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Che Guevara na Feira Popular

por jpt, em 12.06.05

Hoje uma saída nocturna, uma incursão nesse afinal não mito daqui, o "sexta-feira, dia dos homens". E, para mim, algo tão raro nos tempos actuais, e nunca o imaginaria assim há alguns anos. Combinámo-nos ali à praça da OMM, o meu amigo quer-me apresentar a um bar quase novo, até "complexo" ao que parece, local de companheiro seu e dele visita prometida e já muito adiada. Ali o encontrarei, um aperitivo e "depois se verá" quais as nossas paisagens para conversa e maldizeres.

 

Sou o primeiro mas nem espero, coincidência pontual, ei-lo ali. A apresentar-se numa das suas t-shirts estampadas com o tal Che Guevara, elegâncias nele até tardias, conquistas de recentes viagens do turismo académico, este sempre, e por mais óbvio que pareça ser o destino, coisas do bazarismo político. Não lhe perdoo estas vestes da ironia, bem sabe ele que abomino esse neo-ícone, em tempos de qualquer coisa facistóide e assassina, agora a querer-se dietético, "light", fresco de uma moda assim muito alter, alterglobalização chamam-lhe até, em óbvios requebros. Não lhe perdoo, já disse, reajo à óbvia provocação, tal como o faço sempre que me invade a casa em propósitos semelhantes, que hoje não é a primeira afronta risonha. E daí o meu imediato "Foda-se, meu cabrão, agora fazes-me andar aí na rua com um comuna". E ele a rir-se, é mesmo de propósito, a invectivar-me "que queres, é a revolução necessária!!", a cutucar o tuga reaccionário, mesmo que para ele branco simpático, qual negativo do Sidney Poitier, a modos que branquinho bonzinho. E assim nos ficamos, nos obrigatórios insultos, a marinarem coisas de uma amizade.

 

É nisto que já estamos no tal aperitivo tornado vários, pois gente algo conhecida a surgir à mesa e por isso conversa vária, às vezes mole outras nem tanta, como é assim nestes assins. Depois lá chega o nosso "e agora?" e eis-nos a jantar na Feira Popular, fieis ao que aqui vai vigorando, isso de que, apesar do outro tudo, "para restaurantes não há como os portugueses" – e é aqui que lhe lembro a expressão que ouvi ao Rangel, mas que me diz ser de Samora, essa pérola do "só não descolonizei o estômago", devaneio que logo nos dá para a teorização, nele deformação profissional, em mim prosápias de provocador: se há lusofonia o que ela é mesmo é gastronómica....e futebolística, acrescentamo-nos de rajada.

 

Enfim, lá avançamos o nosso jantar, bera diga-se, a injustificar o apreço universal pela tasca lusa, entre os tais maldizeres, as políticas que sempre vão mal, como é de sua natureza ou das nossas manias não sei, a eterna uma ou outra mulher do "ai se pudéssemos", o "como está ele...?" sobre parcos amigos, trabalho e trabalho, livro ali e livro acolá, vá lá, para nos darmos o toque. "E agora?", digestivos digeridos, "e agora?" Discoteca? bar? jazz? mas já?, se avançámos tanto que nem meia-noite é, e há que gozar a noite, arrastá-la. "Agora?", e sou eu que desafio, "já que estamos aqui no portão então vamos passear na feira", sei que ali uma miséria felliniana mas ao qual atribuí encanto, talvez mesmo por isso, no domínio da insensibilidade, sei-o, a do mais querer olhar.

 

E lá vamos, em vagares, a esmoer os pavorosos jantares, um par de quarentões, eu oscilando a rotunda barriga, nítido tuga desses matrecos até recém-chegados, ele escondendo a sua na brilhante t-shirt guevarista e, nem que seja por esta, óbvio "estrutura" local, deste modo a rejuvenescer-se com velhas ideias, a esquecer-se do hoje. E nisso caminhamo-nos para além do Coqueiro, o zambeziano quase fronteira, que o império não-familiar começa por aí, é-nos um passeio a demorar a decadência da decadente Feira, mais fechadas as barracas restaurantes, vazias as discotecas-bordéis. Mas isso é o do todas as vezes por aqui, que esta sempre parece pior do que antes. Mas continua, impávida e, portanto, decerto lucrativa.

 

Nisto do ir andando cruzamos duas raparigas, jovens, bonitas, bem postas como se dizia antes do nosso tempo, que nos saúdam, sorrisos largos, e mais a mim, num "boa noite, como estás?", ao que respondo, simétrico, em palavras e sorriso mas continuando a andar, nisso decerto menos afável. Mas uma delas, mais decidida, avança e interrompe-me, os dois beijos lestos, sempre ditos "beijinhos", a surpreender-me, e eu no arquear de sobrancelhas "Nós conhecemo-nos?", a interrogar-nos, que isto de ser professor, e algo distraído ainda para mais, traz constantes surpresas. Mas que "sim, conheço-te do Piri-Piri, costumo ver-te lá", "ah", sossego, a aferir o registo e então deixo-lhe o meu melhor gentil "então boa noite, obrigado, até à vista", um adeus que é logo barrado num ainda mais simpático "Vocês não querem companhia?" e nós, sempre sorridentes, num coro de "não, obrigado, não é preciso", e eu acrescento, para não lhes ferir as susceptibilidades, e já agora também para auto-justificação, a explicar a recusa, "somos amigos, viemos só passear", que isto não é por causa delas, não é desprezo, não senhora, ao que a mais primeira, à tal reclamação de amizade, confirma "sim, eu sei, costumo ver-vos juntos no Piri-Piri", e aqui já está a inventar, reunir ambiente, numa insistência do oferecimento. E eu a repetir-me, no sorriso e no "não estamos a precisar", as meninas que não levem a mal, somos só amigos a ver passar a noite, e esta mais atrevida logo num "oh!!" duvidoso, que melhor companhia poderemos nós esperar mais à frente?

 

O meu parceiro decide intervir, decerto sabedor que é mais este branco que as acicata, mais dados aos dolares fáceis somos nós, ao que se diz e deve ser verdade. E que por isso ser-lhe-á mais fácil resolver aquele nada impasse, apenas coisa de gentileza bem-disposta, do continuar a andar sem desagrados, do sempre tratar bem as mulheres, ainda para mais neste aqui, "sabes, é isso mesmo, somos amigos, estamos só a passear", o que até é, e mais pelo tom, um agradecimento a tão simpática oferta.

 

Mas nessa sua insistência vem ele mudar o ambiente, a brotar um gelo no olhar da rapariga, aquela mais provocante, súbito um diálogo entre ambos, eu de imediato de fora, estrangeiro excluído, "São amigos? Claro, vê-se! É por isso que andas com a cara dele na t-shirt?", ao que ambos estancámos, um abismo de surpresa, deliciosa para mim, nem tanto para ele agora rubro (sim, rubro) de espanto, e ela a avançar, agora ácida, o desprezo à solta "E tu não tens vergonha? Não tens vergonha de andar com essa t-shirt", e eu, até cruel, já me estou a rir, ele com um embaraço gigantesco, tentáculos na voz, sem mesmo balbuciar, o que poderá ele dizer?, e eu, malévolo, a sublinhar, "é isso mesmo ... somos amigos, eu é que lhe fui eu que lhe ofereci esta minha t-shirt, ele gosta de mim e usa-a", e o meu amigo, ali desgraçado, resmungando (a implorar-me o silêncio?), a necessitar de uns passos à frente para também ele se poder rir desse seu Che Guevara, afinal na sua terra, às suas vizinhas, ícone coisa tão outra.Ainda nos estamos a rir, gargalhadas, quando entramos na primeira porta, refúgio mesmo. E eu já com a esperança que se tenha perdido aquele altercomunista, voltemo-nos burgueses. Aliás, a noite está aí, é certo que assim voltaremos.

publicado às 17:39


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