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Em Junho de 1871 o então jovem Eça de Queiroz escreveu assim, enquadrando o seu manifesto artístico-literário. Interessará regressar? Tamanha a aparente homologia com a actualidade, se quisermos assumir a mesma atitude intelectual, ou melhor, o cansaço. Ainda que as analogias históricas sejam nada mais do que armadilhas à análise aqui transcrevo, mas esperançoso. Pois se tanto decadentismo não se cumpriu, para quê assumi-lo agora? Não será isto condição, processo, e não crise, queda?

 

Mas acho avisado ir-lhe até ao final, a isso convido os visitantes. Pois ainda que nesse sentimento decadentista brotou então projecção acertada. Como será (seria) hoje? Sem tais escapatórias?

 

"O paiz perdeu a intelligencia e a consciencia moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por unica direcção a conveniencia. Não há principio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguem se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens publicos. A classe media abate-se progressivamente na imbecilidade e na inercia. O povo está na miseria. Os serviços publicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprêzo pelas idéas augmenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indifferença de cima abaixo! Todo o viver espiritual, intellectual parado. O tedio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruina economica cresce, cresce, cresce... O commercio definha. A industria enfraquece. O salario diminue. A renda diminue. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.

 

N'este "salve-se quem puder" a burguesia proprietaria de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro.

 

 

De resto a ignorancia pesa sobre o povo como um nevoeiro. O numero de escholas só por si é dramatico... A população dos campos, arruinada ... trabalhando só para o imposto por meio de uma agricultura decadente, leva uma vida de miserias, entrecortada de penhoras. A intriga politica alastra-se por sobre a somnolência enfastiada do paiz....

 

Não é uma existência, é uma expiação.

 

E a certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciencias. Diz-se por toda a parte: "o paiz está perdido!". Ninguem se ilude. Diz-se nos conselhos de ministros e nas estalagens. E que se faz? Attesta-se, conversando e jogando o voltarete, que de norte a sul, no Estado, na economia, na moral, o paiz está desorganizado - e pede-se cognac! ...

 

Esta decadencia tornou-se um habito, quasi um bem-estar, para muitos uma industria. Parlamentos, ministérios, ecclesiasticos, politicos, exploradores, estão de pedra e cal na corrupção ...

 

O povo, esse, reza. É a única cousa que faz além de pagar ...

 

A realeza é accusada por tudo: pelas despesas que faz e pela pobreza em que vive; pela sua acção e pela sua inacção; por dar bailes e por não dar bailes ...

 

Apesar d'isso, a esta politica infiel aos seus princípios, vivendo n'um perpetuo desmentido de si mesma, desauctorizada, apupada, pede ainda uma multidão innumeravel de simples a salvação da "cousa publica". É tragico, como se se pedisse a um palhaço de pernas quebradas mais uma cambalhota ou mais um chiste.

 

A burguezia invejosa e desempregada fala na "federação", na "republica federativa", na "extincção do funccionalismo", na "emancipação da classe operaria"; mas entende que o paiz pode esperar por estes beneficios todos se no emtanto lhe derem a ella logares de governadores civis ou de chefes de secretaria. Uma plebe ardente fala em beber o sangue da nobreza; mas ficaria satisfeita se a nobreza, em vez de lhe oferecer a veia, mandesse abrir "Cartaxo".

 

Tanto se conciliam todos! É assim que o egoismo domina. Cada um se abaixa avidamente sobre o seu prato...

 

 

Nas sociedades corrompidas a ordem chega assim a reinar. É a ordem pelo desdem. Outros diriam pela imbecilidade...

 

[O país] Paga para ter ministros que não governam, deputados que não legislam, soldados que não o defendem, padres que rezam contra elle. Paga áquelles que o espoliam, e áquelles que são seus parasitas. Paga os que o assassinam, e paga os que o atraiçôam. Paga os seus reis e os seus carcereiros. Paga tudo, paga para tudo. ...

 

Portugal não tendo príncipios, ou não tendo fé nos seus principios, não pode propriamente ter costumes. Fommos outr'ora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Comprehendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana; e fizemos muitas revoluções para sair della. O "caldo da portaria" não acabou. Não é já como outr'ora uma multidão pittoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros, que o vem buscar allegremente, no meio dia, cantando o "Bemdito"; é uma classe inteira que vive d'elle, de chapéo alto e paletó.

 

Este caldo é o Estado. Toda a nação vive do Estado. Logo desde os primeiros exames no lyceu a mocidade vê n'elle o seu repouso e a garantia do seu futuro. A classe ecclesiastica já não é recrutada pelo impulso da sua crença; é uma multidão descoccupada que quer viver á custa do Estado. A vida militar não é uma carreira, é uma ociosidade organizada por conta do Estado. Os proprietarios procuram viver á custa do Estado, vindo a ser deputados a 2$500 réis por dia. A propria industria faz-se proteccionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive tambem do Estado. A sciencia depende do Estado. O Estado é a esperança das familias pobres e das casas arruinadas....

 

É uma nação talhada para a dictadura - ou para a conquista."

 

[Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre, Lisboa, Companhia Nacional Editora, 1890, pp. 11-43]

publicado às 17:21


2 comentários

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De jpt a 22.06.2008 às 17:27

As analogias históricas são um enviesamento da análise. Perfeitamente de acordo quanto a isso. Mas os escritos do amigo Eça desafiam a minha convicção. Sabemos que tanta coisa mudou e, no entanto, o retrato parece ter sido tirado esta tarde.

Publicado por: Miguel Silva às setembro 28, 2005 02:02 AM
http://vivaespanha.blogspot.com/
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De jpt a 22.06.2008 às 17:28

Caro JPT, arrasador como sempre! Cumprido o fado da ditadura e da conquista, espero sinceramente poder partilhar da sua esperança noutras conquistas deste Portugal desmoralizado. Um abraço

Publicado por: José Paulo às setembro 28, 2005 02:03 PM

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