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O presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, prestigiado cientista, candidatou-se e ganhou um prémio de investigação. Recebeu hoje o prémio tendo apresentado ontem a sua demissão do cargo. Presumo alguma influência do prémio obtido nesta renúncia, talvez uma reflexão neste âmbito - talvez essa devesse ter sido anterior à candidatura, mas enfim, que todos os erros sejam estes, provenientes (também) de superior competências. É importante notar que o prémio é atribuído a uma equipa, de extraordinários méritos, coroando um trabalho de longo prazo. Não estamos, portanto, diante de uma perversa manigância. Mas, quanto muito, de uma situação algo desconfortável.

 

Neste episódio apenas me ocorreu uma dúvida: quanto tempo terá demorado a deliberação respeitante ao prémio científico em causa, atribuído por um consórcio entre uma empresa privada e o conselho de reitores português? Informam-me: as candidaturas a este prémio privado foram entregues até 31 de Outubro, o prémio entregue hoje.

 

Interessa-me isso por questões pessoais. Já aqui contei a história. No dia 30 de Setembro de 2014 eu (e tantos outros) apresentei uma candidatura à FCT, presidida por Miguel Seabra. Em meados de Janeiro de 2015 tive resposta negativa, devida a uma trapalhada informática que a tantos atingiu. Pedi (e tantos outros, em várias áreas) a revisão do processo. Em finais de Março fui informado que "lá para meados de Maio" teria resposta sobre o pedido de reunião (necessária para a tal revisão do processo). Depois, com toda a certeza, virão os "santos populares" e o final do ano lectivo a atrapalhar os calendários dos académicos "avaliadores", sempre "cheios de trabalho" (é a ideologia dos professores universitários, sempre a invocar o excesso de trabalho). E depois o Verão próprio ao veraneio. E um ano terá passado, a vida encurtado.

 

Dito isto: considero perfeitamente legítimo que a equipa de trabalho, há anos coordenada pelo investigador Miguel Seabra, se candidate a prémios nacionais. E que inclua o nome do seu prestigiado coordenador. O facto de este ter sido elevado a presidente da FCT não deverá punir a sua (excelente) equipa, apoucar a repercussão do seu trabalho, reduzir-lhe as possibilidades de financiamento. O que não considero legítimo é que os juris da fundação estatal presidida por Miguel Seabra sejam tão mais lentos do que aqueles que o premeiam enquanto investigador de enorme mérito.

publicado às 15:32

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(Morgue de Garissa, Reuters/Noor Khamis)

 

O massacre de Garissa pelo exército do al-Shabaab é indizível. A morte de cerca de 150 jovens universitários por razões totalmente absurdas não é assunto comentável. Só hoje, vários dias depois, arranjei  estômago para ir ler algo (deixo esta ligação, pungente, indiciando que tudo poderia ter sido evitado). E nada mais me ocorre escrever sobre este drama.

 

Mas sim sobre os que me rodeiam. A quantidade de teclistas a protestarem "onde estão os je suis charlie agora?". Na aparência defendendo a extensão (a universalidade) dos sentimentos de solidariedade. Mas na prática apoucando (e querendo apoucar) o sentimento de repulsa acontecido há meses. Na aparência procurando demonstrar um maior conhecimento e atenção sobre paragens geografica e socialmente longínquas. Mas na prática mostrando um muito maior desconhecimento. Certo, neste massacre religioso tudo é mais doloroso. Não só por terem morrido 15 vezes mais pessoas. Mas porque são jovens - e bem mais custoso é o assassinato de alguém com 20 anos por ser cristão do que o de um octogenário no seu posto de trabalho e sua causa, por mais vil que este seja.

 

Mas apoucar a solidariedade acontecida é outra coisa, é refutá-la. Negando esta realidade, isto das intensidades concêntricas das solidariedades e das comoções: uma catástrofe nas Baleares (longe vá o agoiro) chocar-nos-ia (aos portugueses) mais do que se nas Aland. Portugal esteve agora cheio de notícias e comentários sobre o avião alemão que, desgraçadamente, foi abatido pelo co-piloto. Há um ano aconteceu exactamente o mesmo com um avião moçambicano (e com portugueses a bordo). Provocando muitissimo menos brado. O mundo está mais pequeno mas ainda é grande. E isso não nos faz necessariamente hipócritas. Nem desatentos. O evidente cinismo dos "onde estão os je suis charlie agora" sim.

 

Também por isto, e que será o mais importante. A reacção global ao atentado de Paris resultou da comoção mas também, e decerto que fundamentalmente, pela reacção mediática e política. Seja a do estado francês seja a dos seus aliados e organizações em que está inserido. Se é certo que os media quenianos são menos influentes e que a atenção global sobre África é menor há um ponto muito relevante: a reacção do estado queniano (titubeante no capítulo da resposta armada) é muito mais frágil. E bem menos vigorosa, simbolicamente falando,a das instâncias internacionais africanas. E é isso que constrói as reacções da opinião pública, não apenas os bons sentimentos.

 

Também por isso não vejo o meu mural de facebook, com milhares de ligações moçambicanas, pejado de afixações e dísticos sobre a matéria. E os moçambicanos sabem onde é África, e por ela se interessam. E a África oriental. E sabem onde o Quénia. E interessam-se pela coexistência intranacional de vários credos, em particular de cristãos e muçulmanos.

 

Por isso todo este fel português dos "onde estão os je suis charlie agora?", "não sabem onde é África" e etc.?. não passa, bem lá no fundo, de mero cinismo. Ele sim distraído. Sem saber onde é (como vai) África. E, em última análise, hipócrita: pois o que lhes importa mesmo é usar as desgraças do mundo para cutucarem, ao teclado, o vizinho do lado, nisto da resmunguice lusa. Essa sim a negação da comunidade de todos nós.

 

 

 

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publicado às 08:15


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