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A blasfémia

por jpt, em 13.01.15

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 (José Vilhena, na Gaiola Aberta)

 

Pensar após o atentado de Paris tornou-se difícil, e nota-se por aí fora. Leia-se José Pacheco Pereira no seu último texto no Abrupto. Há mais de uma década que lhe leio o blog e este será o mais atabalhoado texto que ali colocou: leia-se o parágrafo 3, Pacheco Pereira a assumir, escorregando (?), a velha tese da "democracia formal", isto na ânsia de criticar os poderes actuais e de "relativizar" a questão do "Charlie Hebdo". Num breve parágrafo jpp pontapeia imensas páginas que já escreveu. A comprovar a dificuldade em matizar a radical condenação do acontecido, em misturá-la com considerações da espuma dos ... meses.

 

Atabalhoados também tantos que partilham um execrável texto de Leonardo Boff sobre o atentado de Paris. Em suma, o velho padre, que foi icónico para a esquerda europeia, vem defender a perseguição judicial a quem ofenda os sentimentos religiosos alheios. Entenda-se, à bolina destes acontecimentos o padre apela ao cercear do direito à blasfémia, um direito crucial nas nossas sociedades (a "Europa", o "ocidente", se se quiser), tão custosamente conquistado na história recente. E no surf da defesa do "bom gosto" e da protecção às "vítimas oprimidas" se põe em causa um valor estruturante da liberdade. Não percebem isso os retrógados das "boas causas" que se aprestam a concordar (e partilhar) este "ovo da serpente"?

 

Ao mesmo tempo há neste paternalismo, o dos defensores dos pobres muçulmanos ultrajados, um novo "orientalismo", um postular de défice aos "outros", esses orientais incapazes de viverem com afrontas ao seu sagrado. Tudo bem connosco, cristãos civilizados, temos a estrutura civilizacional para conviver com a blasfémia, para sobreviver ao desconforto da afronta. Já não tanto com os habitantes desse "oriente", dessa alteridade, ainda mergulhados no torpor do sagrado, como se imaturos. É um evolucionismo incauto o que sobrevive no pensar destes "bem pensantes" sempre preocupados com as vítimas da exploração. E, até paradoxalmente, é o maior desrespeito pelas populações muçulmanas, a coberto de um pretenso respeito pelas suas crenças produz-se uma desvalorização dos crentes, como se a sua infantilização, o seu aprisionamento na "comunidade" (de crença, claro), uma desindividualização.

 

Muito disto tem a ver com a pressa. Acima de tudo com a pressa nas leituras. É o mundo do limite dos caracteres, no twitter, nos sms, no facebook. Na "obrigação" do texto curto, nos jornais, nos blogs. No limite também nos textos académicos, reduzindo a complexidade. Tudo isto nos aprisiona na cacofonia. Nos conduz à condensação do que se diz, do que se pensa, ao primado da enxórdia dos "abstracts" e das "palavra-chave". Um dos efeitos mais importantes disso é a amputação dos sentidos dos valores. A gente vive em sociedades que defendem, e assentam, no respeito da liberdade de opinião, e nisso da liberdade de culto. Nessa atrapalhação de leituras, de irreflexão, muitos confundem "respeito pela liberdade de opinião" com "respeito pela opinião". E isso é uma trapalhada intelectual. Defender o respeito pela liberdade de opinião em nada me obriga a respeitar a opinião alheia. Não a posso proibir mas posso pateá-la, não a posso prender mas posso denegri-la, ridicularizá-la. Se caluniar ou agredir os seus defensores os tribunais tratarão do caso. Mas gozar as opiniões, combatê-las, desrespeitá-las, "blasfemar"? É meu direito e, até, meu dever. Depois serei "julgado" (ou seja, avaliado, catalogado) pelas minhas opiniões, pelo minhas anti-opiniões, pelo seu tom e formato. Quanto muito serei alvo de sanções "morais". 

 

Que gente com responsabilidades intelectuais e profissionais não perceba isso só pode ter duas respostas: ou são, para além das retóricas "progressistas" e/ou "libertárias", profundamente totalitários. Ou andam completamente distraídos e mais valia pararem de perorar ao teclado.

publicado às 23:22

Maria Fexionista

por AL, em 13.01.15

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A minha neta Maria Francisca – ano e meio de sorrisos e alegria – tem sido criada com a roupa-sobra do irmão. Convicta que tal roupa pouco ou nada expressa a feminilidade dos seus 50 cm de gente, as birras matinais iniciaram-se mal conseguiu alinhavar uma frase e têm-se intensificado com o Inverno. Caxas não mamã, caxas não. Quero colanchas e por cima das colanchas quero vatido ou chainha. Nada a demove! As caxas são saudadas com pelo menos meia hora de berros espojados pelo chão e no resto do dia arregaçadas até ao joelho num protesto já mudo mas nem por isso menos sentido.

Entrou a correr pela casa dentro Vóvó, vóvó olha!, colanchas novas e vatido com asas de borboleta. Tão linda... e desfila sorridente na passerela da sua fantasia.

AL

publicado às 17:37

Cinema, filmes e audiências

por AL, em 13.01.15

Avisa-me a net, com algum atraso é certo, que celebramos este ano 120 anos de cinema. Nesta veia comemorativa fui dar ao sítio da Tandem Entertainment que, em jeito de celebração, compilou uma breve história do cinema mostrando o deleite de audiências cinéfilas em diversos filmes. Gostei da ideia e do pequeno filme que dela nasceu.Celebremos então 120 anos de cinema com esta delícia!

 AL

 

publicado às 16:27
modificado por jpt a 8/11/15 às 18:13

Momentos prémio Darwin

por AL, em 13.01.15

A propósito deste postal da Helena e do comentário a ele feito lembrei-me de um jantar recente de gajedo e de histórias aí trocadas. Muito riso, pouco siso, muita conversa fiada e no final a certeza que não há grande gesto de amor que valha os inúmeros gestos diários de enamoramento; falham estes e falha tudo. Num momento, num fechar de olhos se passa do amor à indiferença ou alívio.

Reinou nesse jantar o momento do desamor, aquele momento em que percebemos que não há no mundo botox que valha às gelhas da cara metade.

Aquele momento em que percebemos que na cave não mora afinal o nosso inquilino idealizado , mas sim um imbecil militante.

Aquele momento em que olhamos para o lado e pensamos mazondéqueutinha a cabeça?!

O desamor, tal como o amor, acontece quando menos se espera; vem de sopetão e as coisas deixam de ser o que eram.

AL

 

publicado às 16:24

Cheias a norte

por jpt, em 13.01.15

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 (Ponte sobre o Licungo, em Mocuba, desconheço a autoria da foto).

 

Cheias a norte, vejo várias fotografias mostrando efeitos da ira das águas. Aqui o estado actual da ponte de Mocuba que eu conheci assim, 

 

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e sobre a qual, em tempos, botei um postal

 

Isto das cheias a norte lembra-me sempre, com nostalgia, de um trabalho que fiz há muito tempo exactamente durante umas cheias. Há mais de dez anos botei no blog um texto sobre isso, e guardei-o aqui, junto com outros. Repito-o agora: 

 

Nas cheias do Zambeze

 

De Quelimane ao rio Chire quase vai um dia. Dois camiões atolados há já 15 horas vedam a estrada, rodeados de uma meia dúzia que tapa todas as irreverentes opções. A surpresa de aí encontrar um mui recente ministro português, simpatia enérgica a gerar o desentupimento. No contraste com a minha displicência de Rothmans feita sinto os determinismos psicológicos. Há quem tenha o dom do poder e outros, como eu, olhamo-lo, quase sempre de viés. Esperando que milho e madeira desçam das viaturas converso com um indo-descendente, dez anos comerciando entre a Moita, o Laranjeiro e a Costa da Caparica. Ao “porque raio voltaste?” solta um “que sentido tem aquela correria?”: não há-de ser esse cofió a separar-nos, Adam! Algo envergonhado conta-me que, farto da espera, pagou 400 mil meticais para se descarregarem os camiões. E estes, logo que menos pesados metem a primeira velocidade e saem calmamente das suas covas. Rio-me de mim, qual psicologia, qual poder do Grande Homem Branco: “É a economia, estúpido!”.

 

Um padre na estrada, desses de décadas de mandioca e feijão com bicho, guerras, água morna, falhanços, malárias, que fazem este ateu sentir-se um pouco mais pequeno do que já é. Irritado, o velho! Narra o episódio do padre italiano que morreu há dias, arrastado nas cheias ao tentar levar doentes ao hospital. E do seu colega partindo em busca do corpo, irregulares caminhos, margens lamacentas, atolado vezes sem conta, o cansaço sem desespero da gente de fé. E do seu regresso, ainda sem sucesso, onde a polícia o multa em um milhão de meticais, que isso de nas buscas ter caído a chapa da matrícula…até pode ser verdade mas não apaga a ilegalidade.Determinismos culturais? Tradição, culto dos mortos, ritos prescritivos, enterro lá no lugar dos antepassados? Que idealismo, “é a economia, estúpido!”.

 

 

Perto de onde era o batelão do Chire, pequena travessia por roldanas, é agora uma infindável planície de água, bordejando a aldeia Pinda. As primeiras casas distam 50 metros planos do rio. Felicidade pela inesperada presença de Ventura, o meu motorista, pastor da igreja evangélica que aí professam. Numa pobre capela de pau-e-pique uma breve e alegre oração conjunta. Faço um apelo a que partam para zonas mais altas, pois as chuvas a oeste e as descargas vão aumentar. Já o administrador o disse mas não vislumbram razão para tal, nas cheias de 1978 as águas não ultrapassaram aquela árvore acolá, guardiã da secura a 20 metros da povoação. Empirismo puro, para racionalista aprender! Intercedo junto de Ventura para que os convença. Responde que não o fará, aquela gente não tem tecto noutro sítio e as suas machambas estão ali. Para onde irão?Fatalismo, inconsciência? Mais uma vez, “é a economia, estúpido!”.

 

Para trás ficou Quelimane, onde a beleza das mulheres até magoa. E testemunha, sem essas coisas do genoma, que a mistura das gentes é bonita. Nas esplanadas da cidade vou indagando como vivem as meninas que passam. Perguntas cujo caroço, vejo-o agora, é o sentimento de que dói menos uma mulher menos bela ser prostituta do que uma mais bela. Imoral moralismo! Que não, dizem-me, mesmo sendo ali porto isso não é mais generalizado do que noutros lugares por esse mundo fora. Mas lembram que muita rapariga procura um marido que a tire dali. Lembro o Primeiro Dia de Mafra, com o longínquo aspirante Boieiro aos berros, qual vedeta de Hollywodd, apelando à rusticidade pois os piores classificados iriam parar às ilhas “de onde virão casados”. E o frémito de horror que percorreu o ainda informe pelotão, imaginando o casamento com uma açoriana. É o mesmo, a troca do isolamento geográfico por outros isolamentos. Neste combate à lonjura, “é a estúpida economia” dos afectos, estúpido!

 

Gurué, verde montanhoso na falsa beleza da monocultura. Modernos rumores de futura indústria de capulanas bem nas nascentes do Licungo, todas essas tintas navegando até ao Índico, dando de beber às gentes, colorindo a Província. “É a economia, estúpido!”. Avaria madrugadora, marcho durante horas provando o envelhecimento. Uma moto passa e há-de voltar já liberta do pendura, um miúdo que me transportará para a cidade. À proposta de lhe “pagar o combustível” o jovem extensionista rural de Mocuba ri-se e diz-me “ó seu estúpido, nem tudo é economia”, que um dia o hei-de safar algures. Obrigado Felix dos Santos, pela boleia e pelo alívio.Por todos estes sítios se encontram europeus.

 

Cooperantes, velhos cooperantes, ex-cooperantes, neo-cooperantes. Ali e acolá um comerciante, até um empresário. Tal como no sul toda essa gente vai partilhando cereais destilados e a opinião que a actual cooperação não ajuda o futuro do país, que algo tem de mudar. Estarão eles enganados, tal como os moçambicanos que de o acharem até já estão fartos de doadores? Sem respostas nestas noites distritais, lembro-me do meu pai e trunco-lhe as palavras: “a democracia é o alcatrão e a electricidade!”.Mas vai-se dizer isso, arriscar os empregos de expatriado ou os clientes de dolar no bolso? Deixar andar, “é a economia, estúpido!”.Risonhos, vêm centenas de homens na estrada. Logo procuro saber que se passa e do aglomerado ouço, espantado, “Maharishi”. Desde há alguns meses 1700 jovens meditam 4 horas diárias em troco de 270 mil meticais mensais. Pasmo, que raio, receber para meditar! Resquícios cristãos, a noção de que o transcendente exige pagar ao intermediário com o(s) espírito(s). E porquê assim, porque não o contrário? De facto, “é a economia, estúpido”, como tirar os homens do trabalho sem os compensar, quando vivem no limiar da economia de subsistência? E face aos que ainda agitam uma idílica agricultura tradicional vejam a sua desnaturalização, pois meditar potenciando equilíbrios pressupõe os desiquilíbrios. E talvez possibilite outros sincretismos, renovações, transformações. Por eles, coisas bem locais. Porque a mentalidade, essa “economia, estúpido”, coisas feias e bonitas, agradáveis ou não, está aí omnipresente. É deixá-la ir, e ainda bem que auto-meditada.

 

Tenho que partir, mas a vontade é quedar-me por lá! Fica a esperança no sucesso desta ideia. Repito-me, se aliada ao “alcatrão e electricidade”, parece bem mais promissora que tanto “desenvolvimento” semi-importado.A norte, onde o Zambeze só dá o nome à província, o Alto Molocué, pequena vila dividida por esse rio. Vizinho da pequena ponte o Fotógrafo Soares, “fotografia tipo B.I”. Não resisto, desço as escadas, minto-me de colega e peço para fotografar. O velho fotógrafo, com o caudal em casa, dá-se à imagem junto dos seus. Proponho que saia dali, é visível que as águas vão subir. Calmamente aponta umas frágeis canas, habitual limite do rio, e às quais em breve este retornará pelo que não vê necessidade em partir. Respeito, mudo a conversa, responde-me que o negócio vai normal, mas que não chega para nova casa de tijolo. Ficará acompanhado da família, feita dique moral. De novo, “é a economia, estúpido!”.A casa desabará meia hora depois, a água cobre a ponte. Lembro o padre e, aqui inútil, cruzo-a rumo ao Maputo, à Inês. E à notícia da morte de C. Geffray. Fica este país, agora desprovido de longínquo e magoado saber, mais pobre. Porque nem tudo, estúpido, é economia.

 

(Março 2001)

publicado às 07:40


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