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Para um dia de um desabafo destes a banda sonora só pode ser esta, a dos grandes King Crimson (esses desde os anos 80 ...)

 

 

publicado às 23:59

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 (foto do Luís Abelard, um amigo que faz saudades)

 

Sabia que o regresso a Portugal seria difícil. Durante os últimos anos fui muito solicitado por compatriotas (conhecidos, conhecidos de conhecidos, totalmente desconhecidos [auto-estrada do google]) com pedidos de ajuda para emigrar para Moçambique - como aqui narrei, pesaroso por não poder ser útil à esmagadora maioria. Mais que não fosse saberia por isso que para a gente da minha área (antes dita "humanidades") isto não está nada fácil. Quando há alguns meses decidi voltar ao país logo um amigo me escreveu "andas sempre em contraciclo", anunciando-me dificuldades. Escrevi então a algumas pessoas, que me aconselhassem o "que fazer?". De muitas recebi o silêncio - 18 anos fora é muito tempo, e a vida é a merda que é, e nós também o somos. Mas de outros amigos recebi então, e depois após aqui chegado, um apoio constante, como se irmãos uterinos, e queridos, fossem. Eles sabem quem são, não vale pena escrever-lhes o nome ("taggá-los", no português actual). Apoio companhia, e apoio profissional.

 

Enquanto termino a escrita de um trabalho que trouxe de  Moçambique meti-me a fazer um tardio doutoramento, em Antropologia no ISCTE. Não para ostentar o penacho do PHD, mas por razões pragmáticas: hoje em dia já tenho vários antigos alunos meus doutorados e, ainda que isso me dê muito  prazer, na concorrência no mercado laboral a profusão de graduações das novas gerações estralhaça-me. Para isso, sonhando fazê-lo rapidamente, pedi uma bolsa de investigação à Fundação de Ciência e Tecnologia, em Setembro passado, e comecei a frequentar aulas. 

 

Os juris de avaliação dos pedidos de bolsa reuniram em Novembro passado. Os resultados foram agora divulgados - dois meses depois das reuniões. Sim, dois meses depois!!! Em 2014/5 um departamento do estado português leva dois meses a comunicar aos investigadores científicos o resultado das suas candidaturas ... A minha candidatura não foi avaliada, um erro no processo de inscrição. Não fui só eu: o programa de inscrição de candidaturas da FCT é fraco, e permite erros na colocação das áreas científicas. Ouço dizer que há problemas semelhantes no sector de Engenharia. E sei que na minha área disciplinar, a Antropologia, houve imensos erros devido à falibilidade do sistema. Por isso este ano nesta nossa área de Antropologia houve mais candidaturas a investigações de doutoramento e pós-doutoramento não-avaliadas (liminarmente recusadas, por motivos informáticos) do que avaliadas (entre as quais se seleccionam as que serão financiadas). Uma desgraça, em termos disciplinares. E a comprovação, empírica, do mau desenho e péssimo desempenho daquele sistema informático.

 

Passei o fim-de-semana com isto na cabeça, a fingir-me inteiro - a desentender-me com as pessoas queridas que me rodeiam, que pouco disto perceberão. E a almoçar com a senhora minha mãe, que nada disto sabe. E a falar com a menina minha filha, lá em Bruxelas, que nada disto imagina. E a encenar-me carro de assalto blindado, como se esfuziante numa ida ao estádio de Alvalade. Hoje de manhã fui à FCT pedir informações sobre a possibilidade de pedir a revisão do processo. E por revisão entenda-se ser avaliado, apenas saber da hipótese de um hipotético financiamento. Que o fizesse, disse-me a diligente e simpática funcionária, que não desistisse, insistiu, humana. Mas avisando que o processo demorará dois ou três meses, nunca menos.

 

Saí para o ISCTE, tenho que acabar quatro textos, tarefas que me cabem no congresso da semana que vem, actividade inscrita neste eixo de actividade. Trabalho que me obriga a pagar uma jóia de 100 euros, hoje último dia por favor especial. Não, não ganho pelo trabalho, pago para o poder fazer! Para cumular este ramalhete ...

 

Desisto, avanço para casa. Elísio, que veio de Maputo em trabalho, ficou cá hospedado. Trouxe uma Jameson. Bebo meia dela na tarde, esqueço os textos (esses que tenho que pagar para os ler). E vou para a net, candidato-me aos primeiros dois postos que vejo: um em Moçambique, mas sei que será muito difícil obtê-lo, a começar pelo visto de trabalho, sempre tão difícil para um português. E a um outro, uma vaga vista na rede Linkedin, um posto no Afeganistão. Depois paro, bebo mais um Jameson, lembro-me da Carolina em Bruxelas nos seus 12 anos. E lembro-me, ainda mais, que tenho 50 anos - se calhar a minha época de afeganistões já passou. E como não teria sequer hesitado antes dela nascer.

 

Depois recordo-me do que disse o outro dia a um amigo, solidário, a oferecer-se para ajudar, "dispõe pá, não te ponhas com coisas ...", apesar de também ele agora na mó de baixo: "isso do orgulho é coisa de XX. Neste XXI não o podemos ter, ao orgulho". E associo-lhe a velha pergunta: "para que serve um blog?". E respondo-me: para procurar trabalho. 

 

E assim sendo: se alguém que passe por aqui souber de um trabalho disponível faça o favor de me avisar. De preferência fora daqui, foda-se.

 

[O meu currículo vital está aqui - e o meu e-mail está lá colocado].

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publicado às 17:35


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