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Mark Twain, Tom Sawyer e Huck Finn

por jpt, em 17.11.13

 

Uma das padronizações mais notáveis é a acontecida na iconografias das personagens icónicas. Pois à excepção das actrizes mais voluptuosas e do mundo rock (sendo este o inverso, pois num processo de infantilização), o molde sobre o qual constituímos as imagens desses "heróis" (semi-divinos) constrói-se sobre uma amálgama de fotografias das respectivas maturidades ou mesmo decrepitudes, uma verdadeira contradição se os pensarmos como "aqueles que por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando". Quando imagino Borges, Miles, Lévi-Strauss, Karajan, Lee Marvin, Firth, Tolstoi e tantos outros, logo me deparo com anciões habitantes da minha memória. Nada contra estes, tudo contra o seu império. Por isso gosto de recolectar estes retratos dos artistas quando jovens ... Aqui partilho um desses, que acabo de encontrar: Mark Twain, fotografado cerca de 1850. E nisto lembro-me, e replico-o, de um postal que escrevi quando reli o seu "Tom Sawyer", com um excerto soberbo. Fica aqui:

 

 

Regressar a Tom Sawyer é uma verdadeira máquina do tempo. O que me leva a repetir-me, porque está isto na "biblioteca juvenil", por que é que nos juvenilizam os livros e assim os abandonamos? O que está neste Tom Sawyer que não seja adulto? Será a paixão quase mortal entre Tom e Becky? Ou a maldade, cruelmente castigada, de Injun Joe? A cobiça que a tanto risco e coragem conduz, e que será magnificamente recompensada? O que haverá mais radicalmente adulto do que a confrontação (final) entre os ideais de liberdade de Tom Sawyer, afinal urbano e integrável, e Huck Finn, o radical libertário. O verdadeiro libertário, diga-se, tão necessário nestes hojes de institucionalizações, de (falsos) Tom Sawyers:

 

"Não me digas nada, Tom. Já o tentei e não resultou. Não resulta, Tom. Não é para mim, não estou habituado a isso. A viúva é boa para mim e minha amiga, mas não consigo aguentar aqueles hábitos. Todas as manhãs me faz levantar à mesma hora, obriga-me a lavar e a pentear; não me deixa dormir no barracão de lenha; tenha de usar aquelas malditas roupas que me sufocam, Tom, porque parece que o ar não consegue passar através delas; e são tão bonitas que não me posso sentar, nem deitar, nem rebolar no chão quando as tenho vestidas. (...) Ali dentro não posso apanhar uma mosca nem mascar. Tenho de andar calçado durante todo o domingo. A viúva só come ao som de uma sineta, vai-se deitar ao som de uma sineta, levanta-se ao som de uma sineta. Naquela casa, é tudo tão horrivelmente regular que o corpo de uma pessoa não o consegue aguentar. (...) E a comida é demasiado fácil, não me interessa muita comida assim. (...) A viúva não me deixa fumar, não me deixa gritar, não me deixa bocejar, não me deixa espreguiçar, nem coçar ao pé de outras pessoas. (...) E ainda pior, está sempre a rezar. (...) Tive de fugir, Tom, tive mesmo de fugir! Não, Tom, não me interessa ser rico e não quero viver naquelas malditas casas onde parece que falta o ar. Gosto dos bosques e do rio e das barricas, e é aqui que vou ficar. O resto que vá para o diabo! Já tínhamos as espingardas e o esconderijo, e tínhamos combinado ser ladrões. (...) Tom aproveitou aquela oportunidade:


- Ouve lá, Huck, ser rico não me vai impedir de ser ladrão.


- Não! Estás mesmo a falar a sério, Tom?


- Tão sério como estar aqui à tua frente. Mas Huck, não te podemos aceitar na quadrilha se não fores respeitável.


A alegria de Huck pareceu desaparecer.


- Não me deixas entrar, Tom? Mas deixaste-me ser pirata, não deixaste?


- Sim, mas isso é diferente. Um ladrão é alguém que tem uma categoria mais alta do que um pirata. Isso é uma coisa que todas as pessoas sabem. Em muitos países, até têm elevadas posições de nobreza, entre duques e coisas assim." (294-295)

 

 

[Mark Twain, As Aventuras deTom Sawyer, Edições Nelson de Matos (Tradução de Maria João Freire de Andrade)]

 

jpt

publicado às 03:18


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