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Michel Cahen

por jpt, em 04.11.05

Uma entrevista a Michel Cahen no Diário de Notícias de Lisboa. [texto abaixo transcrito, retirado do atento Forever Pemba]. Algumas visões interessantes sobre a história recente do país. Algumas visões a discutir (que é o melhor que pode acontecer a um investigador, isso do ser discutido). E também interessante ver as causas mobilizadoras para a investigação.

Cahen é sempre incómodo em Moçambique (que é o melhor que pode acontecer a um investigador, isso do incomodar). Aqui algumas perguntas (ainda que anónimas ...)/ contraposições atiladas. Ou seja, discutíveis.

Eu aqui nem opino. Algumas ideias parecem-me pacíficas, ainda que a outros talvez não o pareçam. E algumas até já bem sistematizadas, por ele e por outros autores. Outras nem tanto. Algumas até anacrónicas. Mas aquilo que retiro, o facto que me é mais interessante e sem nenhum desmerecimento por Cahen (que não o mereceria, diga-se) é a "coincidência" do DN: entrevista e visita presidencial de Armando Guebuza a Lisboa. Pequena pirraça? Sabendo da inexistência de um olhar analítico dos media portugueses sobre Moçambique esta "coincidência" só o poderá ser. Malgré Cahen, claro.

Pobre DN.

Diário de Notícias, 30.10.2005 -Leonardo Negrão

Quando é que começou a interessar-se por Moçambique?

- Em Julho de 1975. Tinha 22 anos e, como muitos dos meus amigos da Sorbonne, ainda estava influenciados pelos acontecimentos de Maio de 1968. A maioria veio para Portugal, para ver a Revolução dos Cravos, mas eu nãoo. Optei por África.

Porquê?

- Era estudante de História e, à semelhançaa de muitos estudantes na altura, fazia longas viagens, de quatro, cinco meses... A maioria ia para a Índia, mas eu optei por África. E, em 1975, fui a Moçambique. Fui à boleia desde Nairobi e cheguei à zona das "três fronteiras" - Moçambique, Malawi e Zâmbia - pouco depois da independência.Esperei três dias para apanhar boleia de um camião para a Beira. O motorista era um antigo membro dos comandos, com uma tatuagem no braço.

Passou a fronteira sem problemas?

- O soldado da Frelimo não sabia muito bem o que fazer... Como eu não tinha visto, deu-me uma guia de marcha para ir até à Beira...

E foi ?

- ...Sim, mas o mais interessante foi que o antigo comando tinha um auxiliar o Pedro, que lhe preparava o pequeno-almoço, o almoço e o jantar. Mas nunca comia connosco, o que era estranho. Um dia, virei-me para o motorista e perguntei-lhe: "Então e o Pedro? Não come?" Ainda hoje recordo a sua admiração: "O Pedro? O Pedro só come à noite." Ou seja, como era preto, o Pedro só comia à noite, e pronto! Isso fez-me pensar na similitude que podia existir entre o colonialismo francês e o colonialismo português, que não passava tanto pela implantação do grande capitalismo, mas mais pelos militares, pelos padres, pelos servidores da administração, pequenos comerciantes...Essa conversa fez-me pensar nas semelhanças entre os colonialismos francês e português e no tipo de colonialismo que poderia ser produzido por uma metrópole europeia com poucas potencialidades de investimento em capitais. Muito diferente, por exemplo, da Grã-Bretanha e da Holanda.

Isso levou-o a interessar-se por Moçambique?

- Isso e o regime de partido único. Ao contrário dos meus amigos, que tinham apoiado a luta contra o colonialismo, transformando, depois, esse apoio numa solidariedade com o partido único, sempre fui contra os partidos únicos.

É essa a razão que o levou também a sublinhar a incoerência dos militares que fizeram uma revolução em nome da liberdade e da democracia em Portugal, lançando uma descolonização que transferia os poderes para partidos únicos nas colónias?

- É. E porque isso deriva de um certo paternalismo de alguma esquerda europeia que, nessa altura, se manifestava contra as ditaduras na América Latina, apoiando, no entanto, regimes de partido único em África porque consideravam isso como uma etapa na criação da nação.

Qual naçãoo? A nação que nascia das fronteiras coloniais que tinham dividido vários povos? Voltou muitas vezes a Moçambique?

- Voltei em 1981, 1985, 1988... Comecei a interessar-me pelo impacto dos regimes de partido único na desagregação das sociedades tradicionais, já que a Frelimo apostou num paradigma de modernização autoritária e de transformação rápida que não respeitava as identidades sentidas pelas populações. Para a Frelimo havia um só povo, uma só nação e um só partido, do Rovuma ao Maputo. Afinal, uma concepção semelhante à dos portugueses, para quem Moçambique só era Moçaambique porque era Portugal.

Começou a estudar as etnias...E a tentar perceber o fracasso das aldeias comunais.

- Para quem era da Frelimo, o fracasso das aldeias comunais resultava do facto de o Estado não ter conseguido pôr em prática a linha do partido. Para mim, o que importava passava por outra coisa o princí­pio da aldeia comunal era, em si mesmo, uma agressão à sociedade camponesa.

Porquê?

- Os africanos têm uma relação muito forte com o espí­rito dos seus antepassados. Pelo que deixar as suas terras significava tambémm deixar os antepassados para trás.

Como é que explica as agressões da Frelimo às estruturas tradicionais?

- O que se pode esperar quando se enviam jovens de 18 anos para os campos, onde era suposto terem de se impor a régulos com mais de 70 anos? Isso é uma agressão completa. E quando eles proibiam os rituais da chuva e depois não chovia? Muitas vezes, ouvi pessoas do povo referirem-se aos responsáveis que vinham de Maputo como "o camarada que veio da Nação". Isso é um vocabulário popular muito interessante. Ou seja, o povo era o povo organizado, que era membro do partido e da administração do Estado. Quando havia fome, uma pessoa do povo tinha direito a um saco de arroz. O popular só recebia um quilo.

Daí­, passou para a Renamo?

- O que me interessou na Renamo foi perceber que, ao contrário do que muitos tinham previsto, ela não tinha acabado com a independência do Zimbabwe, em 1980. O que significava que a Renamo era autónoma e conseguia sobreviver para além do apoio da Áffrica do Sul. Nessa altura, havia quem dissesse que a Renamo exprimia apenas os interesses do apartheid. Mas essa imagem não era compatí­vel com a sua influência. Quando Samora Machel morreu, em 1986, a Renamo actuava em 80% do território. Em parte, as pessoas sentiam-se agredidas pela Frelimo e acreditavam que a Renamo as protegia do Estado.

Entrou em contacto com a Renamo?

- Só visitei as suas zonas de influência em 1994. Segui a sua campanha eleitoral durante meses...

E interessou-se pela Renamo...

- Mais pelo mundo das etnicidades, já que a Renamo pouco, ou nada, diz sobre as etnicidades. A Frelimo é que transformou a questão das etnicidades num facto polí­tico, quando as agrediu. Não percebendo que os regulados estavam em crise no final do período colonial, altura em que muitos filhos ou netos de régulos preferiam ser motoristas de táxi na cidade do que régulos nas aldeias. Ao tentar apagar tudo, a Frelimo recriou-lhes essa legitimidade.

É essa relação da Renamo com os régulos que explica a votação em 1994?

- Creio que muitos dos que, em 1994, votaram na Renamo o fizeram porque se sentiam marginalizados. E não apenas pela Frelimo. Muitos votaram contra a sua própria marginalização pelo Estado moderno.

Conscientes do que faziam?

- Penso que sim. Repare-se que as comunidades que mais apoiaram a Frelimo foram precisamente aquelas que melhores relações tinham com os portugueses. E as populaçõeses que mais se revoltaram contra os portugueses foram as que estiveram mais perto de Renamo.

publicado às 10:28


3 comentários

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De jpt a 23.06.2008 às 10:34

Interessante a entrevista, pelo seu timing, apesar de não trazer nada de novo. Estas questões há muito que eram discutidas intensamente, antes mesmo dos Acordos de Roma, quer no seio da Frelimo, quer em meios académicos, como o Centro de Estudos Africanos, quer mesmo pelos jornalistas mais inconformados. O António Sopa e a Inês Nogueira do Arquivo Histórico, as viúvas do José Negrão, Aquino de Bragança e do Carlos Cardoso, talvez tenham algum espólio documental de grande interesse. A grande questão reside na real possibilidade de qualquer país do 3º mundo enveredar por caminhos por si construídos (re-inventados?)e não impostos pela ordem económica mundial. Em todas as fases da História do Moçambique independente se assistiu e ainda se assiste, à importação de modelos que provocaram e provocam rupturas na sociedade tradicional, com excepção talvez de um período breve em que Samora tentou saídas alternativas. Como diz Mia Couto: "Mais do que gente preparada para dar respostas, necessitamos de capacidade para fazer perguntas (…) A bússola dos outros não serve, o mapa dos outros não ajuda. Necessitamos de inventar os nossos próprios pontos cardeais. Interessa-nos um passado que não esteja carregado de preconceitos, interessa-nos um futuro que não nos venha desenhado como uma receita financeira.” Pergunto-me é isso possível no mundo de hoje? Ou melhor, estão as elites políticas de todos os quadrantes dispostas a isso?

Publicado por: José Paulo às novembro 4, 2005 08:32 PM
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De jpt a 23.06.2008 às 10:35

Vivi em Maputo no tempo de Samora.Quando pensei que ele estava a pensar em "saidas alternativas" , o avião caiu. Coincidêndias?
Antes não tinha nenhuma.Era tudo estaca zero.
Educação era mandar os adolescentes urbanos cortar capim.Os campos de Reeducação?
E o Guebuza era o "20/24", lembram-se quando uma moçambicana que se quizesse casar com um estrangeiro tinha 24 horas para sair do país?

Publicado por: C. Indico às novembro 5, 2005 01:43 AM
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De jpt a 23.06.2008 às 10:35

É claro que é propositado.Mas em todo o lado é assim.

Publicado por: C. Indico às novembro 6, 2005 04:33 PM

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