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Recepção diplomática

por jpt, em 18.03.04
Uma recepção diplomática. Quatro senhoras de diferentes países ali à conversa. Uma disserta sobre o ano que viveu em Nairobi. Cidade temível, tipo Joanesburgo, uma criminalidade omnipresente, vidas encerradas em bunkers, expatriados aterrorizados e os locais também.Ah, rejubila ela, que diferença em Maputo, esta segurança, esta calma, nada típica das capitais africanas, esta vida aprazível. E todas concordam, aliviadas até pelo que o destino lhes está a reservar.Bem, lembra-se uma outra, "outro dia fui assaltada na f. engels (tão bem conhecemos, sempre foram sete anos!), roubaram-me a mala, empurraram-me pela ribanceira abaixo, foi terrível, ainda para mais vinha com os meus dois filhos, ali a verem tudo". Uma pequena pausa e segue outra - esta conheço melhor, e mesmo bem - "pois, e há alguns meses estava no café Nautilus num sábado de manhã, assaltaram a caixa de câmbios defronte, gerou-se um tiroteio de meia hora, mataram três assaltantes e nós ali estendidos no chão, outros fechados na casa de banho, as balas a sibilarem, até dois dos clientes ficaram feridos". E, remata uma terceira, "assaltaram-nos a casa para nos roubar uma mobília nova que tínhamos acabado de comprar, eu estava bem grávida dos gémeos, e ainda assim espancaram-me valentemente".Entreolharam-se as senhoras, ali em plena recepção diplomática. Súbito lembradas que tanto naturalizam o seu quotidiano que até esquecem tudo isso, até se sentem seguras. E, depois, servem-se de mais um gin, "fraquinho, s.f.f.", um vinho branco talvez, e acompanham com uma chamussa.Bem rijas as nossas mulheres...Nossa sorte. Nossos amores.

publicado às 14:01


1 comentário

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De jpt a 01.07.2008 às 12:37

Súbitos, os olhos culimam uma mashamba na Internet. Há ali, num belo retracto, algum sangue redesenhando o luzidio dos batons e as femininas línguas apalpando o quinino, o limão e o Gin.

Descapulanizados, os amores, fazem corajosamente diplomacia por entre tiros e assaltos. É fresco o quintal ou a sala, apesar dos 30 e tal graus com que, descalços, uns pés rasgados em Michafutene agarram o pilão no verde da matapa.

Desse verde, uma criança sonha nas costas o biberon de leite que o piripiri, a molho no Chiquelene, não consegue comprar. Insenta, a mãe, da dureza fálica do sr. Cossa, sangra o mênstruo, num pedaço a cores de uma velha capulana, de outras seis proles que no esperma cansado e no bafio azedo do tontonto aquele irá trazer, a murros, como um ramo de flores para não falar de amor.

Entre a água morna na moringa e os pingos de suor a lavarem-lhe o rosto, dona Fátima faz suspiros para esquecer o medo da violência com que todos os dias o país a acorda pela velha esteira. E sem diplomacia nem nada, nem gelo, nem fraquitos gins, iça o velho balde de água nas duas mãos gémeas que, sem coserem, fazem a moda das suas companheiras a provar, nos jardins, as verduras da sua machamba fritas e enroladas na massa das chamussas diplomáticas.

Não há assalto pior que o que faz a Pátria, todos os dias, à alma lúcida de Dª Fátima sob os olhares incrédulos e bem grávidos das recepções nas embaixadas.

Um abraço
Eduardo

Publicado por: eduardo às março 18, 2004 08:37 AM

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