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Os livros de Natal e as editoras

por jpt, em 29.12.03
Não se queixam muito os livreiros de Maputo, não lhes corre assim tão mal o negócio, e não falo só destes finais de Dezembro. Bom sinal! E ainda que o grosso das vendas seja livro estrangeiro, para este Natal animaram-se as edições na escala do mercado local. As duas semanas anteriores foram de azáfama nos lançamentos, alguns ainda com chamuças e vinho branco, a não perder, mesmo que não se leiam (ou comprem) os livros.
 
 
Mas depois basta ir comprar os presentes para resmungar com a distribuição, as novidades não aparecem. E quando se fala de tiragens pequenas, a oscilar entre os 500 e os 1000 exemplares, e de editoras não muito abonadas, o que significará perder uma estação natalícia?
 
 
Talvez não muito, e este é um problema outro, pois a maioria das edições que surgiram chegam por via de patrocínios. Dinheiro em caixa, edição paga, distribuição esquecida? Se calhar é isso, e depois lá ficam os caixotes de livros em armazém e o “ai, ai, que os livros não se vendem, não há mercado”, e estou só a falar em Maputo, que no resto do país nem se fala. E os autores a não serem lidos, ou tão lidos como o gostariam, e isso ainda é o pior.
 
 

Andei pelas livrarias, a comprar as poucas prendas e a falar com os empregados. Nas duas maiores livrarias de Maputo, as Escolar Editora, comprei o antepenúltimo “As duas sombras do rio”, o qual está esgotado, cinco meses depois de sair. Que raio, porque fizeram tão poucos? Do último de Mia CoutoO Fio das Missangas”, edição local há apenas um mês restam 30 em armazém, e repito a pergunta. Do delicioso “Xingondo”, belas crónicas de Daniel da Costa, nem vê-lo. E estas nem são edições patrocinadas, mas faltou qualquer coisa.

 

[Já agora que falo do Xingondo, um aviso de não crítico a quem chegou até aqui. É o cronista que mais me encanta nesta terra, não um imortal, mas algumas das peças bem conseguidas e, mais do que tudo, com uma ironia suave por aqui tão única, que o hábito dos seus colegas é um risco bem grosso, para ser nítido, que até cansa].

 

De Panguana, “O Chão das Coisas”, a biografia de Coluna “O Monstro Sagrado”, “A Viagem Profana” de Nelson Saúte, tudo da segunda metade de Dezembro nem sombra. Deste pacote de fim de ano só os “Poemas de Prisão” de Craveirinha à venda, nos escaparates usa-se dizer, e talvez porque noblesse oblige. E, atenção, todos patrocinados. Causa - efeito?

 

Cá para mim anda-se a dormir na forma, mas enfim, não sou homem de negócios. Mas fico-me, falta distribuição, não tão difícil assim em Maputo. Repito, é o raio dos patrocínios, o livro está feito, há o objecto e pronto, ninguém se preocupa mais.

 

E já agora, que falo de livros. Bebo com o poeta Afonso dos Santos, ele ia mais adiantado do que eu, mas ainda assim vai dizendo que anda à procura de editora para dois novos livros. Um “Coleccionador de Quimeras” que aqui esgotou 750 exemplares de poesia e anda à procura de quem o edite? Em casa vou ver-lhe o livro e lá está, patrocínio institucional, cheira-me a metade da edição metida em caixotes como retribuição do taco avançado e, aposto, desde então condignamente clandestinos para não desarrumar os corredores. Não sou muito de poemas, defeito ou característica, não sei. Mas um tipo que se avança com

 

Quando as minhas angústias

começam a morder-me

ponho-lhes a trela

saio à rua a passeá-las

e deixo-as ladrar

ao tédio transeunte.

Depois ponho-lhes asas

e deixo-as voar

como pássaros

em busca de primaveras

imprevisíveis

 

bem que deveria ser editado, mas para ser mesmo lido. Fosse ele de salões e talvez. Mas se calhar ladra-nos demais, a nós transeuntes.

publicado às 15:06


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