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A tragédia de Chitima

por jpt, em 12.01.15

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A agora acontecida tragédia de Chitima (no Songo, província de Tete) é avassaladora. Os mortos já são 63 e o número tende a subir, com inúmeros hospitalizados. Tudo provocado pela ingestão, em festividade, de pombe, bebida artesanal com base de mapira (sorgo). Um tambor de 200 litros no qual foi misturado um qualquer produto letal. Face a uma desgraça destas convém não especular, e não deixar de fora a possibilidade de um qualquer intuito criminoso. 

 

Mas a ideia que logo brota é outra, é de que terá havido um outro objectivo, o de incrementar a "força" da bebida. Lembro bem do que me avisavam, repetidas vezes, quando cheguei a Moçambique: para nunca consumir bebidas alcóolicas destiladas artesanalmente cuja confecção não tivesse acompanhado. Pois havia o hábito, antigo, de lhe associar múltiplos produtos, por exemplo pilhas, para aumentar o "coice". Terá acontecido isso? Terá sido, pelo contrário, algum produto corrompido? Julgo que em breve se saberá, mas isto é uma verdadeira desgraça.

 

E lembra-me, claro, as páginas iniciais do romance de Lídia Jorge, "A Costa dos Murmúrios", que narra (presumivelmente assente num acontecimento que a autora terá acompanhado na época) uma desgraça similar, um carregamento de alcool que matou inúmeras pessoas na Beira colonial dos tardo-1960s. Belas e terríveis páginas. Para acompanhar este luto.

publicado às 20:46

A fragilidade do "indignismo"

por jpt, em 12.01.15

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Em vários "sítios", em particular nos murais-FB dos sempre habituais resmungões "indignistas", vejo este remoque à manifestação de Paris de ontem. Mentes menos ágeis, decerto, que vituperam  que dezenas de chefes de estado e de governo (com pronunciadas excepções magrebinas, já agora) se tenham concentrado na rua, salvaguardados da imensa mole por razões de segurança - ainda por cima neste contexto. Gente incapaz de perceber o que está em causa e, também, de entender o que é o "simbólico", a sua pujança estruturante. Outros (entre os quais Filipe Guerra, confrade bloguista e mais-do-que louvável tradutor) protestam porque estes líderes (e sua espécie) foram tantas vezes atacados pela Charlie Hebdo e agora aparecem "sendo Charlie" - e não percebem como assim se apoucam. E como até engrandecem os que querem visar, exactamente porque estes se aprestam a homenagear quem lhes "batia" com virulência (ainda que alguns deles sejam de facto muito pouco engrandecíveis). A raiva indignista tolda-lhes a razão e despista-lhes o "postar".

 

Mas não estão sós nem mal acompanhados no fel fervilhante. Outros aprestam-se, vejo também no FB, a mostrar que os francesses massacraram argelinos na sua resistência à independência do país, no entre 1950s-1960s. Apetece dizer-lhes que não foi só aí, que aquilo do colonialismo foi um fartar vilanagem, e não só no Magrebe. E que até há tradição mais longa lá pela França, basta recordar os libertadores franceses que a coberto da revolução das luzes massacraram e pilharam a Europa, a mais o Egipto e não só, quando ao Bonaparte lhe apetecia.  É tudo verdade mas ocorre perguntar, em bom francês, "so what...?". 

 

Afinal nada mais refinado Joe Sacco, o genial panfletário (e sobre o qual meti um texto longo há algum tempo), apanha o torpe comboio e bota este esterco demagógico, cheio de falsificações porque generalizações (entre outras, que será isso do "the muslims"?) ...

 

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Deixemo-nos de coisas, nisto tudo só habita uma ideia central nesta esquerdalhada ocidental, ao sofá. A gente pode gozar como quiser com a religião cristã mas tem que "compreender" a "particular sensibilidade" iconográfica dos "muçulmanos". Um tipo que goze as figuras cristãs (o saudoso Vilhena por exemplo) é um valente iconoclasta, e quem se ofende é um troglodita (tipo o Abecassis quando se irou com o francês "Je vous salue, Marie" daquele Godard). Mas já um tipo que goze as figuras muçulmanas é um vil islamófobo, tem essa doença intelectual. Não ocorre a esta gente, na escalfeta, que é exactamente a "particular sensibilidade iconográfica" desses "oprimidos" (uns sê-lo-ão, tantos outros nem tanto) que apela ao insulto, que exige a iconoclastia, mesmo que esta "sem objectivo" como escarra Sacco. Pois é ela própria o objectivo fundamental, o valor-em-si. E nisso continuo a receber ene emails denunciatórios, que esta gente "jihadista" foi formada e treinada pelos "americanos" malandros, naquilo da Guerra Fria (ah, a imorredoira costela PC/URSS, sempre a funcionar). Mas ninguém desta rapaziada (nem mesmo o Sacco) me manda ou ilustra algo sobre a ateufobia, escassas as referências, quando existem, sobre esta viçosa mania de matar, prender, desvalorizar gente como eu, que achamos que esta superstição dos entes e concomitantes feitiços, milagres e intervenções é tralha a ultrapassar, défice de cabeça. Se descobrem um crucifixo numa escola rural abandonada atiram-se ao ar, se há nova notícia sobre um ateu lixado algures num contexto "oprimido" .... scroll down, que urge denunciar uma repressão cuja culpa seja .... "nossa".

 

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(Foto de Miguel Valle de Figueiredo) 

 

O outro dia fui ao "Je suis Charlie" em Lisboa, não ia a uma manifestação há uns trinta anos. Ali à Câmara de Lisboa, primeiro, depois aos Restauradores. Na primeira até me arrepiei quando cheguei. Pois era o PS, mas como estava com o MVF e o "je suis charlie" era justo aguentei-me com aquela companhia. Estavam todas as figuras gradas daquele partido (não estava o Guterres, decerto que no estrangeiro, e o Sócrates, acredito que na cela) e uma centena de quadros da função pública, daqueles que vão a despacho, entretendo-se, entrefalando-se. Todos encostados à escadaria da câmara, rodeados por um semi-círculo de jornalistas e uma suave segurança ("brandos costumes"). O minuto de silêncio, o erguer do "je suis charlie", meia dúzia de cumprimentos (SEXA Embaixador de França estava presente) e lá foram. Não vi nenhum dos políticos sonoros e sonantes na concentração uma hora depois na vizinha Restauradores. Foi uma concentração para a fotografia, longe da população. Valeu por isso mesmo.Porque foi feita. Se afirmou algo.

 

Nenhum destes indignistas de pacotilha, tantos a patacoarem porque Passos Coelho e Assunção Esteves foram a Paris e a gozarem com a foto dos líderes mundiais (com as tais excepções magrebinas, repito), se ofende ou abespinha com isto. Não lhes dá jeito ao rame-rame. Não há dúvida, pode-se tirar o tonto do beco, mas não se tira o beco do tonto ...

publicado às 18:28

No feedly (24)

por jpt, em 12.01.15

"O alvo do terror jihadista no Ocidente são, na verdade, as comunidades muçulmanas e a possibilidade de estas viverem a sua fé de outra maneira que não em estado de furor inquisitorial. (...) No Ocidente, o objectivo dos jihadista não é zelar pelo Islão, é comprometer os muçulmanos, é impedir a sua integração nas democracias, é estigmatizar o Islão, é reduzi-lo, aos olhos de todos, a uma simples plataforma de terror. Não estamos perante uma lógica exótica. Conhecemo-la dos terrorismos da extrema-esquerda europeia da década de 1970. A tese era que não havia diferença entre a democracia representativa e a ditadura fascista: ambas eram organizações de classe para oprimir o proletariado. A violência dos guevaras de subúrbio estava calculada para provocar a violência do Estado democrático, de modo a que este revelasse a sua verdadeira natureza de ditadura de classe. O proletariado seria assim levado a optar pelo confronto violento. Os jihadistas, com o seu terror, contam pôr o Estado democrático e a diáspora muçulmana na mesma situação de tensão e conflito." 

 

Um muito lúcido artigo de Rui Ramos no Observador, para ler na totalidade. E que permite também perceber o caldo intelectual que produz o tipo de discursos, que logo brotaram, a protestar com a repulsa por este jihadismo, dizendo-o fruto da acção americana, aquando da Guerra Fria, e/ou (a la Ana Gomes) da actual política americana.

 

publicado às 09:06


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