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Pois o Natal é quando um homem quiser ... Que melhor para comemorar a época festiva, o dia natalício, o fim do ano e o princípio do seguinte, do que esta majestosa versão. A 9ª de Beethoven, talvez o cume da afirmação do universal no XIX europeu (cume porque foi bem conseguida), tocada e cantada por uma selecção internacional (um "Barbarians" se falássemos de râguebi) conduzida pelo grande divulgador (universalizador) Bernstein. Em Berlim, no dia de Natal de 1989, celebrando o fim do maldito muro, daquela cortina de ferro. Religião, filosofia, arte e estética, política, tudo misturado na reclamação da razão. Assim como que a mostrar o quão confusas são estas palavras. Por isso a música, que não se traduz.

 

Então aqui fica este templo, precioso. O dia de Natal, celebrando o global (aka universal) e o livre.

publicado às 16:22

2013: a guerra do Afeganistão

por jpt, em 28.12.13

 

Isto de entrar nas estantes paternas e nos exemplares avoengos é sempre interessante. Agora um "Cartas Bárbaras", uma segunda edição de 1907, comprado pelo meu avô paterno em Coimbra em 1911. Eça é espantosamente contemporâneo, e não apenas no desvendar da mesquinhez lisboeta:

 

 

“Os inglezes estão experimentando, no seu atribulado imperio da India, a verdade d’esse humoristico logar commum do seculo XVIII: “A Historia é uma velhota que se repete sem cessar”.

 

O Fado ou a Providencia, ou a Entidade qualquer que lá de cima dirigiu os episodios da campanha do Afghanistan em 1847, está fazendo simplesmente uma copia servil, revelando assim um imaginação exhausta.

 

Em 1847 os inglezes, “por uma Razão d’Estado, um necessidade de fronteiras scientíficas, a segurança do imperio, uma barreira ao dominio russo da Asia …” e outras cousas vagas que os politicos da India rosnam sombriamente, retorcendo os bigodes – invadem o Afghanistan, e ahi vão aniquilando tribus seculares, desmantelando villas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornaes têm telegrafado a victoria, o exercito, acampando á beira dos arroios e nos vergeis de Cabul, desaperta o correame, e fuma o cachimbo da paz … Assim é exactamente em 1880.

 

No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes energicos, Messias indigenas, vão percorrendo o territorio, e com os grandes nomes de Patria e de Religião, prégam a guerra santa: as tribus reunem-se, as familias feodaes correm com os seus troços de cavalaria, principais rivaes juntam-se no odio hereditario contra o estrangeiro, o homem vermelho, e em pouco tempo é todo ou um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a estrada da India… E quando por alli apparecer, emfim, o grosso do exercito inglez, á volta de Cabul, atravancado de artilharia, escoando-se espessamente, por entre as gargantas das serras, no leito secco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquella massa barbara vola-lhe em cima e aniquila-o.

 

Foi assim em 1847, é assim em 1880. Então os restos debandados do exercito refugiam-se n’alguma das cidades de fronteira, que ora é Ghasnat ora Candahar: os afghans correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientaes: o general sitiado, que n’essas guerras asiaticas pôde sempre communicar, telegrapha para o viso-rei da India, reclamando com furor reforços, chá e assucar! (Isto é textual; foi o general Roberts que soltou ha dias este grito de gulodice britannica; o inglez, sem chá, bate-se frouxamente). Então o governo da India, gastando milhões de libras, como quem gasta agua, manda a toda a pressa fardos disformes de chá reparador, brancas colllinas de assucar, e dez ou quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, rebanhos de cavallos, parques de artilharia, toda uma invasão temerosa … Foi assim em 1847, assim é em 1880.

 

Esta hoste desembarca no Industão, junta-se a outras columnas de tropa india, e é dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a quarenta milhas por hora: d’ahi começa uma marcha assoladora, com cincoenta mil camelos de bagagens, telegraphos, machinas hydraulicas, e uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornaes. Uma manhã avista-se Candahar ou Ghasnat – e n’um momento, é aniquilado, disperso no pó da planície o pobre exercito afghan, com as suas cimitarras de melodrama e as suas veneraveis codubrinas do modelo das qu’outrora fizeram fogo em Diu. Ghasnat está livre! Candahar está livre! Hurrah! – Faz-se imediatamente d’isto uma canção patriotica: e a façanha é por toda a Inglaterra popularisada n’uma estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com vehemencia, no primeiro plano, entre cavallos empinados e granadeiros bellos como Apollos que expiram em attitude nobre! Foi assim em 1847; ha-de ser assim em 1880. (…)

 

E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriotica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa n’uma pagina de chronica … (…)

 

No entanto a Inglaterra goza por algum tempo a “grande victoria no Afghanistan” – com a certeza de ter de recomeçar, d’aqui a dez annos ou quinze annos, porque nem póde conquistar e annexar um vasto reino, que é grande como a França, nem póde consentir, collados à sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanaticos, batalhadores e hostis. "Politica" por tanto é debilital-os periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades de um grande imperio. “

 

[Eça de Queiroz, “Afghanistan e Irlanda” in Cartas de Inglaterra. Porto: Livraria Chardon, 1907 (2ª edição), pp. 1-5] – adquirido em Coimbra em 1911

publicado às 15:40


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