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Mstislav Rostropovich é muito comprido e complicado para designar um instrumento.  Facilitemos a coisa e, se estiverem de acordo, fica violoncelo...

publicado às 22:08

Politeísmo (77)

por jpt, em 06.09.13

publicado às 18:00

Esta noite sonhei com a crise

por jpt, em 06.09.13

 

Há alguns meses morreu Mário Murteira. Fui seu aluno no mestrado e dele fiquei com uma excelente memória, como docente e como pessoa. Recentemente a revista do Centro de Estudos Africanos do ISCTE - Lisboa, o Caderno de Estudos Africanos, publicou alguns textos em sua homenagem. Incluindo um breve texto meu, algo que muito me honrou e comove. [E também tem um texto do nosso FF]

 

Agora em Lisboa recebi este livro, "Esta Noite Sonhei com a Crise", uma colectânea de textos seus da última década (artigos de opinião, postais de blog, entrevistas, a lição de jubilação, etc.), matéria muito interessante. Por um lado para nos aproximarmos da sua biografia intelectual e política, por outro para acedermos às suas perspectivas sobre a "crise" deste tumultuoso XXI. E ainda alguns textos sobre África, frutos da sua vasta experiência de trabalho em vários países do continente.

 

Mário Murteira ficou mais amplamente conhecido por ter sido governante nos governos provisórios e pelo seu papel nas nacionalizações (o que muitos continuam a evocar, viu-se agora, 40 anos depois, aquando da sua morte). Também por isso será de ler, em particular as entrevistas, para se perceber um pouco melhor o ambiente da altura, em que "O Estado, nessa altura, e em rigor, não existia" (99) - e já agora, de algum do porquê das nacionalizações dos grupos económicos. Das suas raízes intelectuais, assentes, como as de tantos vultos de então, no "catolicismo progressista" (definição que lhe desagradava), no personalismo (quem lerá hoje Mounier?, ocorre-me). E é de recordar esta dimensão católica, ideológica, no poder de então, mais significativa do que hoje se pensa, expurgada do olhar que vamos tendo sobre essa época, um pouco por ser hoje quase tabu a afirmação da religião no domínio da coisa pública, mas também pela partidarização do olhar. Enquanto li este livro reli o seu opúsculo "55 Dias de Uma Experiência Democrática" (1975), sete artigos publicados em jornal no Verão de 1974, ecoando os factos da sua participação no 1º governo provisório (sob Palma Carlos). E é bem significante que já então, e em pleno jornal, reflectia com toda a naturalidade sobre a presença no governo da sua importante "secção" católica.

 

Para além desse material memorialista, sumarento para quem se interesse por essa época de advento da democracia, há o olhar sobre a actualidade. Delas retiro para aqui dois pontos, que não serão os mais importantes - julgo que as reflexões sobre a "crise" europeia e portuguesa e sobre o pós-industrialismo e a globalização serão mais marcantes do seu pensamento profissional. 

 

O primeiro é, de novo, o catolicismo. Murteira explicitou, com elegância, que ao longo da vida se afastou da fé, se "desconverteu". Mas teve a sageza, nele condição habitual, de continuar atento ao discurso católico, tão estruturante é ele na Europa. Num breve texto, propositadamente inconclusivo, "Para que serve a doutrina social da igreja?", chama a atenção para a riqueza da encíclica de Bento XVI "Caritas in Veritate" (2009), sistematizadora e potencialmente influenciadora do necessário debate sobre o modelo socioeconómico europeu e as práticas decorrentes. Não posso deixar de sorrir, eu ateu e nem-baptizado, quando comparo o velho professor com os exaltados mata-frades actuais, que acham que ser de esquerda é invectivar, radicalmente, a igreja, reduzindo-a aos epifenómenos mais rasteiros. 

 

O segundo é uma deliciosa tese (a segunda no seu texto "6 Teses sobre a Crise"): "A economia é importante, os economistas não". Associando-a, noutros textos, com uma visão que desconfia da ideologia economicista, do primado dos equilíbrios macroeconómicos, da estabilidade monetária, e que nota a incapacidade da ciência económica em interpretar (e prever, esse mito) o real actual. O que se articula com a sua trajectória docente, a sua opção final pelo mundo da gestão. Não no sentido de esquecer os contextos sociais da actividade (no quais sempre atentou) mas no sentido de valorizar / incrementar as estratégias criativas, manipuladoras nesses contextos constrangedores. Educadamente pode-se referir-se-lhes (e Murteira também o faz) como "empreendedorismo" - não naquela faceta vulgar ultra-liberal, o pobre individualismo do "a sociedade não existe", ecoando a velha fórmula "Deus ajuda quem se ajuda a si próprio". Se assim um "empreendedorismo" entendido como um "desenrascai-vos", como se os constrangimentos socioeconómicas se resolvessem num "cada um por si".  Mas sim numa perspectiva sociológica do exercício económico, do necessário incremento das capacidades intelectuais direccionadas. (E aqui não posso deixar de sorrir ao lembrar a tonta polémica recente em Portugal sobre o "empreendedorismo" provocada pelo triste espectáculo televisivo proporcionado pela investigadora Raquel Varela, denotando o quanto a topologia lusa impede o pensamento).

 

Enfim, fará falta o teclado de Mário Murteira. A sua ironia, a sua sageza.

 

 

 

publicado às 10:43


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