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Racismo esquizofrénico

por jpt, em 15.08.05

Um Maputo triste. Leio e reconheço. É uma locução colectiva.

Ao lê-lo lembro um outro texto sobre Maputo, no Sem Técnica. Não concordo com a sua conclusão, questão de opinião, mas muito acertado é o olhar sobre o saudosismo (não as "saudades") que alguns carregam. Saudosismo esse tal e qual nas abordagens tipo a acima referida.

Pouco crítico eu? Talvez, até já o referi. Mas confesso a minha icterícia face aos saudosistas "dos tempos" coloniais e aos saudosistas do "a-seguir" - todos sempre prontos a hiperbolizar o mal actual, e tanto ele é que nem necessita disso.

Quem ler o texto reproduzido no Agreste talvez compreenda o meu esgar. Pequeno-burguês de Lisboa, desses de mulher-a-dias duas manhãs por semana, muito sorrio às promoções e ascensões do Equador. A minha filha vai nos três anos, quase todos os fins-de-semana há festinha. E lá estão as "babás" fardadas, very british colonial - até nas piscinas as encontramos. É um bocado irreal.

A essa irrealidade, até arrivista, sumarizo-a num pequeno episódio, um quasi-nada, que nem para croniqueta chega. Há anos estava no café "Nautilus", esse polo da "montra dos tugas" em parceria com o "Piri-Piri". Súbito da mesa ao lado levantam-se quatro jovens senhoras patrícias, até conhecidas, mulheres de quadros bancários ou afins. Avançam para a rua onde o motorista de um pequeno carro se apresta a recolhê-las. E as quatro lá entram para trás, todas muito apertadinhas, até encavalitadas, pois ... nem pensar em ir à frente ao lado do motorista. Ainda por cima preto, era o homem.

É este ambientezinho muito patrício que custa. Às vezes até com simpatia, ao imaginar-lhes o regresso, outra vez burguesotes, sem ninguém no "patrão". OK.

Mas quando leio os detractores quasi-patrícios (ou sub-patrícios mesmo) resmungarem a presença de portugueses, como se isso significasse similitude com o tempo colonial ("só mudaram as caras"). Quando leio e vejo esse discurso da "anti-tugalhada" esquecer que em Lourenço Marques havia centenas de milhares de portugueses, e entre eles terratenentes, industriais, até capitalistas e que hoje haverá talvez dez mil (talvez...), sem terratenentes, sem industriais, sem grandes comerciantes, com poucas e nem recentes excepções. Hum, quando leio esta anti-tugalhada assim, hum, não me refugio na psicanálise barata, o "estão a matar o pai" tantas vezes repetido. Nem no economicismo do "estão a comprar espaço", menos vezes repetido.

E fico-me, talvez num antropologismo, na apreensão de um racismo esquizofrénico. E associando-o a um sociologismo, olhando gente que perdeu um estatuto social, e nem percebe porquê. Nem percebe que o perdeu exactamente por causa da estratificação, do desenvolvimento interno. De uma burguesia local, pequena, consumista, talvez subalterna. Mas burguesia, apesar de tais locutores lhe negarem tal qualidade, por via de aspas, exclamações ou interrogações. Enquanto, ignaros, ficam a ler o processo em termos raciais, invectivando os malditos tugas.

E lembro-me de tantas conversas aqui tidas com amigos moçambicanos. Alguns meus "primos", outros ditos daqui "originários". Gente amiga, gente não racista. E esclarecida, dessa que sente origens e identidades compósitas como riqueza e não como nódoa. E do como ridículo e falso nos soam tais discursos. Anacrónicos? Não! Feios do racismo, sim. Mas acima de tudo ridículos e falsos. Porque esquizofrénicos. Nada mais.

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publicado às 10:31


7 comentários

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De jpt a 18.06.2008 às 10:37

Leio-o e regresso sempre, aos textos e aos links.

Publicado por: L. às agosto 15, 2005 03:57 PM
http://fazendocaminho.blogspot.com/
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De jpt a 18.06.2008 às 10:37

Eu arrepio-me. E refiro-me ao texto do 'Agreste': ao lê-lo sinto-me isolado, como que flutuando exclusivamente em memórias, e isso não é bom. Acho que não vivo no passado, que não construo castelos onde não os há. Mas... sinto-me em mínimo triste quando leio que, na opinião e visão de outros que da realidade têm conhecimento, nada do que em certa altura sonhei hoje mais é que memórias caducas, desfasadas, totalmente irreais pelo que uns e outros dele, sonho, se banquetearam destruindo. Destruindo. Por isos me arrepio, a realidade destrói o meu sonho post a post, resta-me guardar a viola e não cantar mais, antes que seja um remix de hit's que 'já eram' ou, se calhar até, nunca o foram. A realidade é chata, chata. E envelhece, o que é outra porra.

Publicado por: Carlos Gil às agosto 15, 2005 09:20 PM
http://xicuembo.blogspot.com/
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De jpt a 18.06.2008 às 10:38

meu caro gil a realidade não existe. o que existe são humores.

Publicado por: jpt às agosto 15, 2005 10:29 PM
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De jpt a 18.06.2008 às 10:38

E temos esta vontade de voltar a nadar no tanque da merda - disse merda. E temos esta santa e pesada cruz de parir merdosos ao mundo!!!
Foda-se Teixeira.

Publicado por: Isidoro de Machede às agosto 16, 2005 12:42 AM
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De jpt a 18.06.2008 às 10:39

Tivemos, Gil, o sonho de que o que estava mal terminasse. Ainda o tenho, apesar de terem estragado aquela que esperávamos tivesse sido a grande oportunidade. O presente não desculpa o passado, estava mal e está mal.
Agora vai demorar a, ao menos, parecer que haverá outra oportunidade. IO.

Publicado por: IO às agosto 16, 2005 02:15 AM
http://chuinga2.blogs.sapo.pt/
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De jpt a 18.06.2008 às 10:39

Volto, porque faltou o principal:
Agradecer-te, JPT, teres-me feito ler o 'post' do 'Agreste', achei muito interessante e também vou recomendar!

Publicado por: IO às agosto 16, 2005 02:31 AM

http://chuinga2.blogs.sapo.pt/
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De jpt a 18.06.2008 às 10:40

A questão racial é tema recorrente em Moçambique, serve e serviu sempre dissimular as tentativas de ocupação ou apropriação do pouco espaço existente para acumulação. Já vem de longe o epíteto de "moçambicanos de passaporte no bolso" para se referirem aos moçambicanos não negros. Mas, muitos dos "não originários", sejam eles portugueses, moçambicanos, ingleses, etc., põem-se infelizmente a jeito pelas suas atitudes e forma de estar na vida, servindo "alegremente e ingenuamente" de bodes expiatórios para todos os males que assolam o país. Convém no entanto não esquecer que só fazem o que é permitido pela elite dirigente...

Publicado por: PL às agosto 16, 2005 09:05 PM

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