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Milton Hatoum

por jpt, em 03.01.15

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Custou-me 3 euros ali na gare do Oriente, coisas, julgo, da falência da distribuidora da editora Cotovia, aqui responsável. E que bem gastos foram! De Milton Hatoum lera há anos o "Dois Irmãos", um excelente romance a mostrar um Manaus, então oferta de bom amigo brasileiro aportado a Maputo a quem eu perguntara, ignorante, "o que há para ler no Brasil?" neste deserto pós-Nassar?

 

Este livro de contos é excelente. Coisa de ir lá comprar mais, para ler e ofertar a quem se gosta e que mereça bons livros (também há gente de quem gostamos mas não gosta de ler ou lê coisas enfim ...). Muitos dos contos são vagamente inter-ligados, dando-nos um Manaus "desenvolvido", o Amazonas e a Amazónia regredindo, devastados, com o desencanto nada panfletário do autor, sempre personificado por personagens que partem da cidade. Outros vogam noutras direcções, o exílio europeu durante a ditadura, por exemplo. Tudo isto numa escrita rija, imaginadora, que nos põe, leitores, a imaginar o que o escritor finge que descreve, imaginando-o. Coisa de ser lida, como deve ser.

 

Absolutamente imperdíveis dois contos, em particular para quem tenha costela antropológica: "A natureza ri da cultura", afrontador do intelectual que se quer apropriar da cultura indígena para a defender mas, muitíssimo mais do que isso, defenestrando em escassas frases o afã "tradutor" de tantos encartados defensores que pululam. Um texto que daria para um honoris causa, só por si. E "Manaus, Bombaim, Palo Alto", também bom para antropólogos mas não só, das melhores coisas que já li sobre a Índia, sua sociedade e percurso  (e, ainda por cima, com uma leve essência a la Borges, que só lhe fica bem). Só um pequeno exemplo, desse breve conto [que deveria ser obrigado nos manuais de leitura de todas essas capelas da lusofonice]:

 

"Tentei exorcizar a situação embaraçosa com uma pergunta: tantas línguas vivas não ameaçavam a unidade da nação indiana?

 

Essa é uma das nossas riquezas, afirmou o almirante. Nossas línguas são tão ricas e prolíficas quanto os deuses, embora seja difícil acreditar em milhares de divindades. Quer dizer, difícil para um ocidental."

 

Uma escrita excelente, um livro óptimo. Deixo mais um trecho, para ser ver a pujança do homem Hatoum: "Anos depois, num fim de tarde, eu acabara de sair de uma vara cível, e passava pela avenida Sete de Setembro. Divagava. E já não era jovem. A gente sente isso quando as complicações se somam, as respostas se esquivam das perguntas. Coisas ruins insinuavam-se, escondidas atrás da porta. As gandaias, os gozos de não ter fim, aquele arrojo dissipador, tudo se vai esvaindo. E a aspereza de cada acto da vida surge como um cacto, ou planta sem perfume. Alguém que olha para trás e toma um susto: a juventude passou." (13)

 

Obrigado Omar, por, em tempos, me teres dado a conhecer este Hatoum.

 

 

 

 

publicado às 00:40

Police

por jpt, em 03.01.15

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Ao longo destas últimas décadas tenho-me perguntado, e muitas vezes ao volante, quando apanho uma música de Sting no rádio (só ouço rádio quando conduzo e só o ouço na rádio), qual a razão de tanto ter gostado dos Police quando era miúdo. Sim, a gente evolui, e deixa de gostar de coisas do antes, ainda que as acarinhe por saudades "dos tempos". Mas se hoje, vetusto, posso gostar de Bee Gees (o "disco" Bee Gees era, afinal, uma delícia) não tenho qualquer paciência para as "stinguices".

 

Mas agora mesmo apanho no youtube este concerto Police (de 1980 - o ano em que os vi no estádio do Restelo, um concerto que adorei, e que inclusive me teve efeitos sanitários). E percebo porque gostei e gosto de Police. Isto mesmo, sem os embrulhos que vieram depois .... a anunciarem o maldito multiculturalismo, new age avant la lettre, acho ...

 

publicado às 00:10


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