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Clint, "o faxista"

por jpt, em 09.06.15

The_Enforcer.jpg

 

Revi ontem na TV "The Enforcer" (1976), o terceiro filme da série dita "Dirty Harry". Um tipo só e sozinho a olhar na tv para um filme que já viu ene vezes distrai-se e põe-se a barafustar com os tipos que ali o rodeiam. Antes de tudo o filme parece ter envelhecido imenso. Ou por outras palavras, Clint (mesmo que não seja ele o realizador) nunca foi um realista - como o prova a célebre cena do boneco-bebé do último filme, que fez os parvos ulularem. Por exemplo, agora aquelas perseguições a pé, a quererem-se labirínticas ao som de um smooth free-jazz, não provocam qualquer frisson, apenas o carinho que a visão de uma antiquíssima paixão provocará. Já para nem falar dos tiroteios ou da rigidez do próprio Harry quando se movimenta ...

 

Depois um tipo fica a olhar a ideologia que ali anda. O lonerangerismo, a coisa western, que é uma constante do cinema americano e do individualismo constitutivo do país. Nisso o culto do Magnum 44, arma contra os patifes, contra os criminosos de delito comum (street wise) mas também - indirectamente - contra os possidentes, burocratas e políticos (white-collar). Uma deriva populista? A ver vamos.

 

Qual o verdadeiro conteúdo deste filme (de 1976, repito)?

 

a) Harry Callahan, o dirty inspector, perde o seu parceiro, este assassinado (os duetos policiais são estruturantes, tal como o são em alguma banda desenhada). Recebe, contra a sua vontade, uma mulher como parceira (protagonizada por Tyne Daly, que depois se celebrizou num folhetim policial). Destrata-a, misógino machista, vil. E logo (no espaço de uns breves dias) criam uma parceria crucial, celebrando o pundonor e competência da nova inspectora, heroicamente martirizada no final, sem que tenha perdido a sua vertente feminina (tão expressa nas vestes que usa) - ou seja, a extrema competência sem nunca precisar de mimetizar o estereótipo masculino. Quer-se mais, ainda para mais num "filme de género", como gender bias? Este, ainda para mais daquele tempo e no registo que assume, é o filme radicalmente mais feminista que já vi.

 

b) Os criminosos reclamam-se Força de Ataque Revolucionária do Povo, etc e tal. Na prática são uns revolucionários de pacotilha, em busca do vil metal, white trash se se quiser. Os burocratas e políticos que comandam a polícia logo acusam um grupo de reclamação dos direitos negros (o filme é dos anos 70s, birepito). Cujos membros Clint/Harry já contactara, com a particular falta de elegância que o caracteriza, e já com eles se associara (uma associação que continuará no filme seguinte da série), percebendo-os como firmes contestatários mas não criminosos (enfim ... alguns desvios de mobiliário, uma pequena posse de droga, coisas de homens do mundo), e inocentá-los-á. Dá para compreender? Não só a dimensão "racial" do texto explícito como também a ideológica?

 

40 anos depois? O Clint é "faxo", dizem-me os/as enfeitiçada/os com o falo Magnum 44, como se este realidade falocrática e violadora ... Que pobreza. Até erótica.

publicado às 17:36

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo, exposta em  Prevent'Art Lx44, Maio-Junho 2015)

 

Não é a primeira nem a segunda vez que o nosso MVF (Miguel Valle de Figueiredo) se junta em dueto com o Miguel Barros (o "nosso" MB), e ambos se expõem, em conversa de fotografia e pintura, que é também de junção de amizades. Daquelas veras, feitas de entranhas manas, sensibilidades aparentadas se se quiser ser fino. Diálogo. Agora instalaram-se, a evocar invocar uma Lisboa que vive dentro deles, conversa que decorre durante este mês nas paredes da galeria Movimento Arte Contemporânea (na Álvares Cabral, ao Largo do Rato, até 26 de Junho). O arrojo foi-lhes ao ponto de não apenas habitarem paredes a meias, polvilhando-as com as suas obras, mas de também juntarem alguns "coisas", dizendo-as dípticos, trabalhos conjuntos, nacos das suas lisboas em modalidade foto/pintura, e a gente, nós próprios, que lhes encontre o fio associativo se conseguir(mos) - e é assim mesmo. Assim fica-nos um momento que vem a três tempos: as fotos, as pinturas, as conjugações.

 

Nisto d'aqui-agora não venho avaliar ou aquilatar. Apenas assinalar (e, claro, num "vão ver"). Por lá estive, numa animadíssima inauguração, horas a fio (Lisboa ainda existe!). Durante a qual me deixei a entrelaçar, à minha maneira, o que os junta, os excertos e feixes que aqueles dois partilham. A espantar-me, devagar, como os tipos, tão longe um do outro (e tão diversos, para quem os conhece), dançam bem no diptiquismo assim enlaçando a cidade. Ao Miguel Barros conheci nos finais de XX, quando apareceu uma exposição dele em Maputo, ali excêntrica. Depois ele emigrou, Angola e Canadá - daí que esta sua Lisboa é uma "lisboa", a sua de longe, nacos e nichos, cores e linhas (horizontes) lembradas, talvez sonhadas, retrato dele próprio, acariciando (lambuzando, diria, se não parecesse mal) este lisboeta também ex (e espera-se que futuro) emigrante, décadas a assomarem-me estes feixes da cidade amada mas sem os saber expressar assim.

 

Mas pior mesmo ao visitante, "olhador" incauto e plácido, as fotos do MVF, esse que acompanho há 30 anos. Um olhar aqui cruel, avisando-nos ser apenas horizonte o que pensamos real porque julgando-o "ali/aqui mesmo". Desvendando, em meros clichés, o que alguns poderão pensar apenas esconsa realidade. Há algum tempo aqui mesmo disse que ele desvendara a Ilha de Moçambique como nunca a conseguira encontrar (está aqui), e apenas passara ele por lá durante uma semana, lente bistúrica nas mãos. 

 

Agora, olhando a sua terra, a sua cidade, olhando-me e aos outros, bota, entre tantas outras, esta abissal fotografia - esta que ilustra o postal. Nunca vira, nunca lera, o teu país (ó MVF), o meu país, tão expresso. Um tipo sai dali, da galeria, arrasado. E por isso o depois ... 

 

Um abraço a ambos. Mas sem obrigado para ti, ó MVF. Pois a gente tem direito às ilusões. E tu as destróis, malvado.

 

Fica o aviso. Para os que tenham coragem - vão até lá.

publicado às 16:27

Noivado em S. Domingo, de Kleist

por jpt, em 09.06.15

Noivado em S. DomingoNoivado em S. Domingo by Heinrich von Kleist


Outro dos livros obtidos nos extremos saldos da Feira do Livro de Lisboa, apenas dois euros por este exemplar. Uma pequena novela tardia (publicada no ano do suicídio do autor), deixando antever a deriva que lhe ocupou o ocaso. Será uma reflexão do tempo, romântico, sobre o que preenche a ética do amor e da lealdade.

Mas é a trama que apela a atenção: um breve episódio decorrido na revolução independentista no Haiti - e o quão interessante é perceber o racismo implícito nos textos que, até dois séculos depois, continuam a reduzir a "revolta" aquele evento histórico. Uma fugaz e abissal paixão entre um branco e uma negra é o horizonte, como o amor poderá enfrentar o conflito de grupos, como se um Romeu e Julieta colonial. Interessa como Kleist transporta uma visão da porosidade dos grupos em conflito: de um lado os acossados brancos, que não são exactamente do grupo francês colono - pois o amante Gustav e sua família Stromli são suíços. Do outro a amorosa Toni, que é também algo excêntrica, pois uma mulata.

Mas a visão da época (longa) é ainda mais interessante. O conflito que anima (e produz) a trama é apresentado como entre a crueldade negra, corporizada no líder, o "velho e terrível" Hoango, escravo que "na juventude parecera ser de índole fiel e íntegra" pelo que "fora cumulado de inúmeros benefícios pelo seu senhor", algo que não chegara para aplacar a "ira deste homem feroz". E também pela sua mulher (concubina) Babekan, traiçoeira e vingativa, e mãe da bastarda mulata. Certo é que alguns dos franceses proprietários escravistas, concede Kleist, tinham algumas atitudes excessivas, mas o conteúdo é que nada justificaria a dimensão da revolta. A qual faz perigar Stromli e sua prole, ali apresentados como valorosos e justos. A plácida, e até naturalizada, visão da escravatura, nada mais. Mesmo paternalista, como o XX lusófono (lusotropical) veio a teorizar.

 

A figura mais interessante é Toni, a mulata clara, bastarda repudiada pelo pai biológico, enteada do velho Hoango, corajosa e ardilosa no seu apoio ao seu amado e familiares, abandonando a fidelidade ao seu grupo de origem, os tais malévolos escravos negros revoltosos. Pois, como diz ela no final, "sou uma branca", numa inflexão identitária tão sonora. E que mostra como o texto, apesar do olhar de época de Kleist, serve para elucidar sobre os jogos identitários acontecidos, esse aclarar da raça que tão presente foi.


publicado às 12:43

Boat people

por jpt, em 09.06.15

boat people.png

 

Assisti ontem a um interessante debate sobre a vaga migratória no mar Mediterrâneo, precedido de um pungente filme maltês sobre as desgraças acontecidas. Mais me apela ao bloganço o debate acontecido, um pouco na sequência do fluxo de notícias e comentários dos últimos tempos sobre esta matéria. Fundamentalmente porque muitos dos argumentos pró-abertura total das fronteiras me fazem torcer o nariz. Sei que esse meu franzir do cenho leva muito bom lisboeta a meter-me logo no grupo dos "xenófobos nacionalistas" (e de nada servirá puxar dos meus galões de imigrante durante duas décadas ... e de futuro imigrante, se esta carcaça aguentar).

 

Quando eu era miúdo foi a vaga "boat people", fugidos ao comunismo vietnamita. E bem depois a dos fugidos ao comunismo cubano. Memórias tétricas, um bocado apagadas pelo tempo. A gente sabe das vagas "road people" going north na América e going south na África abaixo do Sahel. O pior agora é a vaga boat people dos rohingya, fugidos da Birmânia - pior, acima de tudo, porque abanam o argumento europeu, o da primazia da malvadez ontológica europeia (as known as ocidental). Pois hoje em dia a questão apela a isto: a União Europeia é má pois não abre as portas. Que a gente diga isso tudo bem, a cada um a sua verborreia. Que um diplomata estrangeiro venha dizer isso, ainda que num quase jocoso tom, num debate lisboeta chateia-me.

 

São as fronteiras artificiais? São os fluxos migratórios uma constante da história? Ok, ok. São os migrantes todos refugiados, de algum modo? Hum ... isso é um patois de agit-prop, e de ong em busca de subsídio. Mas sim, de certa forma, também é uma verdade substantiva.

 

Mas acima de tudo esta ladainha do "direito ao asilo" esconde duas coisas. A primeira é a apetência pelos fluxos de mão-de-obra barata (e tendencialmente dessindicalizada) - ontem mesmo uma das participantes no debate referia a crise demográfica europeia e a necessidade de mão-de-obra para manter os "nossos" sistemas. A esquerda (bem-intencionada, e assim demoníaca como sempre) nem resmunga diante destes argumentos, preocupada a fazer piquetes contra os "xenófobos nacionalistas".

 

A segunda coisa escondida, que não dá jeito nenhum à conversa arejada e multicultural, é o direito ao "desasilo", ao direito às pessoas viverem onde estão, de onde "são". E isso implica pensar, neste mundo confuso, no direito à ingerência, em intervir alhures, em modelo subordinado ao desenvolvimento e à oposição aos regimes e movimentos rapaces. Ora isso choca sempre com aquilo de (estes) europeus sempre criticarem as intervenções externas e as não-intervenções externas desenvolvimentistas ou militares, sempre vistas como neo-coloniais ou neo-imperialistas. Pois faça-se o que se fizer o fundamental é criticar o poder de cá, o "nosso". É uma cosmologia umbiguista, evidentemente. E, claro, apoiar que essa gente venha para "cá" fazer os trabalhos que a gente não quer fazer, e ter os filhos que a gente não tem.

 

É cool. E nada imperialista, já agora ...

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publicado às 00:43


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