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Sobre os postais de Santos Rufino

por jpt, em 10.03.04
Olhando o postal de Santos Rufino abaixo apresentado e face à minha ameaça de ir enchendo este blog com essa colecção o leitor amigo António Botelho de Melo enviou-me mensagem que, de imediato, transformei em participação. Para quem, como eu, não possui os albuns nem a colecção de postais, limitando-me a usar o temível scanner para os poder apresentar, não posso de gemer de inveja pelas posses apregoadas. Aqui segue:

 

 

A história dos postais do Rufino é bem interessante. O trabalho foi feito por uma equipa de alemães duma firma fotográfica creio que de Hamburgo, que estiveram em Moçambique em 1927 e que fotografaram a então colónia para um trabalho que consistia em postais e uma colecção de 10 álbuns fotográficos, sendo os quatro primeiros da cidade e distrito de Lourenço Marques. A qualidade das fotografias - tudo produzido na Alemanha de Weimar - é inegável e o seu valor histórico evidente. Muitas delas são panorâmicas e de uma beleza sem par. Os postais foram feitos a partir desse trabalho. Eu tenho (em Lisboa, para variar) duas colecções dos 10 álbuns, pois tive uma quando tinha 12 anos de idade e perdi com a debandada daqui à medida que a Frelimo assegurava que iria instalar uma ditadura comunista. Anos mais tarde, através de antiquários, fui recompondo a colecção. Como sou teimoso, acabei com duas.O Santos Rufino era uma figura de LM e tinha uma loja de artigos de papelaria. Acho que há um prédio algures com o nome dele. A produção de postais foi de tal ordem que, quando visitei Maputo em Dezembro de 1984, dez anos depois da independência e residente nos Estados Unidos, e aqui reinava a maior miséria da era do "repolho e carapau", consegui encontrar centenas dos postais numa alfaiataria dum velhote monhé na parte velha da baixa, que mos vendeu todos a dez meticais cada - para ele uma fortuna, para mim quase nada. Depois disso, vivia eu nos EUA, passei anos a enviar postais do Rufino a toda a gente que eu conhecia...a partir de Boston. Ainda tenho alguns lá por casa.Mais importante que isso tudo, é o facto de a Lourenço Marques dos anos 20 e 30 do século passado ter sido uma cidade inacreditável de seu próprio direito, com uma cultura própria, luso-sul-africana, um ambiente de trabalho e convívio que não se via em mais parte alguma, com o maior número de "kiosks" por km2, cinemas, a sua própria casa de ópera - o Teatro Varietá - e uma arquitectura sem rival. Ainda tive a sorte de crescer e ver alguma dessa arquitectura ao vivo, mas que foi sendo adulterada à medida que crescia a pressão com o desenvolvimento que precedeu o 25 de Abril em 1974. Os álbuns do Santos Rufino retratam essa cidade no seu auge de entre-guerras.As fotografias também são boa fonte para uma análise do aparecimento do urbanismo em Moçambique, já que a população negra, com hábitos, tradições e culturas completamente distintas, residia quase a 100 por cento no mato. As cidades eram um fenómeno estritamente colonial, muito localizado, completamente distinto da realidade rural. Só mais tarde, com o Salazar e o seu Acto Colonial de 1932 (ou 3) e legislação associada - aliás estritamente uma "copy-paste" da legislação francesa da altura - é que vieram com aquelas ideias do branco de primeira e de segunda, do assimilado e o não assimilado, etc, o que teve impacto na urbanização e em quem podia ou não viver nas zonas urbanas.  

publicado às 22:40


2 comentários

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De jpt a 01.07.2008 às 12:15

Rsrs...Agora sim te achei!

Publicado por: Lua às março 11, 2004 01:21 PM
http://www.moon-thedarkside-luanaa.blogger.com.br/
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De jpt a 01.07.2008 às 12:15

José,
Hoje, depois da noite, vou-te enviar informações suficientes para te entreteres o fim de semana inteiro, como um verdadeiro Ma-Schambeiro.
Um abraço.

Publicado por: LE. às março 11, 2004 07:54 PM
http://oceanus-occidentalis.weblog.com.pt/

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