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Fidel e o espelho mágico

por jpt, em 05.12.04
A Lolita do Blogame Mucho escreveu há dias sobre Fidel, rematando: "Fidel é um ditador, mas não é um mau ditador: é um ditador puro. Com o que isso tem de mau, também. Forcem-no, nada conseguem. Respeitem-no, reparará erros." Eu permiti-me discordar e resmungar acerca dessa óbvia simpatia pela personagem. Não quero eternizar a discussão, cada um como cada qual. Mas como tive resposta agradeço-a com alguns pontos na "volta do correio":

[actualizado com adenda]

1. Será pouco importante para a questão, mas como a Lolita usou o Maquiavel eu citei-a. Diz ela que desajeitadamente, enquanto (me) explicita o real sentido da sua obra, acessível "a quem conhece, ainda que pela rama a sua obra". Lamento pois tê-lo utilizado, ainda por cima de forma tão grosseira: confesso que tendo-o lido, e a alguns dos seus comentadores, não apreendi uma certeza sobre o que realmente quis dizer. Terei a minha ideia, a minha interpretação. Mas muito pouco assertiva. Meu defeito de compreensão, decerto, que essas não são as minhas áreas.


2. Associei aquela visão sobre Fidel, e volto a fazê-lo, à (já) velha teoria comunista explicativa da queda do "mundo socialista", aquela que consagrava como causa os "erros e desvios" (a maldita "natureza humana"?), uma nada marxista explicação na boca e na tecla desses veros marxistas (leninistas). E para que não se pense que abuso das palavras, esses "erros e desvios" foram não só recorrentes como ainda consagrados em documentos de pelo menos um congresso do PCP nos inícios dos 90s. Será talvez abusivo associar a Lolita ao PCP, e lamento se a desagradei, mas lendo-lhe a crítica ao Estado da Nação onde todos "comem pela medida grande" com a excepção implícita do "partido", não pude deixar de o fazer. Não conhecendo a bloguista não lhe estou a imputar militâncias ou simpatias (muito legítimas, diga-se), mas permito-me associar discursos e modos de pensamento que surgem comuns.

3. Diz ainda que "o JPT, [...] quis confrontar-me com as minhas contradições". Mais um lamento meu, aqui pela minha falta de clareza, a tal "molhada" que denuncia. Pois o que procurei realçar não foram as contradições do pensamento da Lolita, eu quis sublinhar foi a sua total coerência, explícita em dois textos políticos, um valorizando o PCP o outro valorizando Fidel. E o quanto eu discordo dessa coerência, da qual todas as questões "morais" são meros corolários [da ligação entre moral e política necessitaria de outro (e enorme) post, passo].

4. De lamento em lamento tenho ainda que referir o quanto me desgosta esta minha tendência, por ela sublinhada: "Não se deixem levar pela simplória, mas eficaz, estratégia americana recorrente: ou estás comigo ou estás contra mim.". É uma fragilidade, aborrecida ainda que humana, isto de torcer o nariz à pureza de um ditador só porque os americanos não gostam dele. Sendo franco, é mesmo uma imbecilidade. Reconheço-me simplório produto.

5. Lamento pois não ter essa habilidade reflexiva. Essa que, apesar de algumas semelhanças de pensamento com alguns movimentos sociais e políticos (naturais, não somos ilhas), permite à Lolita afirmar "Não me agradam moralismos lineares; prefiro pensar sozinha, no remanso do lar, a ler a mais e a deixar-me intoxicar de propaganda", algo que lhe permite uma superior compreensão sobre o mundo que a rodeia.

Quanto à auto-sapiência e à teoria da relatividade curvo-me, expectante de futuras lições.

6. Finalmente lamento ainda não possuir tal espelho mágico, em que me visse tão culto, livre e despreconceituoso. Cantando, qual filho de Hergé, "rio-me de me ver tão belo neste espelho". Ainda que cobiçoso é meu sincero desejo que nunca se lhe parta o espelho.

Adenda:

1. A Lolita ripostou dizendo-me conjecturando sobre onde a colocar ideologicamente. Sim, um elogio a Fidel e os termos em que foi desenvolvido, causam-me estupefacção. E em meu entender são concepções que têm linhagem, um contexto. Apontei-o, interpretei-o. Não falei, como se queixa, de si, falei daquele que me parece ser o contexto da sua percepção. Não se reconhece nesse campo político em que a integrei, tudo bem. Quantas vezes ecoamos ou recriamos perspectivas de outrém sem que isso signifique uma associação. E que a houvesse, seria legítima e não da minha conta. Para mim realmente importante foi reconhecer os traços estruturais de um apoio actual a Fidel, e de como eles se assemelham a um já antigo discurso sobre o "mundo socialista" que considero acima de tudo autofágico. E isto não é um discurso "ad hominem".

2. Num outro âmbito Lolita expressa o seu desagrado pois pessoalizei, improdutivamente (e deselegantemente?), a questão, atacando-a e negando-me ao que realmente lhe interessava, discutir Fidel e Maquiavel.

De Maquiavel diz-me fazendo "meta-crítica". Mas que fique claro, às vezes as palavras valem o seu sentido literal. Não tenho certeza sobre o que o autor quis dizer. Não há qualquer meta-crítica. Mas sobre isso interessa-me perceber como é que pessoalizei/rebaixei a questão.

Sobre Maquiavel Lolita escreveu, eu usei isso e recebo esta resposta à "molhada" que entende ter eu realizado: "Quem conhece, ainda que pela rama, a sua obra sabe que Maquiavel ..."; por favor, isto é uma locução retórica em que não só se afirma o pensamento do autor como se exclui qualquer hipótese de contradição, pois basta-o "conhecer ainda que pela rama". Discutir então para quê? Para mais não o tendo eu usado neste último sentido (aliás, usei-o no sentido em que Lolita o tinha referido) é óbvio que se depreende pelo seu texto que o utilizei sem o ter lido nem que seja pela rama, que o usei na ignorância. Não está portanto somente a falar de um autor mas também a afirmar a ilegitimidade deste locutor (o tal JPT) que o utilizou. Sim, eu sei que as intenções retóricas são infalsificáveis, mas esta, até pela sua recorrência, é óbvia.

Uma discussão sobre Maquiavel? Pelo contrário, uma asserção sobre Maquiavel e uma pessoalizada ilegitimação do interlocutor.

3. Discutindo Fidel Lolita é explícita, aqueles que discordaram do seu post deixam-se "levar pela simplória, mas eficaz, estratégia americana recorrente: ou estás comigo ou estás contra mim.". Estamos a falar de Fidel? Não, estamos a falar dos medíocres (simplórios até) mecanismos de compreensão e análise utilizados por aqueles que consigo discordam.

Uma discussão sobre Fidel? Pelo contrário, uma desvalorização pessoalizada dos interlocutores.

Em absoluta e explícita contraposição a essa frágil postura intelectual daqueles que a criticaram Lolita apresenta-se: "Não me agradam moralismos lineares; prefiro pensar sozinha, no remanso do lar, a ler a mais e a deixar-me intoxicar de propaganda. Tento, isso tento.". Perdão, há mais pessoalizar do que isto? A afirmação implícita mas clara de uma superioridade de metodologia intelectual e moral: esta não lhe é linear, implícita contraposição aos que a criticaram; pensa sozinha, de onde se estabelece que os seus críticos não o fazem, pensa no remanso do lar, os outros porventura não só no colectivo mas também no meio da turba, lê mais, os outros decerto nada ou pouco, e não se intoxica de propaganda, o que os outros fazem, não só pelo pensamento colectivo a céu aberto, linear, mas também pelo já acima anunciado "simplório" procedimento.

4. Depois de escrever todas estas afirmações, menorizando os métodos pessoais de pensamento e apreensão da realidade daqueles que com ela discordam, Lolita regressa protestando a pessoalização da minha resposta, lamentando-lhe a falta de elevação da argumentação.

Se nos conhecessemos talvez tivesse consigo o à vontade para lhe dizer o coloquial "é preciso ter lata!". Como não é o caso fico-me no muito mais desagradável, ainda que mais polido, termo desfaçatez.

Quanto ao tal espelho ainda acredito que se reler bem o que ripostou às críticas que lhe fizeram talvez conceda que não é cá em casa que habita. Ou talvez não o conceda, mas isso já é consigo. Passo.

Cumprimentos

publicado às 00:21


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