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O meu ateísmo

por jpt, em 19.03.04
Uma das frases que se me marcou, pérola do falar do falar político, foi de Mário Soares. Quando da sua primeira candidatura a PR disse que "não tinha a graça de ser crente". Um animal político, goste-se ou não. Então apreciei o engenho da frase, instrumento quase subtil de apelo ao voto católico, um lamento até compungido pela sua inferioridade de não-crente, que o irresponsabilizava de tal característica, e implicitava mesmo um pedido de apoio. Algo que o suplantava, que afinal até derivaria da própria divindade. Depois disseram-me ser aquele dito um erro teológico, mas isso não lhe retirava a arte retórica.

Passados alguns anos a sua memória passou-me a irritar. Porque inferiorizadora do ateu. No fundo tão legítima como alguém a lamentar-se de ser crente: "desculpe lá, sou católico, não tenho culpa, é mais forte do que eu", "o senhor não leve a mal mas sou budista, é uma maleita crónica", e etc. Irritação que, sei-o, se associava com as tidas nessas periódicas conversas em que desembocava eu no meu "sou ateu" para logo me emendarem, prestáveis e esperançosos, "ateu não, agnóstico". Prestáveis, esperançosos, mas mal-criados. Eu aqui cheio de respeito pela fé alheia, interesse mesmo, e os interlocutores na volta da palavra ali a desdizerem-me sobre mim próprio, a desrespeitarem-me.

Não tenho dúvida que há uma suave desvalorização do ateísmo. De tal forma que quando encontro alguém que se diz ateu e não agnóstico dá-me vontade de o abraçar. Não por qualquer solidariedade especial, ou por sentir particular afinidade. Não mesmo, o ateísmo não me funciona como vínculo. Mas apenas por não se refugiar no retórico agnosticismo. Por vezes quando alguém se auto-reclama de agnóstico vem-me ao de cima toda a maldade e vou-lhe conduzindo a conversa para até que conclua ele, até envergonhado, "Ok, eu sou mesmo é ateu!". Nem sempre, claro está, que há muito agnóstico por aí. Ou pelo menos às minhas mesas. Mas há uma desvalorização, suave repito. Que casa com a constante desculpabilização. Reparo-o, pois cada vez que ouço, a mim próprio ou a outros, uma afirmação de ateísmo lá a seguimos (Pavlov explicaria) de uma veemente afirmação de respeito pela fé, pelas religiões e pelas igrejas daqueles que nos rodeiam.(e aqui aproveito, sem qualquer ironia e com toda a honestidade, para informar o hipotético leitor deste blog que tenho o máximo respeito pela fé alheia e pelas instituições religiosas)


Nunca elaborei muito sobre este ateísmo. É-me ele normal. Não me ensinaram qualquer divindade, nem tive que a abandonar. Por vezes lembro a solidão que isso transporta. Também ela normal. E não particularmente dolorosa. Pois é-se assim mesmo. Olho a fé alheia com interesse, até profissional. E com respeito, de cidadão. Aceito algum proselitismo alheio. Pois que fé, que crença, que convicção não implica a sua transmissão? E aprecio ouvir a gente de fé, tentar entender-lhe a lógica, ainda que sempre irredutível. E sentir-lhes o sentimento.

Apenas uma vez graduei o que me separa, e por insistência do interlocutor. Que insistia em evangelizar-me, surpreso pela minha impermeabilidade ao que ele considerava ser a dúvida. Ou seja, exigia-me ele que abandonasse eu o ateísmo, que aceitasse a hipótese a existência de deus, que duvidasse da sua não-existência. Pois não é a dúvida, implicitava ele, sinal de saber? Isto tudo sem que se permitisse, por seu turno, a duvidar da sua crença. Esta é uma situação padrão, diga-se, mas nem todos são tão insistentes. Para rematar improvisei. Esquiços que me ficaram até hoje: o de uma superioridade intelectual, pois o crente aparenta ser incapaz de conceber um mundo sem causa, e em particular sem causa consciente; o de uma superioridade moral, pois não preciso de sacralizar os valores que vão comandando (com algumas falhas, reconheço) a minha vida. São eles opções, até conjunturais, e por isso tão válidos.Morreu então a conversa, ofendido o intelocutor. Que aceita ver-se superior ao não-crente mas nunca o inverso. Lembro que lamentei ter falado. Porque assim não se abate a fé de alguém? Não, porque não interessa tentar abater a fé. Para quê?E para quê estas memórias curtas? Para concluir que não entendo o (meu) ateísmo como uma "situação", como uma "condição". Não me cria qualquer vínculo especial com outros ateus. Não me impede qualquer vínculo com crentes. Não me constitui base para qualquer identidade colectiva. Em suma, não é a minha religião.


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Vem esta a arenga a propósito de uma noção que agora descobri, a dos "brights". Se calhar é algo já do conhecimento geral, estarei eu atrasado. Mas fiquei estupefacto, até gelado. Leio algures que "o termo é uma tentativa de reagrupar todos os não-crentes com um aspecto novo e simpático, como o fez a comunidade homossexual nos anos 70, apropriando-se do termo "gay". O termo foi adoptado rapidamente ... e suscitou um entusiasmo mundial..."Têm o blog "The Brights"que acabo de visitar e onde lá está o manifesto: "unir os não-crentes para união social e política". Repito-me estupefacto. As pessoas têm todo o direito de se associarem umas às outras, não me vejo censor. Mas para quê esta plástica, este "tornar-se simpático" ainda para mais em sociedades abertas? E para quê este afã em criar identidades artificiosas. Um apelo à acção política e social assente numa visão de quê? Que união implicará o ser ateu? Que valores sociais, que práticas políticas, lhe serão obrigatórias ou esperadas no hoje em dia, só devidos a essa sua característica?Amanhã lá estarão a dizer "mas se é bright como poderá pensar deste modo? defender aquela posição?". Ou seja, exigindo-se que a partir de uma concepção sobre o todo (até fluída, ainda para mais) se derivem constantes e sistémicas perspectivas sobre os particulares.No fundo uma nova religião. Apenas isso. Ou não, menos que isso. Porque inconsciente de tal o ser. E decerto polvilhada de peralvilhos cheios deles mesmo e suas certezas.

publicado às 14:00



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