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Memórias 1

por jpt, em 12.04.04
Uma característica da bibliografia portuguesa é a reduzida tradição memorialista. Basta entrever a loja de algum modesto alfarrabista em país anglo-saxónico para cobiçar as pilhas de memórias ou livros de viagens, monos tantos deles. Mas em Portugal não. E tantos anos de viajantes, colonos, emigrantes não cimentaram essa corrente, que nestes casos até poderia ter sido alimentada por esses exotismos biográficos.Não se pede a estas obras grandes relevos literários ou extraordinário rigor histórico. Acima de tudo poderiam dar-nos esclarecedores ambientes de época ou factos da "pequena história" interessantes, esclarecedores, aqui e ali pepitas desgarradas a dourarem as "grandes narrativas" que sempre surgem.Este é um dos campos onde este bloguismo poderá ser bem interessante. Pois permite a composição fragmentada das memórias avulsas e sua divulgação (e até comentários recompositores). Sem a preocupação do calhamaço à hora da morte, sem a demanda do editor de quase óbvio futuro mono.Hoje Vital Moreira dá um pequeno exemplo disso. Mas não é ele um bom exemplo do que quero afirmar, pois sobre figuras da sua nomeada são recorrentes biografias autorizadas ou auto-biografias (ou começam a ser recorrentes, pequena diferença).Nesta nota, neste reparo de ausência, eu refiro-me em particular às memórias dos cidadãos incélebres* os quais, em especial se de excêntricas (em sentido literal) biografias, nos podem trazer contributos tão mais interessantes à ilustração e compreensão das épocas.É também por isso (e lá vem o elogio semanal) que tanto aprecio e recomendo o Bota Acima. Não só pela sua simpatia, pelo aparente desalinhado do autor (um meu "mais velho") e pela elegância do teclado. Mas também porque lá se intervala o humor caústico sobre o presente com trechos bem ricos de memórias, que botadura a botadura ali vão constituindo tomo que se quer não mono.Refiro ainda a galáxia de blogs em torno do Abre Latas, com os seus múltiplos sovietblogs, onde o autor revisita a sua experiência como estudante na URSS nos anos 80. Onde o objectivo memorialista se cruza com uma espécie de monografia de época.Enfim, caminhos que acho exemplares, não como obrigatórios mas sim como real e literalmente exemplares.[Se alguém conhecer outros blogs que tenham esta dimensão avise, sff][* não é uma miacoutada, é mesmo ignorância: como definir alguém não célebre sem o desvalorizar de "desconhecido", "mediano", "incógnito" ou algo similar? avisem, sff]

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publicado às 16:05



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