Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




A Gala e o discurso de Mia Couto

por jpt, em 26.10.13

 

Jantamos em casa de amigos chegados. Deixámos a filha em casa, ainda que esta ande preocupada com a guerra da Renamo e ainda mais com a vaga de raptos, assunto que lhe preenche os constantes sms, esse tique de geração, pois são estes visões que lhe invadiram o quotidiano, mães e colegas raptados, uma escola que está agora rodeada de guardas de coletes à prova de bala e shotguns na mão, um ambiente que não pode passar desapercebido aos putos, que os aflige. A meio do nosso jantar avisa por telefone que houve corte de electricidade, estes cada vez mais constantes, mergulhada ficou no luz de velas, ela ainda num cedo demais para lhe dar conteúdo romântico. Passado um pouco rebentam as explosões, há um solavanco à nossa mesa, ainda que estejamos ali num convívio bem-disposto. Entreolhares e sou eu, como se veterano, ainda que ali abundem os donos da terra, que afirmo ser fogo-de-artifício. Como continuam as longínquas rajadas espreguiço-me, como quem não quer a coisa, e vou à janela de onde nada vejo. Telefono a pedir informações sobre o que se passa, colhendo um "é a gala da Vodacom" entre sorrisos audíveis pois, dizem-me, há imensa gente a entre-telefonar-se por causa disto. Logo depois toca-me o telefone, é a filha de novo, em pânico com os tiros. Afianço-lhe que é festa, que não se preocupe, digo-lhe para ficar na cama que é vespera de aulas. Ela pede-nos para regressarmos a casa. Ríspido nego-me a isso, é apenas uma festa. Desliga e eu regresso ao copo de 2M. Vejo que a estou a tratar como se fosse o terceira linha da selecção junior de râguebi de Gales, esse que não tive como filho. Interrompo o belo peixe e as deliciosas beringelas fritas, abandono a conversa num "já venho ...". Atravesso o bocado de cidade, para sossegar a princesa, nos seus desamparados 11 anos. Quando regresso à mesa ela sorri, já descansada. No dia seguinte diz-me que entre os colegas todos comentaram o assunto, todos se assustaram, todas as famílias também. 

 

Fico a pensar, um pensar mudo, qu'isto do Diamantino (Miranda, como aqui é conhecido) veio sublinhar a prudência do silêncio imigrado. Mas fico a pensar que grave nas sociedades é quando há fracturas, hiatos, entre os grupos, incompreensões e, mais do que tudo, insensibilidades. E pior ainda quando os hiatos apartam as elites socioeconómicas do grande povo. Nem são malevolências ou ideologias, muitas vezes vêm de diferentes sociabilidades, as pessoas, nós, vivemos em pequenos comités, não nos apercebemos desse em torno muito global. Pois apenas uma enorme distância, uma insensibilidade, conduz a uma gala com fogo-de-artifício num altura destas, uma cidade de cimento acabrunhada com as ameaças de extorsão, os constantes raptos. E a longínquos combates. Dever-se-á parar a vida?, os festejos? Não, com toda a certeza. Mas será necessário assustar os vizinhos?, esquecer-lhes os estados de espírito?

 

Mia Couto esteve presente nessa gala. E fez este discurso. Para além dos dotes literários é um cidadão empenhado e corajoso. Mais uma vez o comprova com este exercício de cidadania:

 

 

        Mia Couto, 25-10-2013


"Pensei bastante se estaria ou não presente nesta cerimónia. A razão para essa dúvida era a seguinte: há três dias a minha família foi alvo de várias e insistentes ameaças de morte. Essas ameaças persistiram e trouxeram para toda a nossa família um clima de medo e insegurança. A intenção foi-se revelando clara, depois de muitos telefonemas anónimos: a extorsão de dinheiro. A mesma criminosa ameaça, soubemos depois, já bateu à porta de muitos cidadãos de Maputo. 

Poderíamos pensar que essas intimidações se reproduzem a tal escala que acabam por se desacreditar. Mas não é possível desvalorizar este fenómeno. Porque ele sucede num momento em que, na capital do país, pessoas são raptadas a um ritmo que não pára de crescer. Esses crimes reforçam um sentimento de desamparo e desprotecção como nunca tivemos nos últimos vinte anos da nossa história.

Esses que são raptados não são os outros, são moçambicanos como qualquer outro cidadão. De cada vez que um moçambicano é raptado, é Moçambique inteiro que é raptado. E de todas as vezes, há uma parte da nossa casa que deixa de ser nossa e vai ficando nas mãos do crime. Neste confronto com forças sem rosto nem nome, todos perdemos confiança em nós mesmos, e Moçambique perde a credibilidade dos outros. Esses sequestros estão nos cercando por dentro como se houvesse uma outra guerra civil, uma guerra que cria tanta instabilidade como uma qualquer outra acção militar, qualquer outra acção terrorista. 

Este é um fenómeno que atinge uma camada socialmente diferenciada do nosso país. Mas o mesmo sentimento de medo percorre hoje, sem excepção, todos os habitantes de Maputo, pobres e ricos, homens e mulheres, velhos e crianças que são vítimas quotidianas de crimes e assaltos. 

Eu falo disto, aqui e agora, porque uma cerimónia destas nos poderia desviar do que é vital na nossa nação. Não podemos esquecer que o nosso destino colectivo se decide hoje sobretudo no centro do País, nessa fronteira que separa o diálogo do belicismo. E todos nós queremos defender essa que é a conquista maior depois da independência nacional: a Paz, a Paz em todo o país, a Paz no lar de cada moçambicano. 
Se invoquei a situação que se vive hoje em Maputo é porque outras guerras, mais subtis e silenciosas, podem estar a agredir Moçambique e a roubar-nos a estabilidade e que tanto nos custou conquistar. 

Caros amigos 

Estamos celebrando nesta Gala algo que, certamente, possui a intenção positiva de valorizar o nosso país. Mas para usufruirmos o que aqui está a ser exaltado, as melhores praias, os melhores destinos turísticos, precisamos de saber o ver o que nos cerca. Na realidade, e em rigor, o melhor de Moçambique não pode ser seleccionado em concurso. O melhor de Moçambique são os moçambicanos de todas etnias, todas as raças, todas as opções políticas e religiosas. O melhor de Moçambique é a gente trabalhadora anónima que, todos os dias, atravessa a cidade em viaturas transportados em condições que são uma ofensa à vida e à dignidade humanas. 

O melhor de Moçambique são os camponeses que embalam à pressa os seus haveres para fugirem das balas. O melhor de Moçambique são os que, mesmo não tendo dinheiro, pagam subornos para não serem incomodados por agentes da ordem cuja única autoridade nasce da arrogância. 

O melhor de Moçambique são os que anonimamente constroem a nação moçambicana sem tirar vantagem de serem de um partido, de uma família, de uma farda. 

Os melhores de Moçambique não precisam sequer que os outros digam que são os melhores. Basta-lhe serem moçambicanos, inteiros e íntegros, basta-lhes não sujarem a sua honra com a pressa de se tornarem ricos e poderosos. 

Os melhores de Moçambique não precisam de grandes discursos para acreditarem numa pátria onde se possa viver sem medo, sem guerra, sem mentira e sem ódio. Precisam, sim, de acções claras que eliminem o crime e a corrupção. Porque a par deste galardão que distingue o melhor de Moçambique há um outro galardão, invisível mas permanente, que premeia o pior de Moçambique. Todos os dias, o pior de Moçambique é premiado pela impunidade, pela cumplicidade e pelo silêncio. 

Caros amigos, 

Disse, no início, que hesitei em estar presente nesta gala. Mas pensei que me competia, junto com todos vocês, a obrigação de construir um evento que fosse para além das luzes e das mediáticas aparências. Nós queremos certamente que esta festa tenha uma intenção e produza uma diferença. E esta celebração só terá sentido se ela for um marco na luta pela afirmação de valores morais e princípios colectivos. Para que a nossa vida seja nossa e não do medo, para que as nossas cidades sejam nossas e não dos ladrões, para que no nosso campo se cultive comida e não a guerra, para que a riqueza do país sirva o país inteiro. ''


publicado às 17:16

Rui Moreira

por jpt, em 26.10.13

(imagem retirada daqui)

Há alguns anos fez-se uma sessão do "Trio de Ataque" aqui em Maputo. Não gosto deste tipo de comentário futebolístico, mais que não seja porque cristaliza a ideia anti-concorrencial de que há três clubes (com destinos escrutinados) e o resto é paisagem. Mas a vinda das figuras público-desportivas animou as hostes da bola. Na véspera do programa fez-se um concorrido jantar no restaurante KaMpfumo, na estação dos CFM, na qual depois se veio a realizar o programa. Acorri ao repasto da bola (e até vim a blogar sobre isso). Na época o representante do pérfido Benfica era António Pedro Vasconcelos, que em dia anterior ali mesmo pontificou numa agradabilíssima tertúlia sobre cinema, organizada pela gerência. Uma simpatia, um agrado de pessoa, e com aquela cultura verdadeira que não precisa de se desfraldar. Pelo Sporting, o tal clube da elite (diz-se) vinha Rui Oliveira e Costa que, enfim ..., se mostrou tudo menos digno desse estereótipo, para não dizer mais. E pelo malvado Porto chegou Rui Moreira. Um senhor, e basta isso. Que inveja, resmungou este sportinguista, acabrunhado com a "representação" que ali lhe cabia.

Foi o único, e breve, contacto que tive com o agora presidente da câmara do Porto - essa cidade que dista menos de Lisboa do que Quissico de Maputo mas que há muitos que continuam a dizê-las basto apartadas, muitos mas de pouco mundo como assim se torna óbvio. Tanto pela boa imagem que então criei de Rui Moreira como pela desejada lufada de ar fresco no claudicante sistema partidário português, torci de longe pela sua vitória eleitoral na cidade do meu pai. E, também, para que Menezes (ainda que sportinguista) não ganhasse, o que seria um total paradoxo face ao estado do país, um contra-ciclo para o que é necessário - sendo que o simples facto do "edil" (como aqui se diz) de Gaia ter agora sido candidato do PSD ao Porto demonstra que em relação a este partido não há nada a fazer nem esperar. Se fosse coisa, o tal partido, era para o lixo. Como é gente, é aguentá-lo e acantoná-lo, se possível. Pois cheinho de más reses, como o episódio gritou.

Ok, Moreira ganhou e gostei. Mas, infelizmente, vai daí e continua a "bolar" sobre a bola. Agora vem com isto, invectivar o presidente do Sporting. Está já a espalhar-se ou ainda não saíu da câmara de descompressão? Não é este o papel, nem o registo, de um presidente da câmara. Ainda para mais de uma cidade da dimensão como o Porto tem. E ainda mais de quem acaba de chegar como ele chegou, um pouco por cima do rame-rame que vem minando o país. Bruno de Carvalho já lhe respondeu, de modo rude. Apropriado, pois quem anda à chuva molha-se. Entenda-se, populista é um presidente da câmara a surfar as paixões da bola. Está Moreira a espalhar-se? Está. A ver vamos se ele não é apenas isto. Mas, se calhar, é mesmo só isto. Com alguma "patine" de bom berço. Espero que não.

publicado às 15:49

Espionagem

por jpt, em 26.10.13

 

O avanço de Obama para a presidência foi simpático, principalmente pela afronta aos preconceitos racistas, nos Estados Unidos tão misturados com o fundamentalismo cristão popularucho. Mas teve um lado oposto, mais para a minha terra, sintomático que foi da imbecilidade militante de alguma esquerda, identitarista, caída de fervores pelo obamismo. "Eu sou obamista" passou a ser um pin político, "alfinete de peito", iman de geleira, de qualquer candidato a colunista do "Público" ou de comentarista fedorento.

 

À revelia do real Obama, "Obama" é, olhando Portugal, um símbolo do vazio intelectual da primeira década de XXI. Lembro-me disso agora, quando se sabe que os EUA andam espiando tudo e todos, uma série de políticos aliados, etc. O que diriam os democráticos identitaristas, os teclistas do eixo BE-PS, se o presidente americano fosse Bush, pai, filho ou irmão? Sendo este devem estar a alisar os posters, lá nos quartos adolescentes. Retardados.

 

E os outros continuam a lê-los. E a rir-se das piadinhas na TV. Retardados?

publicado às 05:01


Bloguistas







Tags

Todos os Assuntos