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O baronete inglês Edward Elgar escreveu a sobejamente conhecida série de marchas Pompa & Circunstância (de sua graça completa, "Marchas Militares Pompa e Circunstância"), mas deixou uma série de outras composições que merecem atenção e gosto particularmente desta. Elgar é considerado o primeiro compositor a levar a sério o gramofone, fazendo entre 1914 e 1925, gravações ainda sem microfone algumas das suas obras. Um gajo moderno, portanto, o nosso Elgar

 



publicado às 22:54
modificado por jpt a 23/1/15 às 01:32

The Clash

por jpt, em 02.12.13

Há já três anos fui convidado para meter um texto no Delito de Opinião. Escrevi sobre a minha experiência bloguística. Agora, por razões de calendário, lembro-me dele e aqui o reproduzo:



The Clash

  

Agradecer ao Pedro Correia este convite para escrever para o Delito de Opinião não é protocolo. É contexto do que se segue. Pois mesmo que blogo-veterano isto de meter algo num grão-blog, como o DO se tornou - o único dessa mole que consumo diariamente -, levanta logo aquela velha questão, até de algum stress, do "o que dizer a estes tipos?" - os muitos, e nisso louváveis, aqui leitores. Um imigrado treme nessas coisas, devo meter um requebro semi-tropical?, uma ponte inter-continental?, um daqui "estamos juntos"? um voo rasante sobre o onde vivo? Ou restrinjo-me à parca política lusa, também ela habitual no DO ainda que felizmente nada monopolista? E nessa hesitação, até pobreza, é o cidadão que convoco, sai-me texto sobre o aí, o aí da política. Esse aí que há anos vou sabendo fundamentalmente por via dos blogs - se exceptuarmos a fértil actividade futebolística. Então boto sobre blogs, esse "espelho da nação", pelo menos para alguns - que nesse blogocentrismo não serei o único emigrante, sei-o bem por anos de entre-bloguismo.

 

Longe vão os anos 2003-4 onde a gente apareceu desatinada a botar opiniões, frenética nas teclas, cada um pontapeando ou beijando o que que lhe ia na alma, tempos onde se afirmaram alguns manitus da opinão livre, desassombrada (idólatra que sou fiquei-me romeiro do jaquinzinho jcd, Lucky Luke do bloguismo, genial destruidor do anacletismo nacional). Os tempos foram passando e o colectivismo (nada liberal, diga-se) veio a impor-se no bloguismo, as grandes congregações bloguistas tornaram-se um must, na dita "esquerda" e na neo-dita "direita". Então o motor dessa agregação chamava-se blogómetro, que os sonhos de teclistas lisboetas (e, vá lá, portuenses) eram o de destronar, abruptamente, José Pacheco Pereira do papado bloguista. Formaram-se e reformaram-se ene blogs evangelistas, de porta em porta, arengando os respectivos profetas. Era engraçado, naveguei então nesse encapelado mar de links, sentindo-me em casa - entenda-se, vivo num país [Moçambique] cuja grande revolução da actualidade é a monoteísta, são omnipresentes os profetas e profetismos, as igrejas e correntes "africanas", a evangelização e a coranização (coisas de que não se fala na RTP-África, mas do que se poderia esperar daqueles funcionários públicos tão dependentes do senhor secretário de estado do momento?). In-blog, chegado a casa, era quase como estar lá na rua, nos distritos (no mato, dizem os de fora), ouvindo o "alá é grande" "deus nosso senhor tudo pode" e essas coisas. Claro que aí Zizek ou Hayek (ou Hayeck?, para recordar a mais profunda discussão teórica de quase uma década de bloguismo em Portugal) eram os profetas ministrados - enquanto uma minoria, aquela burguesia que vive nas vilórias, libertada do jugo das machambas e já em casas de alvenaria, falava em Blair como reencarnação do bem.

 

Entretanto o Paulo Querido vendeu o weblog.com.pt e o blogómetro perdeu alguma panache. Ainda por cima ninguém - nem mesmo os jornalistas lisboetas, frutos do caldeirão Frágil-Jamaica/Tokyo  - conseguia deitar abaixo o jpp do pedestal quantitativo. Adivinhava-se a crise, um desgaste do ânimo. Mas alguma blogo-esperança renasceu quando Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá irromperam, imperiais até, no bloguismo. Para se retirarem - num dos mais (ou mesmo "o mais"?) ridículos episódios dos anos 00 lusos, uma pequenez medonha - no dia seguinte a ultrapassarem o sitemeter abruptal. Mas pelo menos tiveram o efeito (o mérito?) de apear o blogo-top como meta-mor.

 

A partir daí, e enquanto o próprio país ia deslizando, e talvez também por isso, algo foi mudando.  Alguns raros individuais encanecidos continuaram, adaptando-se ao tom da época, cada vez mais beligerantes ao serviço da "sua majestade" de cada qual. Os super-blogs mantiveram-se, algo voláteis pois mutantes de nome, com transferências até sonantes qual mundo da bola e, de quando em vez, entrezangas prenhes de inter-links, cheias de sub-textos e private angers, tudo isso em crescendo de alinhamento que neles cada vez mais suava o agendismo. O bloguismo-punk morrera há muito, o blogo-rock envelhecia em espasmos e fomos nós, incautos (?!) leitores, sendo encerrados no top of the pops. Com os ciclos eleitorais a indústria desceu à rua e tomou, definitivamente, conta do assunto e no pacote de gabinetes do pró e do contra se foi formando um regime profissionalizado, penteado, no qual ao clic-clic de entrada já se sabe o que esperar, vai-se à missa in-blog para se reafirmar as certezas quais escalfetas. O actual Festival da Eurovisão parece não perder audiências [fui ver o velho blogómetro antes de botar isto, confere ...] mas é óbvio que os maestros, cantores e jurados [nem mesmo o Eládio Clímaco e a Ana Zanatti] não percebem que a obesidade advém via google search: quanto mais "arquivos" tens para trás mais gente te chega ao engano, é o verdadeiro teorema bloguístico.

 

E ficou um mundo de gente trabalhando in-blog, uns cara destapada outros nem tanto, não lhes vão cair os patrões na lama. Dos pacotes de assessores ou não, proto ou ex, brotaram alguns. Assim feitos "Lisboa" muitos discutem, veementes, quem é quem, de onde vêm, com quem jantam ("eu jantei com A, ele existe" "eu ensinei X a blogar, e em minha casa" e, um must, "eu tirei esta foto a V que por acaso se percebe mal na foto mas - estão a ver? - ele existe""), um "quem" "são" "esses" "alguns" que é forma, ladainha, de ir tentando comprovar que o tudo isso, a tal "Lisboa", sempre vai existindo. No fundo, no debate pró ou inpró-nomeação julgam-se nomenclatura. Entretanto, lá longe, a gente da net, essa que em tempos alimentou via clic-clic a quantidade de blogs que foram florindo, já lá não está. Pois encontra-se, noite fora, nestes pós-bloguismos do youtube/facebook, gente com nome e de fotografia espetada no "perfil". Enquanto o tal pacote "convicto" não imigra para cá, trazendo o "remoquismo" que lhe é alma, andamos noutra, a "gostarmos" uns dos outros,  Uns a ler. A ver. A ouvir. Outros a meter. The Clash, hoje:




publicado às 13:38


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