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Uma Cerveja no PiriPiri

por jpt, em 08.04.04
A gastar mais uma tarde sento-me no inabalável PiriPiri, a vendedora de castanha traz-me o prato suficiente, vem a Amstel habitual para o dr. Texeira, o sol bonito de Dezembro a despedir-se por hoje, aqueles livros que percorro legitimando a preguiça e de cujas páginas nada recordarei quando chegado a casa. Vazias estão ainda as mesas, à minha direita dois clientes palradores vão invectivando as muitas belezas que passam, à esquerda outros dois, estes apenas entre eles. Como sempre vou-me deixando perder no crescente bulício do fim do dia, hora de todos saírem para a vida, verdadeira ou falsa já é assunto de cada um.


Brusco irrompe um tiro, fugaz como é sua natureza, surpreendendo o barulho da avenida. Balanço com o estampido, como se fosse o próprio alvo. Depois, com algum vagar julgo eu, levanto-me para confirmar o ocorrido e mesmo defronte, do outro lado da rua, no meio da venda de batiks, ainda vejo o fumo da arma. Um silêncio esbateu-se sobre a avenida, por ora parecendo parada. Algo incrédulo interrogo-me à direita para os agora mudo palradores “isto foi um tiro, não foi?”, e eles só acenos, que se lhes secou a verve, então repito-me para a esquerda, aí patrícios de olhos abertos e circulantes, e “é pá, sim…foi um tiro, se calhar é melhor sentar-se…”, pois só eu estou em pé. Entretanto lá vai surgindo um par de polícias, correndo bem devagar para a ocorrência, de onde vendedores e arrumadores não arredaram, e alguns guardas de chamboco caído também se aproximam. Tudo isto sem que haja pressa pois o assunto há-de ser conversado durante algum tempo, e não se chegando a qualquer exactidão sobre o acontecido tudo findará assim mesmo, o que não deixa de estar certo pois o atirador há muito que partiu e ninguém foi atingido. Nisto o empregado já se arrisca à esplanada, mas diz-me que de nada se apercebeu, não vá a confirmação que lhe peço ser de mau agoiro. Face ao seu silêncio resta-me ironizar para os patrícios, “é pá, isto é desagradável, ainda se morre na esplanada!”. E, que fazer?, remato num encolher de ombros verbal, “Olhe, traga-me mais uma Amstel … e amendoins”, e fico-me, nem sequer a remoer. Só depois, e talvez porque a nova cerveja me refresca, é que me apercebo que não é natural toda esta minha indiferença. E para mais com estes recentes assaltos a gente conhecida, alguns agora mortos, outros para sempre aleijados, e outros ainda, sorte sua, apenas de bolsa aliviada. Fico-me então a resmungar entredentes, e com os impropérios alumia-se-me a memória.


De súbito sinto que cheguei a Moçambique há já muitos anos, tantos que percebo agora não ter sido só eu que encaneci anafado ao lado da Inês, zangas tão passadas que agora até aí vem uma nova alguém, e que é tão bem-vinda. Nisso fui mudando, para além dos dolares no banco, que nem tantos assim, também nas andanças, nas gentes conhecidas e até nalguns patrícios que sofri. Mas, e só hoje reparo, também o anfitrião envelheceu, e apenas por distracção isso me pode surpreender. Quando cá cheguei os tempos eram outros, uma jovem paz a caminho de eleições. Mas era ainda um país violento para o recém-chegado, a pouco perceber apesar dos olhos bem abertos. Nessa altura aboletei-me numa casa sita na Avenida Lenine, toponímia que recebi com um sorriso aberto cuja ironia aumenta hoje, habitando há anos uma outra resistente, a Engels. Esperando partir rumo a um Norte para mim totalmente desconhecido passei as primeiras noites ouvindo sucessivas rajadas de tiros mesmo ali em baixo. Nesse tempo as metralhadoras eram usadas pela polícia, instalada nas suas barreiras ali defronte, entre os nossos prédios e o chamado "complexo dos russos", um enorme bunker-sobrevivência que também me fazia sorrir. Todas as noites mal começavam os disparos o meu irmão, que entretanto também mudou com o tempo, morreu-se, lá se postava na varanda a observar os eventos na minha companhia, comentando os despistes, as prisões, os espancamentos, com a calmaria de quem tinha visto muito mar e muita terra. Eu ia fumando, postado ali a seu lado e montando o ar de irmão mais novo, é certo, mas também com alguma estrada atrás de mim.


Para os dias, e como estrangeiro em terra estranha, procurei o melhor balcão da cidade, onde sempre se conhecem as pessoas que se devem conhecer. Aquele que me indicaram foi este mesmo, o do PiriPiri, restaurante esplanada ao cruzamento das avenidas ricas, o qual não só surgia como instituição local mas também brilhava na ausência de uma verdadeira concorrência. Porque mesmo se então a cidade fervilhava de estrangeiros instruindo a paz, a sensação era de que o dinheiro não abundava, tanto escasseavam os sítios onde o gastar.


Nesse tempo eu era andarilho e caminhava as longas avenidas para terminar os dias entremeando cerveja e castanha, deixando-me meter conversa para que me explicassem onde estava, sem recurso a investigadores ou livros. Depois regressava a casa, sempre evitando o anoitecer, não por causa do que me diziam de indizíveis perigos, pois para isso bastava-me o que ia vendo do alto do décimo andar. Foram esses cuidados que me impediram de assistir ao célebre assalto ao PiriPiri, acontecimento que correu mundo e que veio a entrar na mitologia da cidade. Num final da tarde, que aqui é já o princípio da noite, irrompeu um bando aos tiros pelo restaurante, ataque com toque de "western", ferindo assim uma boa meia dúzia de clientes e matando dois, um dos quais refugiado atrás do já citado balcão. Caixa roubada, e pobre colheita ao que constou, puseram-se os assaltantes em fuga, deixando a cidade em polvorosa, que isto das zonas burguesas serem atacadas amplifica sempre, e muito, o ruído, ainda para mais quando há baixas estrangeiras entre os consumidores.


Lembro agora a minha apreensão nesses momentos, ainda assim muito relativa. Havia alturas em que resmungava desiludidas conjecturas sobre o quão acolhedor deveria ser o meu destino, lá no mato, sendo a zona nobre da capital assim tão animada. Mas o mais das vezes ficava-me descansado, não por qualquer laivo de inconsciência, mas é certo que um tipo dos Olivais vai sempre relativizando a violência a que assiste, ainda para mais nessa época, saído da agitação de Hillbroad, das matanças no Bophuthatswana, e de viver o absurdo na queda do Gkozo. Um encolher de ombros de neófito armado em veterano, um "são cenas de África...", e estava tudo dito, alguns cuidados e toca a andar.


De qualquer modo não estava imune à excitação, tiros são tiros, mortos são mortos, e assim tudo tão evidente não deixava de me ser novidade. E havia mais! Corria que, fora do alcance dos meus olhos, nos “bairros de caniço”, que é como aqui as gentes da baía chamam à cidade de Maputo, também aumentavam os crimes. Aí, diziam-me e nunca o confirmei, a própria população tinha organizado eficazes esquemas de vigilância e justiça. Com um para mim surpreendente relativismo moral, nacionais e estrangeiros anuíam na competência da “técnica do pneu”, que por lá amíude ia sendo executada, pois o flagrante delito até o ordálio dispensava. Mas o que mesmo me surpreendia era a azáfama com que família e desconhecidos comentavam tais assuntos, pois se saídos de uma guerra civil pensava-os mais habituados a semelhantes episódios. Querendo-me analítico, ia matutando que por mais terrível que tivesse sido a guerra esta cidade intra-muros tinha passado algo incólume, pelo menos esta gente com que me cruzava, que por aqui as geografias sociais são bem mais delimitadas do que na minha terra. Decerto por isso tanto estranhariam todos aqueles tiroteios. Aqui e ali todos coincidiam nas explicações para tais inabituais acontecimentos. Às barreiras policiais viam-nas como procurando guerrilheiros infiltrados com suas armas, prontos para a sublevação pós-eleitoral. E era desses mesmos que provinha o crime dos “bairros”, dessa gente do mato ignorante da vida industriosa das urbes, então aqui deslocados e procurando sobreviver pela pilhagem própria à guerra. Mas, e recordavam-mo, essa bandidagem tinha ainda uma agenda política como bem o mostrava o assalto às zonas ricas, a de destabilizar a capital, fazer descrer na paz e no germinar da democracia. Sabendo-me das antropologias, alguns afirmavam as divisões étnicas, seculares conflitos agora irmanados na cidade. E sempre alguém lembrava o regresso dos soldados, desmobilizados ainda sem nada, traumatizados quantas vezes, habituados a anos de receber ou tirar, e tantos deles “tratados” para nada recear, todas essas vacinas imortalizantes.Assim sendo, naqueles dias eu estaria a assistir ao estertor final da guerra. Às dores de parto de um país pacífico e democrático misturadas com a ânsia nervosa face às eleições das quais era o país virgem, verdadeiro e assustador rito de iniciação. Tudo o que então se passava, toda a excitação que o rodeava era política. A política tudo explicava!


Em breve lá segui para Norte, para um mundo feito por uma gente pacífica tão pobre como dizem que diz a Bíblia, a viver das sua pequena machamba, feliz com uma paz que não encerra nem rapinas nem minas, e que a deixa ir até à estrada comerciar o tão pouco que tem. E face a isso logo esqueci sem mais dúvidas todas aquelas citadinas questões. De curva em curva, eis-me agora aqui. Nestes anos fui assistindo a alguns assaltos, mas onde os não há? Fui gozando uma pacífica cidade, sem muito me interrogar, burguês na calmaria do meu bem-bom. Por isso de repente, enquanto pago a conta, reparo no envelhecimento do meu caro anfitrião, de novo violento, tiroteios desabridos na própria rua, mas agora sem motivos políticos, atávicos tribalismos ou quejandas respostas, nada que fale do futuro do país. Apenas ladroagem, criminosa, assassina. O conflito seco e duro do “dá cá…”, mais irracional e inesperado do que qualquer outro. E velho como o mundo.


Hoje janto mal. E penso em Mavalane.

publicado às 08:55


4 comentários

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De Marta a 13.04.2010 às 00:15

Saudades desta prosa
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De jpt a 13.04.2010 às 19:01

coisas da semi-juventude
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De zeparafuzo a 14.04.2010 às 22:31

È no que dá ser burguês! È muito bonito ser-se humilde. È bom cheirarmos África. Ainda é melhor amar Moçambique.
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De Marta a 28.04.2010 às 18:02

Melhor ainda é assinar por baixo sem o escudo do anonimato ...

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