Uma recepção diplomática. Quatro senhoras de diferentes países ali à conversa. Uma disserta sobre o ano que viveu em Nairobi. Cidade temível, tipo Joanesburgo, uma criminalidade omnipresente, vidas encerradas em bunkers, expatriados aterrorizados e os locais também.Ah, rejubila ela, que diferença em Maputo, esta segurança, esta calma, nada típica das capitais africanas, esta vida aprazível. E todas concordam, aliviadas até pelo que o destino lhes está a reservar.Bem, lembra-se uma outra, "outro dia fui assaltada na f. engels (tão bem conhecemos, sempre foram sete anos!), roubaram-me a mala, empurraram-me pela ribanceira abaixo, foi terrível, ainda para mais vinha com os meus dois filhos, ali a verem tudo". Uma pequena pausa e segue outra - esta conheço melhor, e mesmo bem - "pois, e há alguns meses estava no café Nautilus num sábado de manhã, assaltaram a caixa de câmbios defronte, gerou-se um tiroteio de meia hora, mataram três assaltantes e nós ali estendidos no chão, outros fechados na casa de banho, as balas a sibilarem, até dois dos clientes ficaram feridos". E, remata uma terceira, "assaltaram-nos a casa para nos roubar uma mobília nova que tínhamos acabado de comprar, eu estava bem grávida dos gémeos, e ainda assim espancaram-me valentemente".Entreolharam-se as senhoras, ali em plena recepção diplomática. Súbito lembradas que tanto naturalizam o seu quotidiano que até esquecem tudo isso, até se sentem seguras. E, depois, servem-se de mais um gin, "fraquinho, s.f.f.", um vinho branco talvez, e acompanham com uma chamussa.Bem rijas as nossas mulheres...Nossa sorte. Nossos amores.