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O estado patrimonial em Portugal

por jpt, em 30.09.15

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Debruçado e vivendo questões do desenvolvimento africano desde os inícios dos 90s, atenção redobrada pois exercida em casal, aprendi ideias gerais sobre o que elas implicavam e os obstáculos que encontravam. Duas linhas vigora(ra)m: a mais liberal, apontando o dedo ao excesso de Estados na economia, tendente à inabilidade ("irracionalidade" dizem) das decisões económicas sobre a administração dos recursos,  viradas à manutenção do controlo político pelos mandantes, favorecendo grupos sociais em detrimento de outros, elegendo grupos de interesses (próprios), acolhendo (também) uma forte corrupção. Um dos nomes que se deu a isso foi "estado patrimonial" (algo também muitas vezes chamado "clientelismo"), adverso ao desenvolvimento e à justiça social. Esta foi a visão dos programas de reajustamento estrutural desde os 1980s (desestatização/privatização, liberalização do comércio), promovidos por aquilo que se chamava "Bretton Woods" (o que hoje em Portugal se chama "troika", julgo que influência das más traduções da literatura russa de XIX que vigoraram no país até à emergência das traduções civilizacionais do casal Guerra).

 

Uma outra visão, menos poderosa politicamente, era a estruturalista (marxista/dependentista), que apontava os estrangulamentos situados na posição africana na economia mundial, implicando assimetrias nos termos de troca internacionais e nos internos a cada país, com punções exageradas sobre largos sectores sociais (mais os camponeses), inibidores de desenvolvimento. E na qual também vigorava, ainda que não como prioritária, a ideia da apropriação dos Estados por elites políticas anti-desenvolvimentistas (eu tenho grande carinho pela expressão de então "burguesia compradora", que muito prefiro à actual "Estado self-service"). 

 

Emigrado ia-me parecendo que estas interpretações serviam para a deriva pós-CEE de Portugal. Já o era assim no cavaquismo, cujos detalhes mais perversos se vieram a saber nestes anos de crise, com o que foi divulgado sobre os dirigentes políticos mancumunados com o capital especulativo (assim mesmo, em linguagem "retro" ou, melhor, "vintage"). Por isso a alegria sentida quando em 1995 se pensou ter acabado com a "besta negra", ingénuos que aquilo ficara apenas mal enterrada. Depois veio a era socialista. 

 

Nas visitas cruzava os velhos amigos. Alguns trabalhando na banca ou com a banca. Gente que não é de "direita", nem por ascendência nem por opção. Ou seja, cidadãos que não pensam haver um mal genético (ontológico, será melhor) no Estado nem uma virtude da mesma ordem no "privado" (o "affaire VW" tanto o mostra agora). Mera gente que crê na capacidade política de fazer actuar as instituições, isto é, gente democrática. Mas então entre o furibunda e o estupefacta com as práticas do governo socialista, de tomada de poder decisório na banca privada através da utilização do crédito da banca pública.

 

Quando por cá percorremos conversas de jantares, de esplanadas. Várias vezes os provoquei, "escrevam lá isso que eu lhe darei um tom de blog" (era o tempo dos blogs). Mas nunca aconteceu. E depois as coisas foram sendo publicadas nos jornais, com isto de se irem apagando da memória das pessoas. E é uma pena que assim seja. Porque o que os governos de José Sócrates fizeram - muito para além das acusações de corrupção, pois esta é sempre um fenómeno secundário - demonstra uma concepção de política e de governação que é exactamente a do "Estado patrimonial". A história como o governo, em articulação com o Banco de Portugal, estrategizou com fundos da banca pública, para tomar o controlo do BCP, como pressionou o BPI (constrangido pela sua necessidade de apoio em Angola), como utilizou testas-de-ferro para o efeito, tudo para controlar (efectivamente) o sector bancário (o capital financeiro, se se quiser), com resultados ruinosos, é absolutamente típica dos estados anti-desenvolvimentistas, submersos na busca do controlo político da sociedade em detrimento da sociedade. Alguns dos seus traços foram narrados nesta entrevista de Filipe Pinhal; e também neste artigo do Público. Textos que não abordam os efeitos posteriores, das decisões da banca controlada politicamente  em favor de opções de índole político-populista.

 

Parecerão coisas requentadas hoje. Mas não o são. São o cerne do prática política da governação socialista, ultrapassando quaisquer desmandos pessoalistas (aquilo da hipotética corrupção) e dimensões positivas de política social, que as houve. As práticas patrimoniais estatais são sempre um obstáculo à democracia e ao desenvolvimento, este necessariamente sustentável, olhemos nós de um modo mais liberal ou mais estruturalista (marxista) para os fenómenos.

 

Passados estes anos o que mais me choca é não ler, em nenhum momento, alguma reflexão por parte das novas direcções socialistas ou até dos seus intelectuais, afastando-se desta concepção de poder, alimentando um outro rumo de prática política partidária (e governativa). Apenas, primeiro pela voz de Ferro Rodrigues (nele um discurso pluralmente paradoxal, que tanto o manchou) a reclamação da herança dessa política. E logo depois, o atrapalhado e acabrunhado silêncio, devido a outros motivos, mais mediáticos mas bem mais secundários se se pensar bem.

 

Dedico este meu apressado texto aos meus amigos L. e N., casal reformado ferido nas suas posses pela actual austeridade. E tão renitentes no seu voto para domingo. Só há um caminho, nisto do "rua a rua, prédio a prédio, flete a flete" (voto a voto): decepar esta hidra. Esperando que ali haja energia para se reformarem, expurgando-se da "genética" patrimonial que de tão longe (80s) lhes vem. E, depois, olhar os outros monstros da mesma laia que aí venham (ou estejam).

 

Adenda: para quem tenha paciência e leia inglês deixo aqui uma ligação a um texto divulgado pela LSE. Que não é a verdade absoluta. Mas também não é uma peça de campanha eleitoral.

publicado às 12:47

A Síria nas Nações Unidas

por jpt, em 29.09.15

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Já aqui o bloguei algumas vezes, este "O Americano Tranquilo" de Graham Greene é o livro da minha vida. Não "o melhor" que li, que isso é coisa que não há, mas aquele que mais me impressionou repetidamente. Li-o pela primeira vez ainda adolescente, ali no dobrar do 1980, nesta edição da Editora Ulisseia, um exemplar que agora herdei, comprado em 1957 pelo meu pai. Reli-o várias vezes ao longo da vida, em cada uma delas sendo iluminado e vasculhado pelo texto. Por coisas não só políticas mas também as políticas. Hoje de manhã, ao mata-bicho diante da tv, nas notícias ouço Obama e Putin. E regresso, de imediato, a Fowler e à sua distância a Pyle, esse "americano", estratega de "terceiras forças" em desconhecimento do mundo. Que agora vai com o nome Obama.

 

Greene olhava o mundo de modo genial. E foi um excelente escritor.

 

publicado às 10:15

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Abaixo o MVF colocou este postal sobre o locutor (as pessoas agoram dizem, sei lá porquê, cepiquer) dos comícios do PS. Com toda a boa-fé, pois se tratava de um documento divertidíssimo, dado ao sarcasmo, pois era audível um oxímoro político bem suculento. Confrade bloguista acaba de me enviar este filme-reportagem da Renascença no qual se pode (a custo, eu precisei de três audições) constatar (aos 44 segundos) que o referido animador gritou "Pêésse" e não outro qualquer termo dedicado ao antigo nº 2 do partido socialista aos tempos de José Sócrates e multi-ministro de governos socialistas e actual candidato a deputado por Lisboa, cidade da qual foi presidente da câmara durante a era vereador Salgado, em suma António Costa. 

 

Na impossibilidade do MVF em blogar hoje aqui deixo a rectificação. Não deixando de dizer que ao ouvir, mais demorada e atentamente, o tal locutor contratado me parece que ele deverá ter mais cuidado com o sotaque. E que aquela ênfase que usa, a lembrar tempos tão idos, me deixa imensas saudades do rei dos locutores verdadeiramente exaltantes, o grande Jorge Perestrelo. Mas enfim, a cada um(ns) o locutor que merece(m).

publicado às 13:36

 

Senhoras e cavalheiros, meninas e meninos, respeitável público...

publicado às 14:42

Ideologias e processos eleitorais

por jpt, em 23.09.15

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 Drew Dernavich, The New Yorker

 

Abaixo coloquei postal sobre ideologias. Até porque nunca comprei a tralha fedorenta e infecunda daquilo do "fim das ditas". É certo que a gente não tem o dever da super-coerência - aliás acho que temos é o dever da incoerência, isso de não fazermos obrigatoriamente concordar o que pensamos sobre as diversas áreas do acontecer, de nos desenvencilharmos dos dogmas sistémicos. Por isso me custa, e ainda mais em período eleitoral, ver os perorões da social-democracia, e os dos múltiplos (nada pós)marxismos e nisso aqueles da democracia participativa (o avatar actual dos amantes da ditadura das "vanguardas"), e também os da democracia-cristã tão fraterna e respeitadora sempre se quer, e ainda os dos sindicalismos mais-ou-menos corporativos, esquecerem tão sonoras afrontas aos direitos dos trabalhadores, às liberdades dos indivíduos, isto de se escolher onde se quer trabalhar (e viver) respeitando os contratos firmados segundo a lei e sob o livre-arbítrio. Afrontas essas, ainda para mais, tão disseminadas ("inculcadas" dizia-se antes) por essa sobre-máquina actual de fazer pensar, o futebolismo. Vê-se isso continuamente, as coerções psicológicas, morais, exercidas pelo patronato (ok, pelas empresas futebolistas), vê-se agora no Sporting com Carrillo. Mas de todos esses palradores, sempre tão cheios de ideias e até ideários sobre o país e mesmo o mundo, os que me custa mais ver tão calados sobre estas aparentes minudências, pois pensadas como apenas "coisas da bola", são os (ditos) liberais, esta tão difícil maneira de ver e fazer o mundo. O Pedro M., velho amigo e leitor do blog, percebeu bem o meu resmungo. E mandou-me este cartoon. Um verdadeiro manifesto, aquela coisa de uma imagem com arte e inteligência valer mais do que o apenas perorar princípios inseguidos. Nestas épocas de voto apenas ... vinagres para apanhar moscas.

publicado às 12:01

Simplesmente António

por jpt, em 20.09.15

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Pulido Valente? Às vezes sim, outras vezes não, outras tantas nem sim-nem não, é como o leio. Agora hoje vez sim, ele devastador, desvendando a populice de Costa, o simplesmente António.

 

«Não admira que perante o que, para ele, é a ingratidão e a cegueira dos portugueses, Costa ameace agora arrastar o país consigo. Sem surpresa nenhuma para mim, que estava à espera de um golpe destes, o admirável candidato do PS anunciou anteontem solenemente no Seixal que não tencionava “viabilizar” (ou sequer negociar) o orçamento de Estado da coligação. Ele não ignora as consequências desastrosas para os portugueses desse acto suicida. Pelo contrário. De qualquer maneira, prefere um desastre com ele do que um desastre sem ele. Suceda o que suceder. A Constituição não permite ao Presidente Cavaco dissolver a Assembleia até ao fim do seu mandato; ou que a Assembleia seja dissolvida nos primeiros seis meses do dela. O que significa que Portugal será obrigado a viver sem orçamento (e por duodécimos) no mínimo até Junho-Julho do ano que vem. O que lançaria as finanças públicas num caos, sem falar nas reformas de qualquer tipo, que teriam de ser metidas numa gaveta durante oito meses. Pior ainda, os mercados que hoje nos sustentam a juros razoáveis não tornariam tão cedo a emprestar um tostão à irresponsabilidade indígena. Desde a I República que não aparecia um cacique da envergadura do dr. Costa na cena política portuguesa, pronto a meter o país no fundo por vaidade pessoal ou conveniências partidárias. Apareceu anteontem. Pobres de nós.» Vasco Pulido Valente no Público

publicado às 13:57

O fascismo

por jpt, em 18.09.15

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Paulo Querido, jornalista e veterano bloguista, o homem do falecido weblog.com.pt ao qual o ma-schamba tanto deveu nos seus tempos iniciais, teve ontem um postal abjecto, dizendo que o actual governo português é mais radical do que qualquer um dos de Salazar. O fascismo, cuja intensidade Querido no seu favoritismo aos "socialistas craxianos" desvaloriza e assim goza, existiu, vigoroso e doloroso. O desnorte deste tipo de argumentação mostra bem ao que vêm os das linhas atrasadas deste novo poder, sedento das aleivosias em que vive viciado. Querido, ao longo dos últimos anos, campanheia pelo PS incessantemente, é um direito que tem. Cruza hoje, deste modo, o Rubicão e em armas. A pena é conhecida. E necessária.

 

Mas este lixo demagógico também obscurece o novo fascismo, possidente, que está no seio da nossa sociedade. Dirão que confundo coisas, mas nada disso, apenas aponto a distracção alheia: habita (também) no meu Sporting, nesse mundo do futebol que tanto impregna o sentir e pouco-pensar do país. Pois isto de um homem ter um contrato laboral a termo certo e de não o querer renovar implicar que não tem direito a trabalhar é uma pura regressão à servidão, uma total violação da democracia. É o que acontece com o jogador Carrillo, diante da aceitação generalizada da sociedade portuguesa, encerrada na mediocridade merdal em que vegeta. Em linguagem moderna isto é o fascismo. E é o hábito no futebol, esse onanismo satelizado pela política. Vive hoje, agora mesmo, no Sporting e leva a cara de Bruno de Carvalho. Assim vil.

 

Saber viver livres dos craxianos (e dos seus cipaios) e dos fascistas (agora carvalhescos, amanhã outros) é um exercício difícil. Mais do que não seja porque um tipo acaba sozinho, a falar (teclar) para ninguém. E sempre enojado. Morrendo só. E sem os empregos e subsídios a que os cipaios das teclas aspiram.

publicado às 03:07

O acontecimento de Chimoio

por jpt, em 17.09.15

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A imagem é daquelas com tudo para se tornar icónica. A Universidade Católica da Beira comemora-se e convida para o efeito o antigo presidente Joaquim Chissano e o presidente do Renamo Afonso Dhlakama, numa óbvia celebração da paz. Como é tão usual nestes momentos libertam-se pombas brancas. Uma destas recusa-se a voar e caminha na sala, postando-se diante de Dhlakama. A gente sabe que é um mero acaso, momentâneo, apenas uma ave atordoada, desnorteada naquela sala, talvez enfraquecida pelo cativeiro. Mas estão lá todos os elementos para a decidirmos tornar simbólica, e cada um lhe colará um conteúdo peculiar (a ave convocando o abrasivo líder para a paz? a ave reconhecendo o arauto da paz? etc.) segundo a vontade e/ou crença própria.

 

Olhando a imagem o que me convoca é o momento do (benéfico) acontecimento. Ocorrido dois dias depois dos acontecimentos de Chimoio - sobre os quais escrevi aqui (assumindo como certa uma versão falsa? assumindo como certa uma versão certa?). Ou seja, logo após uma emboscada em Chimoio o líder do Renamo segue para a Beira para uma cerimónia, benfazeja e decerto que simpática, curial. Isto ainda mais me sublinha a consciência do quão volátil é a minha percepção da política moçambicana. No facebook, no grupo do blog, jornalistas moçambicanos (usualmente muito bem infomados e nada ligados ao partido Renamo) afiançam-me a veracidade dos acontecimentos de Chimoio. Outros meus conhecidos negam o caso (sem que deles se possa dizer que são agentes do partido Frelimo). Eu radico-me na minha incompreensão: de uma emboscada quase letal na estrada de Chimoio para uma aprazível cerimónia na Beira correm apenas dois dias? É possível, até pode significar um enorme auto-despojamento daquele líder, veterano do perigo. Mas é, para este vulgar mortal jpt, verdadeiramente surpreendente. Tanto que aquela foto que encima o postal me simboliza o espanto, continuado, face à complexidade dos discursos políticos moçambicanos, imperscrutável para mim. Também por isso me parece que a agência portuguesa Lusa [que noticiou o caso em primeira mão, tendo-o testemunhado] deveria ter algo mais a dizer. Fosse uma muito humana corrigenda ou uma também humana reafirmação. Até para sublinhar a sua excentricidade ao campo político moçambicano.

 

Sobre este caso Elísio Macamo, com a sua tenaz agudeza analítica, publicou um duríssimo texto. Para com a Lusa. E para com as instituições internacionais e os indivíduos que assumiram como certa a notícia, explicitada naqueles termos. Eu enfio a carapuça. Não sei os outros. Mas a agência está convocada para algo responder (está como o político diante da pomba, acho). E dada as suas características institucionais não me parece possível que se exima a tal.

 

Adenda: dizem-me que na última edição do Savana se noticia que 4 jornalistas de diferentes órgãos, entre os quais um dos colaboradores daquele jornal, testemunharam o ataque e confirmam a versão inicial. Continuo estupefacto ....

publicado às 06:14

Prós e contras (e Paulo Dentinho)

por jpt, em 16.09.15

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Nunca gostei do programa "Prós e Contras" da RTP e pouco o vi, e menos agora pois expurguei as estações portuguesas das minhas "listas de canais". Mas sei que a apresentadora o é há imenso tempo (se calhar desde o princípio, e o programa já tem 12 anos). Leio que Porfírio Silva, bloguista veterano e da direcção do PS, a quer fora dali por ser irmã de um dirigente do PSD. E que um deputado do PS quer afastar o director da informação da RTP, Paulo Dentinho, por causa do programa. A questão é simples: Paulo Rangel disse que os governos do PS se intrometiam nas investigações politicamente delicadas e o programa debateu essas alegações (naquele registo de uns "prós" vs outros "contras"). Já antes uns socialistas afirmaram, ofendidos, a inadmissibilidade dessas afirmações dada a obrigatória separação entre os poderes. Este é o tipo de argumento oriundo de dois tipos de locutores: os ignorantes, alheios a qualquer registo de análise sociológica; os demagogos, que a querem esquecer em momentos a la carte. Quem tenha cruzado, mesmo que em tangente, algo sobre a sociologia da justiça (e há muita gente na elite socialista que tem ligações, profissionais e até familiares, com os expoentes dessas linhas de reflexão) tem presente que o exercício da lei (e nisso também da investigação) é permeável aos diferentes poderes sociais, entre os quais os políticos. O princípio basilar é mesmo o da separação dos (3) poderes canónicos, e as instituições estão lá para o garantir ao máximo. O resto é a actividade dos homens, indivíduos e grupos, em prol dos seus interesses (mais ou menos) legítimos. Negar isto alardeando a confusão, ou seja a homologia, entre os princípios e a realidade social ou é pura ignorância ou rasteira demagogia. Teve Rangel razão no que disse, que sob o PS não se prenderia nem se investigaria um primeiro-ministro? Talvez sim, talvez não (é um contrafactual, nunca se poderá afiançar). Eu "acho" que sim, lembro-me de Sócrates a almoçar com o anterior procurador-geral da república mesmo antes de ser preso, para "discutir livros" segundo se disse, e isso leva-me a ter suspeitas sobre os comensais. E o presidente do sindicato do ministério público aventa pressões desse antigo procurador-geral sobre os magistrados com processos sensíveis (entre os quais os com políticos, depreende-se). Outros "acharão" que não. Então que se discuta ...

 

Significante é esta pressa do PS, começar já a afastar os jornalistas que não o servem. Ainda não está no poder e já esta procissão abalou do adro. Não há dúvida, eles vêm aí ... Noto o apetite pela cabeça de Dentinho, que conheci em Maputo no final de XX como correspondente da RTP. Gostando ou não do estilo, do tipo de abordagens, não havia forma de negar a sua coragem profissional e pessoal e a autonomia com que geria o seu trabalho. E lembro-me bem, na época trabalhava eu na embaixada portuguesa, de lhe aventar outras balizas para a forma como abordava o país, dado o impacto que as suas reportagens tinham (então só emitiam a TVM e a RTP). E ele mantendo-se impermeável às minhas opiniões e, muito mais do que isso, às pressões de funcionários de estatuto mais elevado do que o meu e às dos políticos idos de Lisboa. Sempre assente na sua deontologia, profissional responsável mas não funcionário para encomendas ou favores.

 

Uma postura que lhe trouxe agruras. Nas eleições do final de 1999 a contagem dos votos prolongou-se por semanas e, certo dia, o Renamo proclamou-se vencedor, em conferência de imprensa que ele reportou. Ao resumir as alegações do partido fê-lo sob um ricto que quem o conhecia sabia provir de um nervoso contido mas que ali foi entendido como festivo - e não o era mesmo. Tratou-se apenas da interpretação de um público então habituado a outra tipo de comunicação televisiva, muito  mais hierática, até sob o ponto de vista corporal. A partir daí foi alvo, durante meses, de ameaças. Eu testemunhei uma, ambos sentados numa esplanada e uns miúdos vieram a correr dizer-lhe "Dentinho, estão ali uns homens, naquele carro na esquina, e mandaram-nos dizer que te vão matar". Ele estava em Maputo acompanhado da família e, ainda que renitente em abandonar o seu posto, acabou por partir devido à sucessão de ameaças, várias bastante mais assustadoras do que esta que narrei. E fez bem, que há riscos que não se correm, e os familiares nunca se correm - e eu também lhe disse, repetidas vezes, "vai-te embora pá!", que o trabalho e o pundonor nunca justificariam aquilo. Fiquei com amizade, ele um tipo porreiro, e respeito, intelectual mas também aquilo, se calhar já anacrónico, do respeito másculo para com os tipos que não dobram. Nem quebram.

 

Deixei de o ver. E vim a reencontrá-lo uma década depois, nisto do facebook. E ele a usar o seu mural pessoal para opinar com dessassombro sobre o estado do país, distribuindo bordoada, diária até, no actual governo e seus apoiantes. E eu surpreendido, o tipo aos 50 anos num posto decerto que muito apetecível, correspondente da televisão estatal em Paris, e sem pejo nem servilismos, botando opinião livre, em caneladas ao poder, sem aquilo do timorato a querer manter o lugarzito. Mais uma vez lhe louvei o peito feito, a verticalidade, mesmo que tantas vezes dele discordando. Há uns meses foi promovido, chamado a Lisboa para director da informação do canal público. Ou seja, em ano eleitoral a administração da RTP colocou no topo da informação um cidadão que, pessoalmente, critica quotidianamente o governo e os políticos no poder. Fiquei estupefacto, saudavelmente estupefacto. Pois achei muito significativo em termos políticos, muito democrática a postura do poder estatal. 

 

Como também acho muito significativo, até mais, que os do PS já se estejam a movimentar publicamente para a escolha das vozes dos donos, as manigâncias com a comunicação social em que são costumeiros.

 

Nota de rodapé: decerto que alguns lerão isto como campanha pró-coligação. Já aqui falei sobre isso Mas tremo, é o termo, ao pensar que este PS vai voltar ao poder. Como me parece.

publicado às 09:13

Heaven's Gate

por jpt, em 14.09.15

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Levei umas décadas para finalmente ver este Heaven's Gate, o monumental flop de Michael Cimino, o filme que lhe custou a carreira (críticas actuais no The Guardian e no The Telegraph). Não me porei a escrever sobre o filme, que não sou cinéfilo para isso, sou só daqueles do "gosto"/"não gosto". Mas assim sai nota d'amador: está lá tudo, daquilo do "maior que a vida" que se pede ao cinema. Muito interessante é outra coisa: o filme aborda um conflito real entre capitalistas (criadores de gado com ligações estreitas ao poder político, e etnicamente correctos [WASP]) e imigrantes paupérrimos (agricultores desvalidos, oriundos da Europa central e de leste [refugiados, dir-se-ia hoje em dia]). Isso, mesclado com a transumância sexual e afectiva da prostituta representada pela belíssima Isabelle Hupert, é absolutamente revolucionário. Se sublinhado pela figura do aristocrata em aliança de classe com os camponeses e tudo isto embrulhado no final infeliz, torna-o objecto ali único, quase um ícone m-l. E mostra como o cinema americano tanto mudou de então para cá. Ou melhor dizendo, desmudou. Pois nem será de imaginar nestas últimas décadas uma grande produção com esta linha, tão pouco ligada ao mito americano.

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publicado às 02:05

O modelo angolano

por jpt, em 13.09.15

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É a própria Lusa, decerto que porque com jornalistas no local, que noticia que o atentado à vida de Afonso Dhlakama, ontem ocorrido em Chimoio, foi realizado por membros da polícia. Isto demonstra a perenidade em membros da administração estatal e do Frelimo do sonho angolano, de uma filiação ao modelo angolano. Não digo que seja isso universal no seu seio mas está vigorosamente pujante Ou seja, a ideia de que a pacificação do país e a reprodução do sistema socioeconómico e político vigente será possível, melhor dizendo, só será possível com a eliminação do dirigente da oposição. Foi assim em Angola com o abate de Savimbi será assim em Moçambique, pensarão. Esquecem-se ou desconhecerão a velha máxima, a de que a história não se repete. Ou, por outras palavras, que esta situação é muito diversa, o feixe de interesses internacionais em torno do país e a complexidade sociológica interna são bem diferentes, a exigirem outra criatividade na condução da evidente crise. Creio mesmo que a morte de Dhlakama seria o pior que poderia acontecer ao Frelimo, incrementando a dramatização da vida política nacional, pulverizando as vozes liderantes na oposição, fragmentando os apoiantes do próprio partido, minando a reputação internacional do poder sediado em Maputo. E etc.

 

Não tenho particular simpatia para com o Renamo, não encontro nele aquele partido vinculado ao projecto de welfare state desenvolvimentista e grávido de preocupações ecológicas que tanto sonhei para o país. E considero que a reescalada da violência se deve, em primeira análise, à sua estratégia eleitoral (sim, eleitoral) encetada com o ataque armado à esquadra de Muxungue. Mas é parte fundamental do sistema nacional moçambicano e face a isso as técnicas da negociação devem-se impor. Parte fundamental porque legítima, democraticamente legítima.

 

E é por isso que tanto torci o nariz ao recente discurso de Mia Couto, tão aclamado foi. Porque, e para além do pernicioso e obscurantista anti-sociologismo que sempre é a invocação (tão recorrente) do carácter familiar de um país (de uma vez por todas: um país não é como uma família nem como tal deve ser imaginado ou metaforizado), ali o autor nos transporta para um registo onde está subliminar a ilegitimidade da Renamo. Pois ao reduzir agora, seguindo o jargão da época, a guerra civil moçambicana a uma "guerra de desestabilização" (aquela contra "os bandidos armados") é essa ilegitimidade que se está a evocar - com o perigo de se estar também a invocá-la. 

 

Foi o então Renamo criada do estrangeiro, no âmbito de uma "desestabilização"? Foi. Mas a guerra civil não se restringiu a isso, e o Renamo não foi depois nem é agora apenas isso. E amputar esta completude no discurso actual é hoje, apesar da retórica, nada pacificador. Muito pelo contrário. E a "convivência nacional", a necessária constante negociação, a paz e o tão necessário desenvolvimento, passam e obrigam a um depuramento conceptual. Mais do que a retóricas benfazejas.

 

Adenda

 

A distância dá nisto: durante anos habituei-me a acalmar as perguntas idas de Portugal sobre os acontecimentos ditos escatológicos que ocorriam em Moçambique. Normalmente não eram tão graves ou mesmo não eram algo. Agora, daqui de Lisboa, também me pareceu algo suspeito o anunciado. Mas a Lusa divulgou e passado um dia ainda não negou o acontecido pelo que acabei por acreditar nas notícias, que tanto iam sendo ecoadas em diversos jornais (e nos murais dos cidadãos).
 
Entretanto através do blog de Carlos Serra acedo a notícias que negam qualquer atentado - fico à espera que a agência noticiosa portuguesa, que não é privada, diga algo mas ainda não. E é grave esse défice de informação, muito grave mesmo. De qualquer modo o fundamental é a inexistência do atentado, será óptimo que assim tenha sido.
 
Mas não altero o postal, está escrito está escrito - e de certa forma ecoa as minhas opiniões sobre os ataques à base do Renamo em ano anterior. E, pelo menos, deixou botar cá para fora o resmungo com o discurso do Mia Couto, que tantos elogios colheu e que tanto me desagradou, e que tinha ficado a marinar.

 

 

publicado às 13:54

Pré-campanha eleitoral?

por jpt, em 12.09.15

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Ontem, no Vale do Silêncio (Olivais, Lisboa), aconteceu uma sessão de esclarecimento. Muito animada e concorrida, com uma  vigorosa atitude dos membros do movimento cívico ali deslocados. Não pude ficar até ao final devido a um ataque que sofri, presumo que mescla da ciática com a radiculite. Mas muito apreciei a apresentação do Candidato Vieira, frise-se que acompanhado do seu mandatário nacional para a juventude. Temos homem.

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publicado às 18:07

Ídasse

por jpt, em 10.09.15

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Hoje inaugura-se na galeria da Kulungwana (na estação dos CFM em Maputo) a exposição individual de Ídasse. Estará um mês inteiro. Muito lamento não a poder visitar. Hoje, no dia chamucista, e depois, para a saborear com calma e cuidado. Sobre o Ídasse escrevi há uns tempos um pequeno texto, no dia em que ele se tornou sexagenário - esta é a primeira vez que expõe nessa sua nova condição (se é que idade é condição ...). Nesse texto lá tentei meter o meu gosto, imenso, pelo seu trabalho e, ainda maior, por ele mesmo. Mas se calhar não valeu a pena tê-lo escrito. Pois um dia tiraram-nos esta fotografia e nela está tudo o que eu quis botar através das teclas. É certo que talvez seja apenas do momento, aquele "fósforo" captado pela máquina, mas julgo que não. Ao ver-me ali muito me surpreendi, agradando-me. Pois eu, sempre tão cioso e orgulhoso da minha rusticidade, até a cultivando, não sabia que conseguia olhar para um homem com tamanho carinho, cúmplice.

 

Abraço mano, sucessos e, mais do que tudo, ídasseismo. Ou seja, sageza e grandeza. 

 

 

 

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publicado às 11:15

"Basta Viver": 1 ano de Portugal

por jpt, em 09.09.15

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 (Ilha do Zambeze, entre Manica e Tete, meados de 00s)

 

 

Março passado, já em Março, numa sexta-feira fui jantar com grande amigo, daqueles ... Chegados àquilo dos cafés quis pedir uísques, novos e parcos por causa dos preços, mas ele negou-se. Pois vive fora de Lisboa, iria guiar, não podia passar daqueles dois ou três copos de vinho que corrêramos. Viu-me desencantado e aventou que fosse eu para casa dele, beberíamos algo noite fora, nisso conversaríamos, dormiria eu por lá e regressaria no dia seguinte de comboio. A sede apertava, assim fiz(emos). Na manhã, já sábado feito, hora do almoço, regressei à capital no tal cavalo-de-ferro, indo para um seminário, não sabia ainda que para ouvir daqueles antropólogos emp(r)enhados, cheios deles mesmos a julgarem que isso são causas, aquelas aparentes das gentes com as quais trabalharam, observando-as. Aportei à estação de Entrecampos no intuito de me chegar ao ISCTE, o local onde falaria o revolucionário encartado, por corso doutoral, e alguns outros. O dia ia soalheiro e ali mesmo na Av. da República, enquanto marchava, tirei o casaco, pendurando-o no indicador direito e abandonando-o ao ombro, mesmo como se funcionário. Depois, já na esquina da "Forças Armadas", avenida assim ascendente, e porque o calor já apertava, transpirando-me, tirei o pull-over. E só depois, alguns passos passados, me apercebi, quase lacrimejando, e digo-o sem exagero: estava em mangas de camisa, ainda que compridas. E há mais de seis meses que não andava na rua assim.

 

Lembro-me muito disto, do gélido que andei, e do como tanto o notei naquele dia d'alvorada da primavera, esfuziante com aquela liberdade de súbito sentida. E hoje mesmo ainda mais, este hoje entre 8 e 9 do Setembro. Pois faz agora um ano que parti de Moçambique regressando à "Pátria Amada" (aquele tão pleonasmo moçambicano). E porque um blog é mais do que tudo um diário aqui refiro a data, partilhando um bocado, ainda que sem o dizer, do que quebrou então mas que se vai colando devagar no esforço das cálidas mãos amigas. Pois é difícil o regresso, quase-exílio no princípio. A sarar também, que Portugal é lindo. E, muito mais do que tudo, porque "basta viver", como aprendi, um duro dia, lá no Zambeze.

 

Para cantar isso, essa verdade, deixo 4 canções, 3 que são "standards" e uma, a "Piloto Automático", que o virá a ser. Como se banda sonora da vida, esta que me basta ...

 

 

publicado às 00:37

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Daqui a um mês aqui em Portugal eleições legislativas, depois presidenciais. Muito provavelmente os compatriotas elegerão como primeiro-ministro um comentador televisivo, avatar de José Sócrates, e como presidente da república um outro comentador televisivo, avatar dele próprio. Os compatriotas eleitores vão discutindo, alguns até com ardor e militância. Eu só lamento que este livro não esteja publicado em Portugal - bastaria capa e título para mostrar o futuro em assim o sendo. E talvez esclarecer as tais discussões.

 

Madam & Eve parece muito localizado, muito sul-africano. Mas é tão, mas tão mesmo, global ...

 

publicado às 00:19

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