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Os limites

por jpt, em 28.06.15

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(A mulher ajoelhada vai ser assassinada com um tiro na cabeça, acusada de adultério. A seu lado o pregador, ali líder. Há um filme disponível mas não o reproduzo aqui.)

 

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 (Em Mosul um homossexual vai ser defenestrado mortalmente. Há imagens subsequentes, para quem precise de as perseguir) 

 

Há uns meses, após o atentado em Paris contra a revista "Charlie Hebdo", um ícone da esquerda cristo-marxista, Leonardo Boff, publicou um miserando texto apelando à censura e à auto-censura, afrontando o direito à blasfémia. O coro das concordâncias logo começou - eu mesmo assisti, pouco tempo depois, a um debate sobre o assunto no Museu Bordallo Pinheiro em Lisboa, em que o moderador, o então presidenciável Guilherme de Oliveira Martins (presidente do Centro Nacional de Cultura), e que "toda a gente" em Lisboa muito respeita, culminou em tom suave explicitando exactamente isso: que há limites (de "inteligência" e "bom gosto") à blasfémia. Sem que algum dos participantes (3 conhecidos cartonistas) ou ouvintes (uma sala cheia) se insurgisse, apesar do mui solidários que ali se apresentavam ... Entenda-se, no início do debate um dos espectadores explicitou muito bem quais são os limites à liberdade de expressão: os estabelecidos na lei. O antigo ministro socialista (e quiçá futuro) sorriu cordatamente, concordou, e conduziu o debate culminando, com o mesmo sorriso cordato, explicitando exactamente o contrário. A audiência, nitidamente do gauchisme pequeno-burguês (intelectuais liberais [aka franco-atiradores] e funcionários públicos), que enchia a sala, aplaudiu sob a hipnose que lhe é característica. O único espectador com arcaboiço (o que falara no início) já saíra e eu não tive armadura moral para pontapear a perfídia do ministro guterrista ("toda a gente em Lisboa muito o respeita", e isso massacra este torna-viagem).

 

Entretanto no muralismo-facebuquista o texto do padre Boff tinha sucesso. Os mais indignados dos indignistas partilhavam-no entre loas. Para mim foi "cada tiro cada melro", cada um que o partilhava era cada um que eu apagava das minhas ligações, e a alguns com verdadeiro espanto em encontrá-los assim. Podemos concordar ou discordar com algumas questões mas isso não nos afasta radicalmente do contexto democrático (como exemplo crucial, a pena de morte). Mas o direito à blasfémia é outra coisa, é um dogma da democracia, basilar. Pois nesta, como então tão bem disse Nick Clegg, à época vice-primeiro-ministro britânico, "não temos o direito de não sermos ofendidos". Por isso para mim, talvez num dia de particular mau humor, nem dúvida houve: cada tipo/a encantado com o totem da "teologia da libertação" a pregar os limites à blasfémia estava para além da democracia, aparecia como um arauto da censura, um colaboracionista. Não os quero à minha mesa da taberna. Que vão pregar "alter-globalizações" para as masmorras. Democráticas.

 

Avante. Lembrei-me disso nesta madrugada. A propósito da actual crise grega vejo pessoas conhecidas, e até um querido amigo, a dizer que "as instituições europeias" ou a "troika" são tal e qual / piores do que o ISIS. Tão terroristas como ... É certo que há muitos holigões por aí fora, bem para além do futebol, e tanto grassam no botar sobre coisas políticas. Um tipo encolhe os ombros. Mas que dizer ("que fazer?", como dizia o Ulianov) quando são os amigos verdadeiros? Que pensar quando intelectuais que penso consistentes, juristas renomados, dizem uma aleivosia destas? Para além de todos os limites do auto-respeito? Corto relações? Envio um email apelando a que se desloquem para uma qualquer genitália, da parentela se possível? Escrevo às respectivas famílias para os levarem ao médico?

 

Blogo. E digo-lhes para googlarem ISIS. E também para se calarem durante umas semanas. Durante o verão a norte. E durante o inverno a sul. E depois voltem, para mais umas patacoadas. Para levarem mais uns carolos. Pois assim, para além de todos os limites, de facto o palrar deles não vale nada. 

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publicado às 05:44

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Um dia lá em Maputo o bom do António Cabrita tirou-me esta fotografia, pois achou-me parecido com um andarilho que por lá passara, não sei se turista se cooperante, disse-me ele que assim para o turbulento, um tal de Herakles, amigo de outro lá da comunidade grega maputense, um tipo dado às artes, o Lisipo, este com o qual o próprio Cabrita tinha acamaradado, julgo que coisas de uns copos conjuntos e da realização de um catálogo para uma exposição do helénico e de umas ilustrações para um ou outro livro do próprio Cabrita, se não estou em erro.

 

Nesta alvorada lembro-me desses gregos, e em particular do meu sósia, gente que não cheguei a conhecer, e que deixaram boa impressão lá por Maputo. A propósito da crise económica-financeira na Grécia deles, sobre a qual tanto estou a ler nos jornais, nos blogs e nos murais-FB patrícios e moçambicanos. E fico compungido, com esta minha distracção. É que, apesar das parecenças, sou o único tipo que não sabe como resolver aquilo, todos os outros conhecem a (uma) solução. E botam-na, freneticamente.

 

Devia ter estudado mais.

 

publicado às 05:14


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