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O Público e Nampula

por jpt, em 30.03.04
[Penso que é quase universal e quase obrigatório. Quando conhecemos algo e surge um jornalista a escrever sobre isso desgostamo-nos, a análise parece sempre superficial ou falha. Não apenas devido a diferenças de pontos de vista ou afectos. Será também devido à visão do jornalista-generalista, sempre mudando de contextos e temáticas. Somos críticos, mas face ao corropio que é a vida deles não podemos ser impiedosos. Há que ser crítico mas atentar nisso, reconhecer melhor e pior.]

Ontem, inauguração da exposição de Malangatana (maldito scanner) e lançamento do seu livro. O que nos rimos, quase até às lágrimas, quando alguém narrou o último artigo sobre o tráfico de orgãos em Nampula. Eu já nem tinha lido. A jornalista foi até junto da "praia de Caetano Veloso" onde "Os pescadores não falam em barcos supeitos, apontam a linha férrea, o sentido Maputo, África do Sul".

Repito, o que nos rimos, compungidos até. Para quem não sabe, porque nunca lá foi, a praia é Fernão Veloso. Dirão "ok, um pequeno erro, acontece, nem é importante..." e eu até concordaria. Mas a linha férrea não vai para Sul, em direcção a Maputo. Vai para Oeste, em direcção ao Malawi. O que é uma característica crucial de toda a vida da província. O que é uma característica crucial do Moçambique colonial e nacional, os corredores ferroviários atravessam transversalmente o país, da costa ao Malawi no Norte, da costa ao Zimbabwe no Centro, da Costa à África do Sul no Sul. O caminho-de-ferro não conecta sul a norte. É das primeiras coisas que se aprendem quando se chega aqui. Pela sua importância e pelo que demonstra das articulações existentes, a todos os níveis.

E também porque se vê. Basta olhar para o sol.

Não há dúvida, a jornalista perdeu os pontos cardeais. Ou seja, perdeu o norte. Literalmente. Não se diga que há má vontade nas críticas ao seu trabalho. Só piedade.

Ah, o seu a seu dono. Chama-se a jornalista Ana Cristina Pereira. E o fotógrafo, que decerto se preocupou com a luz do Sol, também não lhe disse onde estava o norte. É ele Fernando Veludo.

E, já agora, o dono de tão especiosa prosa chama-se Público.

publicado às 23:23


2 comentários

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De deda a 07.09.2006 às 05:51

Recomendo a leitura do texto "Crime e feitiçaria em Nampula", impresso na revista Pública deste domingo. É certo que os jornalistas cometem erros, mas também estou convicta que nem os leitores mais severos são imunes à beleza de um texto bem escrito.
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De Ana a 07.09.2006 às 05:54

logo no início do texto, diz-se que a línha férrea vai até entre-lagos, já na fronteira com o malawi. os pescadores apontam a linha férrea e o sentido maputo: duas direcções portanto, e não uma. para as crianças fazerem viagens até maputo, ao que se sabe, sobram camiões.... mea culpa. não se percebe. e os 40 graus não justificam tudo... nem a correria. má onda, sem dúvida, foi trocar fernão veloso por caetano veloso.

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