpt, em 14.08.13

 

O meu texto desta semana no "Canal de Moçambique"

 


Com Alexandria

 

1. No passado sábado grupos autodeterminados de “vigilantes”, populares mobilizados para defesa diante do anunciado grupo G20, massacraram seis pessoas em Maputo. Uma das vítimas foi o escultor Alexandria, homem a quem conheci e admirei, e a quem fiquei devedor, agora irremediavelmente, da visita ao seu espaço para discutirmos o seu actual trabalho, um convite seu várias vezes repetido nestes últimos meses. A mágoa com a desgraça ocorrida é, se possível, aumentada pelo absurdo da situação.

 

Artista, jovem nos seus 35 anos, pai de família, homem pacífico, espírito complexo e inquieto a expressar-se na sua obra, mas também dono de um sorriso desarmante na sua candura, brotado nos intervalos dos seus debates internos, Alexandria provinha de uma estirpe de artistas, filho e sobrinho, respectivamente, dos reconhecidos escultores Simões e Govane, e também familiar do renomado Pekiwa e ainda do precocemente falecido Cabaça. Assim sendo poder-se-á dizer que este atentado atingindo a sua linhagem fere o núcleo central da actual expressão escultórica no país, em particular a do Sul – e tão identitária tem ela sido no processo nacional.

 

Admirado nacionalmente e já abrindo caminho para a internacionalização do seu trabalho, Alexandria articulou o seu trabalho com as perspectivas que vêm sendo desenvolvidas na sua geração, reconstruindo tradições, a técnica, a temática, a discursiva. Com particular enlevo recordo as reconfigurações do tradicional pictórico das esculturas deste sul e, nestes últimos tempos, até a ideia da escultura colectiva, e das mesclas de materiais, em particular da madeira com o metal. Convivendo com o topo da sua geração, tanto dele albergado no Núcleo de Arte, teve ainda cruzamento de obras com Gonçalo Mabunda, porventura o escultor moçambicano de maior prestígio internacional actual.

 

Acredito que é nas expressões artísticas que as sociedades transmitem e reconfiguram o seu passado fazendo-o transitar até ao futuro, e a este constroem – muito mais do que em colectâneas de discursos ou em textos programáticos. Assim sendo, e por tudo o que venho afirmando, esta desgraça acontecida fere também o núcleo desta geração de produtores de presentes a legar, de moçambiques. Ou seja, fere o futuro.

 

Estamos habituados a que, por esse mundo e por toda a história, os artistas, inquietos, reconstrutores, inventores, nisso desobedientes, sejam cerceados e quantas vezes encerrados, pelos poderes, Estados e outros poderosos. Quantas vezes assim se tornando mártires, até exemplos para os seus povos ou mesmo, quando a tal lhes chega a grandeza, para a humanidade. Mas não é este o caso, pois Alexandria, o jovem Alexandria, foi martirizado, espancado, assassinado, desmembrado, pelo seu próprio povo. E por nenhuma razão objectiva, apenas por uma enorme confusão. Que gigantesco absurdo.

 

2. Que sentido para tudo isto, para a morte de Alexandria, e para a morte de outros cidadãos apanhados pela torrente da fúria dos auto-nomeados piquetes? Que nos últimos dias patrulham as áreas residenciais, temerosos do famigerado grupo ladrões violadores sádicos, pedófilos e bissexuais, que anunciam a sua visita às zonas e depois queimam com ferros de engomar as suas vítimas. Correm inúmeros rumores de crimes acontecidos, mas ainda não comprovados. Boatos alimentados pela enorme criminalidade efectivamente existente, a qual disparou este rizomático discurso popular e imediatas teorias da conspiração, que apontam responsáveis políticos (do poder ou da oposição) e/ou policiais para os crimes acreditados. Nisto o temor disseminou-se, anunciando-se pânico. E a "justiça popular" (re)instalou-se na cidade.

 

E certo que esta vaga de crenças, práticas e rumores, indicia um caldeirão social fervilhante, uma gigantesca desconfiança nas instituições também, e um profundo mal estar popular. E, na base, uma enorme sensação de insegurança, de desconfiança face ao presente e ao futuro. A própria simbologia anunciada, este "passar a ferro" das vítimas, será matéria para as fáceis leituras metafóricas, a dizerem um povo a querer significar o facto de estar "espalmado", "queimado", devastado, por um real incerto e supra-esmagador de tão duro que vai. E assim desumanizador, "coisificador" da vítima - pois apenas objectos são passados a ferro, nisso destruidor das identidades individuais.

 

Tudo lembra a crença no "chupa-sanguismo", nos anos 1990s. E também, ainda que então alimentada por alguns casos reais, ligados a práticas feitícicas, a vaga de acusações de “tráfico de órgãos” na década passada. E se a crença no vampirismo não colheu grande impacto nas classes médias e nos palcos internacionais, já esta última, pela sua parecença facial com as práticas da indústria médica, foi mais aceite, tanto no “cimento” citadino como no estrangeiro – recordo ainda reportagens de jornais portugueses e ainda a novela, que até chegou a ser premiada em Portugal, “Niassa” do jornalista Francisco Camacho, os discursos inebriados com o aparente exótico.

 

Também nesses casos as simbologias presentes nas crenças apontavam para a “coisificação” (entenda-se, desumanização) das vítimas, espoliadas da sua energia vital, órgãos ou sangue, pelas práticas mercantis/canibais de quem tinha poder para o fazer, tal como agora o são da sua pele (queimada) e da sua sexualidade (violentada). Isto é simpático nas leituras apressadas destes discursos sociais, mais nos “engajados” nas aparentes “boas causas”. Que nisso reduzem estes discursos populares a meras críticas aos poderes, aos poderosos que vitimizam, expropriam. Convirá algum detalhe nestas análises, perceber que estas invectivas não são apenas contra os “outros”, pérfidos “xingondos”, mas muitas vezes são também dirigidas ao próximo mais próximo. O que deslegitima tais leituras mais superficiais, as da crítica ao poder.

 

3. Como pensar este horror agora acontecido, o dos linchamentos? Apelar a algo muito diverso do que tem vindo a ser corrente ouvir no quotidiano moçambicano, seja no “povo” seja na “classe média”, demasiado habituado à violência (veja-se como já é quase rotineira a recepção de notícias dos mortos causados pelas forças da Renamo), e também demasiado descrente na firmeza dos sistemas policiais e judicial. Convém recordar William Blackstone, o influente jurista e político britânico de XVIII: “mais vale que dez culpados escapem do que um inocente sofra”. E associemos isso ao que disse o sociólogo alemão Max Weber, aquilo de que é o “Estado que detém o monopólio da violência legítima”. Sim, apesar de todos os defeitos que os Estados apresentam, das manipulações e apropriações que sofrem, mesmo em democracia.

 

E nesse sentido olhe-se esta “vigilância popular” não com uma simpatia compreensiva. Pois tentar compreender a acção social não é simpatizar com ela. E enfrentá-la. Compreendendo-a. Percebendo que os piquetes linchadores são o mal. Horrível.

 

Gritaram-no Alexandria e os outros falecidos. Gritemo-lo.

publicado às 08:05


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