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Atropelamentos

por jpt, em 05.04.04

Há uns meses participei numa missão internacional aqui decorrida. No briefing, longo diga-se, sobre a situação, objectivos e cuidados logísticos os organizadores sublinharam que em caso de atropelamento os membros da missão deveriam afastar-se do local o mais rápido possível, dirigindo-se à esquadra mais próxima. Tudo isso devido ao perigo de linchamento popular em que os condutores envolvidos incorrem.

Insurgi-me na altura. Referi a ausência de dados efectivos sobre situações semelhantes. Sublinhei a escassez de ambulâncias no país, salientando a importância de acompanhamento dos feridos aos hospitais e centros de saúde, ainda que quebrando a regra de ouro dos serviços de saúde alhures, não tocar num acidentado.Hoje telefona-me um colega amigo, abatido. Durante o fim-de-semana teve a infelicidade de atropelar mortalmente um peão, uma situação malfadada que lhe foi completamente impossível de evitar. E, em pleno grande Maputo, após alguns minutos no local do acidente, esperando os socorros já então inúteis, teve que fugir do local aproveitando a boleia do primeiro carro que passou, pois o linchamento ia iniciar-se.Sem leituras apressadas logo me surgem estes episódios como demonstrativos do profundo hiato existente entre uma população desapossada e todos os seus patrícios que, pelo menos, partilham da benesse de uma viatura, desse extraordinário signo de distinção. Gente de um outro mundo, culpada de imediato. Atropelamentos feitos catarse de uma extrema estratificação?

publicado às 08:43



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