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Cabo Verde

por jpt, em 12.03.04
Email amigo faz-me chegar um artigo de Barata-Feyo sobre Cabo Verde, publicado na última Grande Reportagem.

Nele se aflora um total e radical paradoxo: como Cabo Verde teve sucesso na sua gestão política atingiu um patamar de desenvolvimento (escolaridade generalizada, cerca de 70 anos de esperança de vida, 1500 USD ano/per capita) que o integra num grupo de "países de desenvolvimento médio".

O que sublinha a competência e seriedade do seu processo independente. Mas também algo que arrisca impedir a continuação das ajudas multilaterais e dos juros bonificados nos empréstimos internacionais. Bem vindos ao mundo real, parece ser o mote, "desenrasquem-se" na global competição: a um país pobre de recursos naturais, onde a riqueza é (como se bem vê) a humana.

Em suma, punidos por terem sucesso. Punidos por competência e seriedade. Claro que não se pode ajudar tudo e todos. Tem que haver limites. É pois natural que UE, OSCE, ONU e outros, multilaterais ou bilaterais, prefiram apoiar aqueles governos/Estados realmente pobres: Angola, Congo, Sudão e desse género. Dificilmente exemplos de aplicação das ajudas internacionais, mas absolutamente integrados nos critérios de medição do subdesenvolvimento.

Esta notícia, a concretizar-se, será um paradoxo absoluto. Vamos ver se há ainda alguma racionalidade nisto tudo do "desenvolvimento", e se alguma dela está sediada nos organismos internacionais. E se assim se introduzem mecanismos correctores desta situação.

Muito honestamente creio que sim, seria um absurdo tão grande que deslegitimaria as próprias instituições doadoras. Mas mais vale estar atento.

publicado às 07:00


1 comentário

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De José Carlos Pinheiro a 07.09.2006 às 07:03

Caro Ele,

Eu como tu, e como muitos outros, lemos e não acreditámos.

Para mim esta estória toca-me particularmente, vi Cabo Verde quando o processo de democratização do País começou, acompanhei o seu desenvolvimento, lento mas seguro. Conheci muitos Cabo-verdianos que abandonaram vidas estáveis nos Estados Unidos para apoiarem o País neste processo, sonhei com eles um País melhor e mais desenvolvido, sonhei com eles uma terra onde gente tão boa fosse recompensada.

Vejo agora com tristeza que a recompensa daquela gente, que tanto merece, que não compra armas com as ajudas humanitárias, que, em regra, não enriquece com as ditas, que tem orgulho na Caboverdianidade, que tem raça, que não pede esmola, é a retirada dos apoios que têm contribuído para melhorar a vida daquelas pessoas.

É triste a lógica das organizações bi ou multilaterais. É triste que quem cumpre, quem merece, quem luta e quem vence acabe penalizado por ser melhor que os outros.

Ao contrário de ti não espero que o bom senso impere, nunca imperou ao longo dos tempos, premeia-se a corrupção e o roubo e diz-se que são os custos do desenvolvimento.

Que tristeza, por este mundo, mas principalmente por aquele povo que tanto sofreu e de quem tanto gosto.

Um abraço, para Cabo Verde e os Cabo Verdianos, cheio de "sodade" dessa imensa "morabeza" com que sempre me receberam.

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